CAPÍTULO VI

FORMAÇÃO E INSTRUÇÃO DOS SOLDADOS NO ANO DE 1930

  Pela dispersão dos documentos e extensão dos arquivos da Polícia Militar do Espírito Santo, não encontramos registros específicos do conteúdo programático da instrução ministrada aos soldados da corporação no ano de 1930.

Em virtude de tal dificuldade, procedemos à verificação dos Boletins do Comando Geral da instituição castrense no ano referido, deles podendo extrair interessantes dados sobre o tema.

O Boletim n° 03, de 04 de janeiro de 1930, registra um programa de instrução, apresentado pelo Capitão Benedicto Castro de Oliveira, instrutor, destinado a vigorar no decorrer daquele ano.

Do programa se extrai, inicialmente, que cada uma das unidades da Corporação tinha uma previsão de instrução diversa da outra, amoldando-se às suas necessidades e peculiaridades. Assim é que há um programa para o Pelotão de Cavalaria, um para a Infantaria e um para os oficiais.

Infere-se, também, que as aulas para as praças do Pelotão de Cavalaria eram ministradas de manhã e à tarde, de segunda-feira a sábado, durante os meses de janeiro a agosto, ficando determinado que nos meses de setembro e outubro a cavalaria tomaria parte nas manobras da Infantaria ou, quando não houvesse instrução para a Infantaria, os alunos daquela subunidade dedicar-se-iam a fortificação e organização do terreno.

O programa pode ser subdividido em aulas práticas de equitação, conhecimento e manejo de armas a cavalo e a pé, noções de hipologia e higiene dos animais, matérias relacionadas à disciplina militar e outras, relacionadas à segurança.       

As aulas práticas de equitação são denominadas de Escola de cavalleiro a cavallo e, por seu turno, compreendem trabalho em reprise e trabalho individual. Aqui vale ressaltar a utilização do termo reprise, cujo significado está diretamente ligado à equitação e que encontramos após exaustiva pesquisa na internet, no dicionário Larouse On Line.

O termo reprise, quando usado no contexto da equitação, pode significar lição dada ao cavaleiro ou o conjunto de cavaleiros que, ao mesmo tempo, trabalham igual manejo do animal. Significa, ainda, o conjunto de figuras executadas por um ou vários cavaleiros, de acordo com uma ordem e um traçado determinados. Desta forma, partindo-se do pressuposto de que existe um trabalho individual de equitação, reprise, no programa, refere-se, provavelmente, aos trabalhos que os alunos-cavaleiros executavam em conjunto.

Ainda com relação à equitação, o programa menciona os volteios e salto de obstáculos, além de trabalho em retângulo móvel.  Os exercícios são realizados com e sem estribo e com e sem armas.

A equitação é, ainda, relacionada ao uso de arma (sabre e clavina) e, por uma questão meramente por uma questão de ordenamento da matéria, para exposição neste trabalho, a inserimos na subdivisão relacionada a conhecimento e manejo de armamento.

As armas usadas na época são referidas pelo instrutor como clavinas (Segundo o Dicionário de Termos Técnicos da Área de Armas & Munições, de Roberto de Barros Pimentel, clavina é o nome genérico de Armas Longas e de canos raiados, principalmente na região Norte/Nordeste do Brasil, p 14), sabres (sabre é uma arma branca, reta ou encurvada, com um só gume), lanças e F. M. (Não encontramos significado exato para o termo F. M. Entretanto, o Dicionário mencionado na nota 36, de Roberto de Barros Pimentel conceitua F. O. como fuzil ordinário: nome genérico que se dá ao fuzil Mauser 1908 KAR e seus sucessores . O Capitão Julio Barbosa de Almeida, em sua obra já citada, refere-se a munição Mauser (pág. 72), o que nos leva a crer que a abreviatura utilizada no programa refira-se a fuzil Mauser).

As aulas relacionadas com o conhecimento e manejo de armas a cavalo e a pé incluíam estudos sobre as armas, instrução técnica e tática do atirador e combinação de exercícios de equitação com exercícios de tiro. É relevante ressaltar, aqui, a matéria denominada banho a cavalhada ou exercícios de tiro, que, considerando-se que cavalhada é sinônimo de cavalgada, há de significar exercícios de tiros dos cavalheiros em conjunto e em movimento.

