CAPÍTULO I

PRIMEIRAS PALAVRAS

O entusiasmo que nos despertou a pesquisa em fontes primárias, incursão a que jamais nos havíamos dedicado anteriormente, levou-nos, inicialmente, a estabelecer, como limite temporal desta empreitada, o termo inicial no ano de 1835 – data da criação da Polícia Militar do Espírito Santo – , e o termo ad quem em 1988, pela relevância que adquiriu no contexto político brasileiro, em virtude de, nele, ter sido promulgada a Constituição Federal hoje vigente, resultante de amplo processo democrático levado a efeito pelo Congresso Constituinte.

A unidade de análise inicialmente pretendida era o militar, aí compreendidos oficiais e praças da Corporação.

Com o início da pesquisa documental, constatamos, porém, que a dilação temporal e o universo de indivíduos a serem pesquisados inviabilizariam o presente trabalho.

Mesmo porque, já na fase embrionária do levantamento bibliográfico, verificamos que nenhum outro pesquisador se havia dedicado exclusivamente ao estudo do tema em comento.

A mais criteriosa obra sobre a Polícia Militar do Espírito Santo é da lavra da Professora SONIA MARIA DEMONER História da Polícia Militar do Espírito Santo – 1835-1985, Departamento de Imprensa Oficial, 1985, Vitória, ES, Brasil, editada quando da comemoração do sesquicentenário da Polícia Militar do Espírito Santo e resultante de minuciosa pesquisa documental. A par do seu relevante valor histórico, não cuidou, entretanto, de forma específica, da questão referente à instrução e formação dos milicianos.

Malgrado a patente preocupação da Corporação com a manutenção de seus documentos, através da instituição do arquivo, a dispersão do rico acervo carinhosamente mantido pelos servidores destacados naquela seção transformou a pesquisa em verdadeiro garimpo, obrigando o interessado na História da PMES (Assim nos referiremos, algumas vezes, a Polícia Militar do Espírito Santo) a bater incansavelmente sua bateia, em busca das verdadeiras pedras preciosas lá existentes.

A tentativa do levantamento das normas jurídicas referentes à Corporação levou-nos à constatação da ausência de consciência do valor histórico de leis, decretos-lei e decretos que não mais se encontram em vigor, pela instituição. Fomos levados a esta conclusão, quase que ao acaso, em contato com a Doutora VERÔNICA FÉLIX CORDEIRO, advogada militante no Estado do Espírito Santo, especializada em Direito Militar e egressa dos quadros da PMES. Narrou-nos a jurista – integrante da primeira turma de Sargentos Femininos da Polícia Militar do Espírito Santo – que quando ainda na corporação, procedeu a levantamento de toda a legislação pertinente à milícia estadual, compilando as normas jurídicas editadas no período compreendido entre 1835 e 1960, datilografando-as em duas vias e, com isto, formando dois volumes – de igual teor –, que ficaram depositados na PM/1 – Seção do Estado-Maior da PMES responsável pela manutenção de tais documentos. Baldados, entretanto, foram nossos esforços no sentido de localizar o valioso trabalho, cujo paradeiro é desconhecido, inclusive pela própria seção.

Valemo-nos, então, do acervo existente na Assembléia Legislativa do Estado do Espírito Santo, ocasião em que pudemos constatar que na biblioteca daquela Casa de Leis só poderíamos ter acesso às normas jurídicas editadas a partir do ano de 1947.

Desta forma, as leis em sentido lato que nos interessavam e que eram anteriores ao ano de 1947 foram buscadas no Arquivo Público Estadual e retiradas de transcrições encontradas nos boletins do Comando Geral da Polícia Militar.

Outro óbice com o qual nos defrontamos foi o volume de informações a serem examinadas no ventre dos boletins do Comando Geral.

Como o período pretendido era de 1835 a 1988, deveriam ser analisados os dados constantes nos boletins editados nos cento e cinqüenta e três anos pretendidos. Tais publicações, no entanto, eram – como ainda o são – diárias. Desta forma, para cada um dos anos pesquisados, existem quatro volumes encadernados, totalizando seiscentos e doze tomos. Um volume congrega, via de regra, três meses.

Se se considerar, assim – descontados os sábados, domingos e feriados –, que um mês possui, em média, vinte dias úteis, atingiríamos a marca de trinta e seis mil, setecentos e vinte boletins, cada um deles com, no mínimo, três páginas, o que nos levaria ao astronômico número de cento e dez mil, cento e sessenta páginas, aproximadamente, a examinar.

