MOMENTO HISTÓRICO

            Após uma viagem que durou pouco mais de dois anos o prestigiado comandante Vasco da Gama retornou a Lisboa, trazendo em seus navios um grande e valioso carregamento. A expedição fora um sucesso comercial e abria definitivamente o caminho para novos empreendimentos.

            Na realidade os portugueses já se aventuravam pelos oceanos. Pode-se dizer que a grande expansão ultramarina teve início em 1419 com o envio da primeira frota para a retomada da ilha da Madeira, ocupada por homens de Castela.. A partir de então a costa da África foi visitada e mapeada por diversas naus. Novas ilhas foram trazidas à ocupação lusitana. A. H. de Oliveira Marques, no seu História de Portugal, Editorial Presença, 1995, Lisboa, página 140, afirma que “pelos meados do século, os Portugueses haviam alcançado, ou pelo menos avistado algumas das Antilhas, o Nordeste do Brasil e o Nordeste do continente norte americano (Terra Nova e Groelândia)”.

            Muitas dessas aventuras permaneceram sob cauteloso sigilo, preservando  interesses econômicos ou políticos. Porém as repetidas viagens afastaram em definitivo as assustadoras narrativas envolvendo pavorosos monstros marinhos e relatos de mares de água fervente a espreita de marinheiros que se aventurassem a navegar em locais distantes das costas.  

            O pouco citado Fernão Mendes Pinto, o Marco Polo lusitano, passou 17 anos nos mares, visitando o Sudoeste Asiático, a China e o Japão, entre 1537 a 1554. Tomé Pires, especialista em assuntos asiáticos foi nomeado embaixador português na China, em 1516. A Coroa lisboeta designou António Tenreiro para acompanhar uma embaixada portuguesa a Pérsia, em 1519.

            Portugal, que já fora denominado como “o fim do mundo” conhecia agora, com justificado orgulho, uma fase de prosperidade com seu comércio em expansão. .

 

            Ninguém retratou com mais fidelidade o sentir do povo e o ufanismo da coroa lisboeta que Luiz de Camões. O épico Lusíadas fala da necessidade da mudança de rumo em Portugal, a ser consolidada através das aventuras marítimas e seus desdobramentos; descreve a nova alma portuguesa, toda ela nostálgica com a partida, brava ao enfrentar as dificuldades e o seu novo destino salvador, e, vitoriosa com as conquistas:

 

CANTO V

(...)

«Já a vista, pouco e pouco, se desterra

Daqueles pátrios montes, que ficavam;

Ficava o caro Tejo e a fresca serra

De Sintra, e nela os olhos se alongavam;

Ficava-nos também na amada terra

O coração, que as mágoas lá deixavam;

E, já depois que toda se escondeu,

Não vimos mais, enfim, que mar e céu.

«Assim fomos abrindo aqueles mares,

Que geração algüa não abriu,

As novas Ilhas vendo e os novos ares

Que o generoso Henrique descobriu;

De Mauritânia os montes e lugares,

Terra que Anteu num tempo possuiu,

Deixando à mão esquerda, que à direita

Não há certeza doutra, mas suspeita.

«Passamos a grande Ilha da Madeira,

Que do muito arvoredo assim se chama;

Das que nós povoamos a primeira,

Mais célebre por nome que por fama.

Mas, nem por ser do mundo a derradeira,

Se lhe aventajam quantas Vênus ama;

Antes, sendo esta sua, se esquecera

De Cipro, Gnido, Pafos e Citera.

«Deixámos de Massília a estéril costa,

Onde seu gado os Azenegues pastam,

Gente que as frescas águas nunca gosta,

Nem as ervas do campo bem lhe abastam;

A terra a nenhum fruto, enfim, disposta,

Onde as aves no ventre o ferro gastam,

Padecendo de tudo extrema inópia,

Que aparta a Barbaria de Etiópia.

«Passamos o limite aonde chega

O Sol, que para o Norte os carros guia;

Onde jazem os povos a quem nega

O filho de Climene a cor do dia.

Aqui gentes estranhas lava e rega

Do negro Sanagá a corrente fria,

Onde o Cabo Arsinário o nome perde,

Chamando-se dos nossos Cabo Verde.

«Passadas tendo já as Canárias ilhas,

Que tiveram por nome Fortunadas,

Entramos, navegando, pelas filhas

Do velho Hespério, Hespéridas chamadas;

 

 

 

 

CANTO VII

 

Vós, Portugueses, poucos quanto fortes,

Que o fraco poder vosso não pesais;

Vós, que, à custa de vossas várias mortes,

A lei da vida eterna dilatais:

Assim do Céu deitadas são as sortes

Que vós, por muito poucos que sejais,

Muito façais na santa Cristandade.