No grupo das matérias que denominamos como noções de hipologia e higiene dos animais, de janeiro a abril eram ministrados conhecimentos sobre a divisão e nomenclatura do corpo do cavalo e previstas toilettes aos mesmos, com revista passada pelo veterinário e instrutores nas tardes de sábado. As restantes noções de hipologia – como a pelagem, defeitos, moléstias súbitas, acidentes e socorros de urgência – eram ministradas de maio a agosto.  Em nossa avaliação isto denota que já havia uma preocupação com a gradação de dificuldades nas disciplinas ministradas, pois primeiro era esclarecida a anatomia do animal para, só depois, dar movimento àquele diagrama anátomo-topográfico, conferindo-lhe moléstias e acidentes. Não há referência se os socorros de urgência são para os animais ou para os cavaleiros, mas a rubrica está inserta na disciplina Noções de Hipologia, o que nos faz tender a interpretá-la como dirigida aos cavalos.

No subgrupo que convencionamos denominar de disciplinas relacionadas à segurança, encontramos as Aulas sobre prescripções para as marchas (cuidados que o cavalleiro deve ter comsigo e com o seu cavallo), Escola de Secção (Terminando com manejo d’armas), na primeira parte do curso (janeiro a abril) (Secção, sob o ponto de vista militar, quer dizer a quarta parte de um esquadrão; subdivisão de baterias em um número limitado de soldados e bocas de fogo, in Koogan/Houaiss, pág. 766).

Na segunda parte do curso (maio a agosto), Serviço em Campanha (Expedição militar, op. cit., pág. 154), Segurança em marcha, Segurança em estação, Bivaques (Acampamento temporário, ao ar livre; lugar de acampamento, op. cit., pág. 123), Conhecimento e utilização do terreno, Theoria sobre o Serviço de segurança em geral, Deveres da ponta, das vedetas (Guarita de sentinela, em posto elevado, op. cit., pág. 870), patrulhas, etc.(sic), senha e contra-senha.

No tocante à disciplina militar há o ensino de continência, com a sua pertinente tabela, ou seja, como prestar continência em diversas situações, pois, segundo se verifica da Instrução Modular (Cap PM Fronzio Calheira Motta et all, 4ª ed., 1997), hoje ministrada às praças da PMES, existe um Regulamento de Continências. Naquela época, o registro que se encontrou sobre o assunto foi o Decreto 100, de 02 de abril de 1891, que aprovava a tabela das continências que se devem observar no Exército. A tabela se aplicava à GUARDA DE POLÍCIA PROVINCIAL deste Estado, por força do disposto no art. 6° da Lei Provincial n° 09, de 06 de abril de 1835, que dispunha, verbis:

 

Art. 6° - O Regulamento, economia, disciplina e recrutamento serão provisoriamente conforme o do exército; não haverão porém castigos de pancadas e chibatadas.

 

Estas as previsões para o Pelotão de Cavalaria.

O conteúdo programático para a Infantaria encontra-se, também, previsto no mesmo Boletim e não diverge do da especialidade já examinada quanto à distribuição das disciplinas em quatro trimestres. A previsão da instrução, no entanto, é apenas para a parte da manhã, pelo menos no primeiro quadrimestre, realizando-se de segunda-feira aos sábados.

De janeiro a abril há previsão das seguintes disciplinas: ginástica educativa e de aplicação, escola do soldado e escola de secção (ordem unida), ocorrendo duas vezes por semana; exercício de tiro e serviço de segurança imediata, ambos durante a marcha, uma vez por semana. Aos sábados, havia revista e desfile.

No período compreendido entre os meses de maio a agosto, as aulas do  sábado eram, igualmente, reservadas à revista e desfile. Permaneciam as aulas de escola de secção e escola do soldado uma vez por semana, havendo, ainda, a previsão de exercícios de maneabilidade (Conjunto de exercícios preparatórios de combate, para mostrar a mecânica dos movimentos mais comuns em campanha e aperfeiçoar a capacidade de decisão dos quadros e a rapidez de execução da tropa, sem prejuízo da ordem e da coesão, in Dicionário Aurélio, pág. 1.078) – nas modalidades de grupo de combate, secção e companhia, exercício de tiro, elementos do serviço em campanha e Escolas de companhia e de batalhão (ordem unida).