Os números falam por si e a consciência da sua dimensão nos levou a reavaliar os parâmetros da pesquisa.

Destarte, fomos obrigados a tornar bem mais modestas as nossas pretensões iniciais, procedendo ao exame dos boletins do Comando Geral da Polícia Militar, por amostragem, nos anos de 1930, 1940, 1950, 1960, 1970, 1980 e 1988.

Em nossos contatos com a Diretoria de Ensino e com o Centro de Formação e Aperfeiçoamento da milícia estadual, apuramos que nem a própria Polícia Militar tem, sistematizados, os registros de seus cursos de formação, não obstante o Centro tenha sido recentemente criado, conforme esclareceremos no Capítulo V deste trabalho.

No que se refere ao universo da categoria pesquisada, além da dispersão das informações, defrontamo-nos com a existência de várias formas de instrução e formação de praças, que compreendiam soldados, anspeçadas (Do italiano, lancia spezzata, lança despedaçada, in Dicionário Aurélio, pág. 127. Nome que se dava, antigamente, à graduação da hierarquia militar acima de soldado e subordinado ao cabo, in Koogan/Houaiss, pág. 55), cabos, sargentos e subtenentes, divididos em combatentes e especialistas e classificados em diversas categorias, cada uma delas diversa da outra.

Deste modo, para tornar viável o trabalho que nos propusemos levar a efeito, focamos nosso interesse apenas nos soldados da Polícia Militar do Espírito Santo. Tal decisão, entretanto, não foi aleatória e tem sua razão de ser no fato de serem os soldados a parcela numericamente mais significativa da tropa e aqueles que, pela própria função, estão à frente dos combates, na lida diária com a sociedade.

Não espere, assim, o leitor encontrar referências minuciosas e conclusivas em relação a outros cursos de formação, que não o de soldados.

Isto não significa, porém, que não nos utilizaremos das grades curriculares e de notas sobre outras graduações (Grau hierárquico militar referente à praça) e mesmo de postos (Grau hierárquico militar do oficial) da hierarquia militar para estabelecer comparações entre o desempenho das funções e o conteúdo programático ministrado.

Outra das inúmeras dificuldades que enfrentamos na realização do presente trabalho diz respeito ao vocabulário utilizado.

Anote-se, inicialmente, a peculiaridade das expressões de época, pois que a análise remonta, teoricamente, a 1835.

Não bastasse, a arte militar é fecunda em termos técnicos que, muitas das vezes, adquirem outra significação quando examinados em um contexto meramente civil.

Por isto – e objetivando facilitar a compreensão do texto – optamos por inserir, a cada um dos termos que nos pareceram desconhecidos ou peculiares uma nota de rodapé, com sua conceituação.

As expressões sinônimas, conceitos e definições as buscamos em diversas fontes, do tradicional Dicionário Aurélio a compêndios de Direito Militar, sendo necessária a busca de outros através de instrumentos disponibilizados pela internet como, v. g., o Dicionário Larrouse.

Procuramos, outrossim, ao final de cada nota, mencionar sua fonte, o que não ocorreu em todas as ocasiões, pois que algumas definições resultaram, ainda, do concurso voluntário de muitos dos nossos amigos pertencentes à milícia capixaba.

Posto isto, urge ressaltar que a análise das normas jurídicas, das diretrizes de ensino, dos boletins do Comando Geral da Polícia Militar do Espírito Santo, foi feita numa singela tentativa de reconstituir a instrução e a formação dadas ao soldado da PMES, ao longo dos anos aqui estudados.

Ao final do trabalho teremos dado apenas um passo na direção do objetivo colimado em nossa tese doutoral, que é traçar o perfil do soldado desejado, buscado e formado pela Polícia Militar do Espírito Santo, no decorrer da história da corporação.

Com isto, pretendemos propiciar o estudo das causas da violência policial militar, a partir do estudo da existência ou não de uma relação entre a extração do agente de polícia de sua classe social, sua formação, sua prática profissional e das tensões daí resultantes.

Traçar um perfil dos agentes de polícia integrantes da corporação capixaba (O termo capixaba é utilizado para designar aquele que é nascido no Município de Vitória e, por extensão, na linguagem coloquial, no Estado do Espírito Santo.  Vem do tupi, significando pequena roça de milho).

Este é um sonho que acalentamos tornar realidade em outra jornada quando e se nossas dúvidas propiciarem a continuação das análises por profissionais de áreas correlatas.

Este o roteiro a ser seguido.