 

Não esquece o poeta “o sucessor de Pedro rebelado,  novo pastor e nova seita inventa; Vede'lo em feias guerras ocupado que ainda com cego error se não contenta”. Cabe, portanto ainda, aos heróis lusos, a tarefa de salvar a fé da ação separatista dos dissidentes, reafirmando a autoridade da Santa Sé.

 

Que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade!

Vede'los Alemães, soberbo gado,

Que por tão largos campos se apascenta;

Do sucessor de Pedro rebelado,

Novo pastor e nova seita inventa;

Vede'lo em feias guerras ocupado,

Que ainda com cego error se não contenta,

Não contra o superbíssimo Otomano,

Mas por sair do jugo soberano.

Vede'lo duro Inglês, que se nomeia

Rei da velha e santíssima Cidade,

Que o torpe Ismaelita senhoreia

(Quem viu honra tão longe da verdade?),

Entre as Boreais neves se recreia,

Nova maneira faz de Cristandade:

Para os de Cristo tem a espada nua,

Não por tomar a terra que era sua.

Guarda-lhe, por entanto, um falso Rei

A cidade Hierosólima terreste,

Enquanto ele não guarda a santa Lei

Da cidade Hierosólima celeste.

Pois de ti, Galo indino, que direi?

Que o nome «Cristianíssimo» quiseste,

Não para defendê-lo nem guardá-lo,

Mas para ser contra ele e derruba -lo!

 

Camões não era apenas um bardo desempenhando o papel de orador oficial da lusitana corte. Inteligente, bem informado, ostentava um justo orgulho de sua terra natal. Colocou todo o seu engenho na tarefa de desenvolver e apresentar um verdadeiro projeto político ao Rei.

 

     E, enquanto eu estes canto - e a vós não posso

       Sublime Rei, que não me atrevo a tanto - ,

      Tomai as rédeas vós do Reino vosso:

                                                 Dareis matéria a nunca ouvido canto”.

            O poeta se apercebeu que uma época dos heróis desbravadores dos mares, cobertos de glórias advindas das aventuras marítimas devia ceder lugar ao trabalho paciente da administração dos novos territórios. Agora, era o momento de exercitar uma administração sóbria, controladora do novo mundo que se abria ao domínio luso. 

 

            Em seu poema chamava a atenção contra os prepotentes aventureiros, antes prontos a usar da sua autoridade para atender a sua cupidez. Tais pessoas, como um camaleão, estavam sempre prontas para concordar servilmente com qualquer orientação ou autoridade que lhe fosse superior. Enquanto fingem fidelidade esvaziam a bolsa dos súditos.

 

                                          

“Nenhum que use de seu poder bastante

Pera servir a seu desejo feio,

E que, por comprazer ao vulgo errante,

Se muda em mais figuras que Proteio.

Nem, Camenas, também cuideis que cante

Quem, com hábito honesto e grave, veio,

Por contentar o Rei, no ofício novo,

A despir e roubar o pobre povo!

 

            Uma última advertência, no mesmo Canto, alerta contra o administrador que exige severamente a obediência aos preceitos legais. Porém ao mesmo tempo em que cobra não presta a devida contrapartida ao povo:

 

Nem quem acha que é justo e que é direito

Guardar-se a lei do Rei severamente,

E não acha que é justo e bom respeito

Que se pague o suor da servil gente;

Nem quem sempre, com pouco experto peito,

Razões aprende, e cuida que é prudente,

Pera taxar, com mão rapace e escassa,

Os trabalhos alheios que não passa”.

 

 

 

Era, aos olhos de Camões “outro Hemisfério. Cuja valia e obras tanto amaste, não querem que padeçam vitupério...”. Dar azo o Rei para sofrerem ofensas os que buscaram o outro hemisfério, em estafantes e perigosas viagens esperando de sua dedicação à Coroa o reconhecimento?  O poeta, com a visão de administrador, bem o diz: “(...) é fraqueza desistir-se da coisa começada”.

 

“E disse assi:- «Ó Padre, a cujo império

Tudo aquilo obedece que criaste:

Se esta gente que busca outro Hemisfério.

Cuja valia e obras tanto amaste,

Não queres que padeçam vitupério,

Como há já tanto tempo que ordenaste,

Não ouças mais, pois és juiz direito,

Razões de quem parece que é suspeito.