Nos meses de setembro e outubro, o curso constituía das disciplinas Serviço em Campanha (Estacionamento), Trabalhos de Campanha (Fortificação e Organização do Terreno), Manobras de Dupla Ação (resolução de um tema tático), Exercícios de Transmissão e de Ligações, Marchas (de resistência, forçada e à noite), durante a semana. Aos sábados a previsão era de descanso ou desfile.

Apenas para que sirva de paradigma, o programa de trabalho dos oficiais também está previsto no mesmo documento, com aulas de segunda-feira até o sábado, de manhã e à tarde, no período de janeiro até agosto. As matérias lecionadas eram ginástica educativa e de aplicação, equitação, esgrima de florete, na parte da manhã. Também integrava os estudos uma disciplina chamada simplesmente de instrução militar, sem maior especificação de seu conteúdo. No período da tarde eram ministradas as aulas de Nomenclatura de Armas Automáticas, Topografia, Elementos do Serviço em Campanha, Organização do Terreno, Tiro (Noções de Balística) e Tática.

No mesmo boletim são transferidos para a Companhia Escola, para completar o novo quadro, três sargentos, sete cabos e o 2° Tenente NICANOR FRANCISCO DE AZEVEDO PAIVA, em permuta não voluntária com o também 2° Tenente JAYME DOS SANTOS SILVA.

Ordem genérica do comando geral é, ainda, observada no mesmo documento, no sentido de que, a partir do dia 07.01.1930 todos os oficiais e praças prontas e de folga, bem como as empregadas na Secretaria, Sala de Ordens, Contadoria, Almoxarifado, Gabinete Dentário, além dos furriéis, deveriam comparecer aos exercícios pela manhã. Às praças do Rancho e Enfermaria obrigavam-se aos exercícios às terças e sextas-feiras, das 13:30 às 15:00 horas.

Havia, ainda, ordem para que as praças formassem armadas e equipadas.

Tais determinações não parecem aplicar-se aos militares em formação, dada a sua incompatibilidade com os horários contidos nos programas de instrução apresentados pelo Capitão Instrutor BENEDICTO CASTRO DE OLIVEIRA e aprovados pelo Comandante Geral.

O Boletim n° 5, de 07 de janeiro de 1930, trouxe determinação para que os Comandantes de Companhias providenciassem a alfabetização de todas as praças, matriculando-as na Escola Regimental (Boletim n° 6, de 8 de janeiro de 1930). O professor era, na época, o 2° Ten BRÁULIO DE MIRANDA FRANCO, falecido às 12:15 horas do dia 13.01.1930 (Boletim n° 10, de 13.01.1930)

No mesmo Boletim, programa de instrução da Companhia de Bombeiros, para o primeiro semestre do ano de 1930. As aulas seriam de segunda a sábado e seu horário, pela  manhã, das 06:00 às 08:00 horas e à tarde das 15:00 às 15:00 horas. Já então existia a previsão do dia da semana, horário, matéria e instrutores.

Apesar do Comandante da Cia. de Bombeiros figurar como instrutor, quer nos parecer que a instrução para aquela força era ministrada pela Companhia Escola, pois figuram como instrutores o Ten JAYME e o Sgt ABDON, ambos transferidos para aquela subunidade pelo Boletim n° 3, de 04 de janeiro de 1930.

Para registro, apenas, a Companhia Escola contava, em janeiro de 1930, com um efetivo de sessenta e oito praças, sendo um primeiro-sargento, três segundo-sargentos, quatro terceiro-sargentos, oito cabos e cinqüenta e dois soldados. Alguns dos soldados – autoriza a conclusão o exame dos nomes dos civis alistados naquele ano – eram recrutas no ensino, muito embora existam registros de recrutas incluídos no efetivo de outras companhias.

Pelo Boletim n° 14, de 17 de janeiro de 1930, conclui-se que o Cap JULIO BARBOSA DE ALMEIDA obteve seis meses de licença com vencimentos, para tratamento de saúde, através do Decreto Presidencial n° 9.928, de 16.01.1930. No mesmo documento há notícias de que o Oficial deslocou-se para Domingos Martins, cidade do interior do Espírito Santo, com clima de montanha.

A presença de militares de outras Unidades da Federação entre os instrutores fica evidenciada no Boletim n° 29, de 04 de fevereiro de 1930. O documento refere-se ao 1° Tenente Domingos Maisonnette, do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, que aqui exercia funções de Comandante do CBom e instrutor.

Da mesma forma o Boletim 33, de 08 de fevereiro de 1930 menciona o 2° Sgt VIRGÍLIO GOMES JÚNIOR, da Força Pública de São Paulo, que atuava neste Estado como instrutor do Pelotão de Cavalaria.

Muitos dos documentos do Comando Geral examinados prevêem a realização de instrução geral, para o dia subseqüente, para praças prontas e empregadas, internas e externas, Pelotão de Cavalaria, Banda de Música e Corneteiros e Corpo de Saúde. O primeiro dar-se-ia toque às 05:15 horas, o de avançar às 05:30 horas e a saída do quartel às 06:00 horas. Determinações neste sentido são encontradas no Boletim n° 66, de 21 de março de 1930, Boletim n° 72, de 28 de março de 1930, Boletim n° 123, de 04 de junho de 1930, Boletim n° 130, de 13 de junho de 1930, Boletim n° 132, de 16 de junho de 1930.

Outras vezes, a referência é a exercício geral, com bandeira e música, do qual deveriam participar todas as praças prontas e empregadas, internas e externas,inclusive corpo de saúde e exclusive as do Palácio, Secretaria do Interior e Cozinheiros. Neste tipo de treinamento, a alvorada dar-se-ia às 03:30; café às 04:00, primeiro toque às 04:10 e avançar às 04:20 horas. Previsões como esta a que nos referimos são encontradas no Boletim n° 78, de 04 de abril de 1930.

Já no Boletim n° 151, de 10 de julho de 1930, a instrução geral, que prevê a participação de todos os empregados internos e externos, existe a formulação de um problema prático, que simula a demanda entre dois partidos, um denominado branco e outro azul. O exercício externo contaria com a participação, ainda, da ambulância, padiolas, enfermeiros e padioleiros. A tropa deveria deslocar-se com equipamento completo e os oficiais levariam régua, prancheta, lápis, escala de duplo passo, alidade (Régua de madeira ou metal, que gira em torno de um dos seus pontos, e da qual uma das extremidades se move sobre uma escala ou sobre uma prancheta de topógrafo. A alidade serve para medir ângulos na determinação dos alinhamentos de um terreno, visando-se o objeto por meio de uma espécie de luneta, chamada pínula in Koogan/Houaiss, pág. 36). Cada uma das seções participantes deveria levar dois baldes e dois pares de bandeirolas.

O Boletim n° 81, de 08 de abril de 1930, abre matrícula para o curso profissional militar, pelo prazo de cinco dias. O programa de tal curso vem especificado no Boletim n° 82, de 09 de abril de 1930. O horário das aulas era de 06 às 09:00 e das 13 às 14:30 horas, de segunda-feira a sábado. Dentre as disciplinas constantes do programa, as ministradas pelo Cap Castro, no turno da manhã: ginástica (quatro aulas por semana), esgrima (duas aulas por semana), instrução militar (quatro aulas por semana), Noções Teóricas e Práticas de Topografia (uma aula por semana). Aos sábados havia sabatina, ministrada pelo mesmo Oficial. O Professor Maia era responsável, no turno da tarde, pelas aulas de Aritmética Elementar (três aulas por semana), Língua Pátria (três aulas por semana), Instrução Moral e Cívica (duas aulas por semana), Corografia (Estudo geográfico de um país ou de uma de suas regiões) do Brasil, Geometria Elementar, Noções de Geografia Geral (uma aula por semana).

Outro dos instrutores era o Cap Médico HILTON NOGUEIRA, que ministrava aulas de Noções de Higiene, nos sábados à tarde.

O curso seria realizado de janeiro a maio, com aulas de escola do soldado e escola de secção (ordem unida e maneabilidade). Para o mês de junho estavam previstos os exames parciais e férias de inverno. De julho até outubro haveria lições de Escola de companhia (ordem unida e maneabilidade), Elementos do Serviço em Campanha e Organização do Terreno.  Para o mês de novembro foram aprazados Exercícios em Campanha fora da Capital e exames finais.