 

E tu, Padre de grande fortaleza,

Da determinação que tens tomada

Não tornes por detrás, pois é fraqueza

Desistir-se da cousa começada.

 

            O trabalho dos precursores, dos que abriram e mostraram o caminho. Dos embaixadores que representam os interesses mercantis e políticos, estabelecendo uma nova visão, representado pelo deus

 

“Mercúrio, pois excede em ligeireza

Ao vento leve e à seta bem talhada,

Lhe vá mostrar a terra onde se informe

Da Índia, e onde a gente se reforme.”.

 

            O início do Século XVI foi particularmente difícil. A inteligência humana estava sendo posta a prova enquanto os líderes religiosos travavam uma luta entre sí com tal dose de violência que a discussão freqüentemente fugia do terreno das idéias para a baixa ofensa pessoal.

 

            E essa ebulição era alimentada em parte por uma nova máquina: a impressora. De conformidade com Paul Jonhson, no seu História do Cristianismo:

 

“Em 1500, já havia setenta e três gráficas na Itália, cinqüenta e uma na Alemanha, trinta e nove na França, vinte e quatro na Espanha, quinze nos países baixos e oito na Suíça. A  firma mais importante (...) devotava-se quase que inteiramente à publicação dos clássicos gregos recuperados; a despeito de seus padrões de extraordinária elegância, imprimiu-se ao trabalho uma grande velocidade: nos vinte anos entre 1494 e 1515, foram geradas vinte e sete edições príncipes de obras de referências e escritores gregos; em 1515 não havia um único grande escritor grego não publicado. (...) sua tremenda concentração nas obras de interesse fundamental para a religião e a Reforma constituíam um problema completamente novo para as autoridades da Igreja e do Estado, radicionais controladoras da disseminação do conhecimento”.   

            À época Erasmo de Rotterdan publicou, em 1524, sua Discussão do Livre Arbítrio, atraindo para si a má vontade de Roma e a ira de Lutero. O texto rejeitava a tese da predestinação e afirmava o fato do homem possuir e ser capaz de se valer de seus próprios recursos para obter sua salvação. Erasmo, valorizando o estudo e desejando reduzir a força da instituição religiosa romana que fazia a salvação passar necessariamente pelos corredores e sacristias das igrejas dizia que “você não encontrará a danação se não souber se o Espírito proveniente do Pai e do Filho teve um ou dois princípios, mas não escapará à danação se não cultivar os frutos do espírito: amor, alegria, paz, paciência, generosidade, bondade, resignação, misericórdia, fé, modéstia, continência e castidade”.

 Thomás Moore escreveu A Utopia em 1516 e foi decapitado em 1535. Um curto espaço de tempo, entre a apresentação de seu trabalho até ser considerado tão perigoso que sua eliminação foi literalmente exigida. Antes da arte gráfica se tornar uma realidade idéias podiam ser facilmente sufocadas no nascedouro. Agora o trabalho dos censores era praticamente inútil, pois centenas de livros podiam ser impressos na Alemanha e alcançar a Inglaterra ou Espanha.

Portugal procurou desempenhar o papel de guardião da cristandade. Favoreceu a instalação dos tribunais da Inquisição em seu território em 1536. Politicamente o apoio trouxe duas vantagens ao Reino: favorecia a sua política centralizadora e atendia aos seus interesses expansionistas.

A descoberta do novo mundo não significava, por si, a sua posse. Trinta anos após a expedição de Cabral Portugal encontrava-se economicamente exaurido, em virtude dos altos custos para a preparação e execução das viagens ao ultramar. Os lucros eram devorados pelos investimentos e tornava-se difícil, em razão de sua reduzida população, colonizar o imenso território que se abria a sua frente.

O Brasil surgiu como uma investimento promissor. E, em virtude da presença constante de naus estrangeiras que pilhavam as suas costas existia o risco de serem as mesmas ocupadas e tomadas por outros governos.

Cartas enviadas ao reino mostravam a urgência na tomada de decisões. Uma delas, redigida por um morador da Vila de Santos, em 1548, e transcrita por Paulo de Assunção no seu A Terra dos Brasis, (Annablume Editora, São Paulo, 2001), diz:

“(...) ainda que nós [habitantes da Vila de Santos] percamos as vidas e fazendas vossa alteza perdera a terra. E que nisto perca pouco, aventura perder muito, porque não está mais em serem os franceses Senhores dela em se acabarem de perder estas Capitanias que ficam (...)”.