O resultado dos exames de admissão foi publicado no Boletim 96, de 29 de abril de 1930. Dos pretendentes, um não compareceu, três foram reprovados, um foi aprovado com distinção (nota 10), quinze plenamente (notas que variam entre 6,0 a 9,5) e três aprovados simplesmente (notas entre 4,0 e 5,0).

A existência de avaliações periódicas das aulas ministradas fica evidenciada por anotações contidas no Boletim 93, de 24 de abril de 1930. Neste documento, existe a previsão para o dia seguinte, às 06:30 horas, do exame de recrutas das turmas dos Sargentos instrutores FLORENTINO GONÇALVES DE OLIVEIRA e RAYMUNDO FRANCISCO DE ARAÚJO.

Para avaliação dos recrutas, o Comando Geral designou comissão formada pelo Cap HERMÍNIO SILVEIRA e 2° Ten SIDRONILIO FIRMINO, com a assistência do Capitão Instrutor.

Igual previsão consta do Boletim n° 145, de 03 de julho de 1930, que designa comissão para examinar os recrutas da secção do 3° Sgt LUIZ SOARES. O presidente era o Cap BENEDICTO DE CASTRO OLIVEIRA, Instrutor do Regimento Policial Militar do Estado do Espírito Santo, nome dado à PMES naquela época.

Monitoramos, ainda o resultado do exame que consta do Boletim 95, de 26 de abril de 1930, À sua leitura, constatamos a existência de militares pertencentes a todas unidades e subunidades do Regimento de Polícia submetidos à instrução. São constituídos de Sargentos, Cabos Anspeçadas e Soldados.

A função de monitor era gratificada, conforme faz certo o Boletim 94, de 25 de abril de 1930. Nele, existe autorização para o pagamento da gratificação de monitor, por fazerem jus a ela, aos Sargentos RAYMUNDO FRANCISCO DE ARAÚJO, CARLOS PENNA SOBRINHO, ABDON RODRIGUES CAVALCANTE, LUMBERTO MACIEL DE AZEVEDO e LUIZ SOARES. Eram, também, monitores os Cabos GUILHERME BENTO DE AZEVEDO, PEDRO MAIA DE CARVALHO, OLINDO DE ALMEIDA ROSA, PEDRO PAULO DE AVELLAR, MANOEL PADILHA DE BARROS e JOSÉ AUGUSTO DE MENDONÇA.

O Boletim n° 132, de 16 de junho de 1930, registra que o 1° Ten ADELMIRO NERY substituiu, interinamente, o Cap DOMINGOS ALMEIDA COSTA, na Companhia Escola, conforme parte de 14.06.1930.

As aulas práticas eram igualmente prestigiadas, o que se conclui dos reiterados exercícios e instruções realizados dos exercícios especificamente de tiro, cuja previsão pode-se verificar no Boletim n° 144, de 02 de julho de 1930, que determina providências para remoção de praças e oficiais para o stand de tiro.

Os sargentos, cabos, anspeçadas e soldados eram declarados aptos para o exercício de suas funções. Tal conclusão é autorizada pela leitura do Boletim n° 145, de 03 de julho de 1930 e Boletim n° 151, de 10 de julho de 1930, Boletim n° 186, de 22 de agosto de 1930, que declara aquelas praças prontas da instrução de recrutas.

O Boletim de 03 de julho, acima referido, designa, por indicação do Capitão Instrutor, oficiais para lecionarem no Curso Profissional Militar. O programa de ensino deveria ser apresentado pelos próprios professores ao Instrutor, no prazo de oito dias a contar da publicação.

As disciplinas do Curso Profissional Militar se constituíam em Topografia, Armamento e Tiro, Direito Comum, Organização Policial e Judiciária, Administração Militar e Organização de Terreno.

Novamente a previsão de concurso, desta feita para cabo de esquadra, contida no Boletim n° 146, de 04 de julho de 1930. Do exame de tal documento fica autorizada a conclusão de que havia a necessidade de inscrição dos interessados, devidamente autorizada pelo Comandante (anotações constantes do Boletim n° 147, de 05 de julho de 1930, do Boletim n° 149, de 08 de julho de 1930, do Boletim n° 151, de 10 de julho de 1930, do Boletim n° 153, de 12 de julho de 1930).

A banca examinadora do concurso para cabo de esquadra era composta do Capitão Instrutor e mais dois oficiais (Boletim n° 150, de 09 de julho de 1930) e o encerramento das inscrições consta do Boletim n° 154, de 15 de julho de 1930. Catorze foram os soldados aprovados, sendo a maior média de 7,10 e a menor 4,0.

O Boletim n° 147, de 05 de julho de 1930, determina a ocorrência de aulas para os oficiais às terças e quintas-feiras e sábados, das 14:00 às 15:00 horas, ministradas pelo Professor Costa Maia.

Com o Boletim n° 150, de 09 de julho de 1930, foi transcrito ofício do Secretário do Interior recomendando economia e determinando não fossem preenchidas as vagas verificadas nas fileiras do Regimento, diante da grave crise porque passava o Estado, o que é historicamente coerente diante do que expusemos no Capítulo III sobre o crack da Bolsa de Nova Iorque e a depressão no ano de 1929.

Tal ordem foi revogada através do Boletim n° 224, de 08 de outubro de 1930, onde o Secretário do Interior e Justiça autoriza a preencher os claros existentes nas fileiras do Regimento.

Menção à Escola Regimental é encontrada no Boletim n° 153, de 13 de julho de 1930.

O Boletim n° 154, de 15 de julho de 1930, registra a oferta de músicas pelo Capitão Instrutor, ao Regimento, para a lição de ginástica sueca.

Com a reassunção do Comando da Companhia Escola pelo Cap DOMINGOS DE ALMEIDA COSTA (Boletim n° 155, de 17 de julho de 1930), deixa suas funções o interino 1° Ten ADELMIRO NERY.

O Boletim n° 160, de 22 de julho de 1930, apresenta um extenso programa de manobras (As manobras visam o adestramento da tropa, com seu deslocamento da unidade) em campanha para os meses de julho e agosto em Cariacica.

Gostaríamos, apenas ilustrativamente, de esclarecer que a arte bélica de escolher o local para o acampamento denomina-se castrametação.

No programa acima referido, previu o Comandante Geral a saída antecipada de uma companhia para preparar o terreno para o acampamento (Local de estacionamento da tropa, em barracas, no campo) do batalhão. Incumbia ao grupo de instalação armar as barracas, organizar esgotos e privadas e instalar a guarda de polícia.

Marcha, fracionamento, guarda e patrulha são algumas das atividades previstas para o dia 31.07.1930.

No dia 01.08 estavam previstos exercícios de maneabilidade e marcha de aproximação sob o fogo da artilharia e da infantaria inimiga; o combate dar-se-ia nas modalidades de assalto e retirada.

A parte da tarde estava reservada à limpeza de armamento e à instalação de pequenos postos a la Begeaud.

Para o dia 02.08, marcha e ação de destacamento objetivando requisição de víveres e à tarde instrução dos sinaleiros e dos estafetas a pé. Também neste dia encontrava-se prevista a única noite de lazer, com canções regionais, anedotas e contos militares.

O programa menciona, para o dia 03, se possível, a transformação do acampamento em acantonamento (Área de alojamento da tropa em local construído, quando são aproveitadas instalações já existentes. Deriva de acantonar, ou seja, dispor ou distribuir tropas por cantões), em Cariacica e, no dia seguinte, regresso à Capital.

Deveriam estar presentes ao acampamento o serviço de saúde e o médico do Regimento.

A programação é tão minuciosa que até mesmo a roupa que a tropa deveria levar encontra-se arrolada, constituindo-se em: uma camisa, uma ceroula, dois pares de meias, um colarinho, dois lenços, uma toalha de rosto, uma vela, uma túnica cáqui, um culote cáqui, um par de botinas, botões, linha branca e preta e agulha; escovas para dentes e calçados, sabão e artigos para conservação do armamento (estes não especificados).

A alimentação seria preparada no acampamento.

O Boletim n° 162, de 24 de julho de 1930, nomeava almoxarife e aprovisionador para o acampamento, enquanto que o Boletim n° 163, de 25 de julho de 1930 previa que o acampamento seria comandado pelo Capitão comandante da Companhia Escola, contando, ainda, com um sargenteante, um furriel, 05 sapadores (Que ou aquele que tem a seu cargo a execução de trabalhos de sapa. Sapa abertura de caminhos subterrâneos, fossos, trincheiras, in KOOGAN/HOUAISS, pág. 762), quatro sinaleiros, três estafetas (mensageiros) e um condutor.

No acampamento estariam envolvidas três seções da infantaria, o serviço de saúde, a intendência (Serviço encarregado de prover às necessidades dos militares (soldo, alimentação, roupas etc.), in KOOGAN/HOUAISS, pág. 472), aprovisionamento e um trem de combate, integrado por um sargento chefe de trem, um cozinheiro e seu respectivo ajudante e dois soldados de rancho.

A saída do quartel, para acampamento, foi determinada no Boletim n° 166, de 29 de julho de 1930, assim como do arranchamento dos militares que se encontravam desarranchados, especialmente para os fins da manobra.

Como previsto inicialmente, o acampamento foi visitado pelo Comandante Geral do Regimento, no dia 31.07.1930, que fez constar no Boletim n° 168, de 31 de julho de 1930 o excelente estado sanitário do local, a disciplina e cordialidade reinantes entre a tropa e as atenções dispensadas aos militares pelas autoridades e população local. Tais pessoas ofereceram brindes aos militares acampados, conforme registrado no Boletim n° 173, de 06 de agosto de 1930, mesmo documento em que a fração recebeu elogios do comando pelo belo exemplo de civismo, ordem e respeito que deram, sendo ainda, concitada a continuar trilhando pela mesma estrada, conquistando de dia a dia a confiança e a simpatia do povo e pautando sempre a sua conduta pela observância das leis e regulamentos, de modo a se mostrarem dignos da farda que vestem.

A tropa retornou no dia 03.08.1930, consoante consta do Boletim n° 171, de 04.08.1930. Foi denominada companhia de guerra e se encontrava sob o Comando do Cap DOMINGOS DE ALMEIDA COSTA e direção geral do Capitão Instrutor BENEDICTO CASTRO DE OLIVEIRA.

O Boletim n° 165, de 28 de julho de 1930, nomeia o Cap BRAÚLIO PEREIRA DÓRIA para diretor do Curso Profissional Militar e para comandante da seção de alunos do Regimento o 2° Ten NILO RÉGIS.

Ainda se tratando de exercícios gerais, aos quais já nos referimos em ocasião anterior, estão previstos no Boletim n° 175, de 08 de agosto de 1930; Boletim n° 186, de 22 de agosto de 1930; Boletim n° 191, de 29 de agosto de 1930; Boletim n° 197, de 05 de setembro de 1930; Boletim n° 202, de 12 de setembro de 1930 e Boletim n° 214, de 26 de setembro de 1930.

Nova previsão de acampamento para o dia 14.08 é o que consta do Boletim n° 178, de 12 de agosto de 1930. Desta feita, o comando da companhia e a direção geral estavam a cargo dos mesmos oficiais que atuaram no exercício já declinado, contando, ainda, com três seções da infantaria, serviço de saúde, intendência e aprovisionamento, um sargenteante, um furriel, quatro soldados sinaleiros, um condutor, um sargento corneteiro e quatro soldados tambores corneteiros.

O grupo de instalação deveria preparar o bivaque de um batalhão em coluna dupla, havendo, também, a previsão de fortificação ligeira de campanha; cobartas e obstáculos; instalação e funcionamento de pequenos postos regulares e irregulares; sentinelas e patrulhas; manobra de dupla ação. O inimigo era figurado, ou seja, suposto ou não existente.

Este planejamento se nos afigurou menos minucioso do que o anterior, talvez já pela existência de normas expedidas pelo Comando Geral na ocasião pretérita já mencionada.

A ordem de partida constou no Boletim n° 179, de 13 de agosto de 1930 e o aviso de chegada no Boletim n° 182, de 18 de agosto de 1930.

Apenas para registro, pois não se constitui em objeto do presente trabalho, o Boletim n° 178, de 12 de agosto de 1930, traz, também, o programa de instrução para a Companhia de Bombeiros.

A preocupação com a instrução de igual forma transparece na instituição de um concurso estadual e um campeonato interno de tiro, pelo Comandante Geral do Regimento, com o objetivo de tornar mais eficiente a instrução de tiro de guerra. O regulamento, confeccionado pelo Capitão Instrutor, foi aprovado pela chefia maior da corporação e referia-se a tiro de guerra, com fuzil Mauzer, revólver ou pistola.

O campeonato interno era exclusivo para os oficiais e praças do Regimento, mas as provas estavam divididas entre oficiais, sargentos e cabos e soldados que concorriam apenas entre seus pares. À terceira prova, denominada Domingos Martins e constante de tiro de combate, só podiam concorrer companhias do Regimento de Polícia.

Foi instituído um distintivo para agraciar os militares do Regimento que se classificassem nas provas, sendo os dos oficiais de ouro, prata e bronze, segundo a classificação alcançada e dos subordinados (praças) de metal niquelado e de metal oxidado (Boletim n° 182, de 18 de agosto de 1930).

O Boletim n° 189, de 27 de agosto de 1930, demonstra que havia trincheiras no stand de tiros, construídas por soldados designados para atuarem como pedreiros e ajudantes do ofício.

Pelo menos dois eram os cursos regulares do Regimento de Polícia no ano de 1930: um Curso Profissional Militar e uma Escola Regimental (Boletim n° 197, de 05 de setembro de 1930).

Impedimento não declinado do Capitão Instrutor o levou a ser substituído temporariamente pelo Cap ÁLVARO COUTINHO DE FREITAS, de acordo com o que se verifica em anotação transcrita no Boletim n° 204, de 15 de setembro de 1930.

A instrução geral, que estivera suspensa, recomeçou a partir do dia 03 de novembro de 1930. O Boletim n° 245, de 30 de outubro de 1930, que previu o recomeço da instrução geral, designou, ainda, como instrutor o 2° Ten ARTHUR BAHIA FERNANDES DE BARROS.

Em complementação, o Boletim n° 246, de 31 de outubro de 1930, determinou aos comandantes de subunidades que apresentassem todas as praças de folga para a instrução geral.

Declara o Comandante Geral que a instrução será igual à do Exército, pois o Regimento é força auxiliar daquele.

As aulas dar-se-iam de 6:30 às 9 horas (instrução prática) e das 14:00 às 16:00 horas, este segundo período consistente na parte técnica, que deveria ser mais desenvolvida para os sargentos e reduzida ao essencial para as praças. Estas deveriam aprender: nomenclatura do armamento em uso, princípios regulamentares da disciplina, exigências do regulamento de continência e tudo que deve ser observado em serviços diários, interno e de guarnição.

O programa aprazou para, a partir da segunda semana a instrução de campo.

O horário foi modificado o horário, por conveniência do serviço, para funcionar da 15:00 às 16:30 horas (Boletim n° 249, de 05.11.1930).

No mesmo Boletim, determina o Comando sejam regularizados os trabalhos da Escola Regimental, no horário de 13:00 às 15:00 horas, diariamente.

Os trabalhos de instrução vão, desta forma, sendo organizados, determinando o Boletim n° 253, de 10.11.1930 ao Fiscal do Pessoal que todas as praças empregadas do Regimento comparecessem às quartas-feiras, no primeiro tempo (horário) de instrução.

Em homenagem às festas de final de ano – Natal e ano novo – a instrução foi suspensa até o dia 1° de janeiro de 1931, com reinício previsto para o dia 02 de janeiro de 1931. (Boletim n° 293, de 24.12.1930).

Um fato curioso que se notou foi que o Cap DOMINGOS ALMEIDA COSTA, Comandante da Companhia Escola, foi tido como desertor e preso aos 29.10.1930 (Boletim n° 244, de 29.10.1930). Sua liberdade, publicada no Boletim n° 248, de 04.11.1930, foi justificada pelo Comando Geral pelo fato de que o Oficial não teve o intuito de consumar crime de deserção e se ausentou por motivos imperiosos do conhecimento deste Comando. Os motivos, entretanto, não são especificados.

Anotações burocráticas de passagem de Comando da Companhia escola são encontradas no Boletim n° 242, de 27.10.1930, no qual o 2° Ten ELYZIO DA CUNHA LOUZADA passa  a chefia daquela OME (Organização militar estadual) ao 1° Ten ARTHUR DE ALMEIDA MELLO.

Estes os fatos relevantes que, a nosso juízo, puderam ser extraídos do ano de 1930, no que diz respeito à instrução e formação intelectual dos agentes policiais da milícia capixaba.

De acordo com o que nos propusemos inicialmente, daremos um salto de dez anos a fim de examinar normas similares as que neste Capítulo comentamos, agora já com referência ao ano de 1940.