As Relações
de Trabalho
em Blumenau
no Período
de 1850-1900


                          Maria de Lourdes Leiria

 


LISTA DE SIGLAS E ABREVIAÇÕES

ACIB: Associação Comercial e Industrial de Blumenau

CF.: Constituição Federal

CLT: Consolidação das Leis do Trabalho

D.: Dom

DOU: Diário Oficial da União

FURB: Fundação Universidade Regional de Blumenau

P.: pfennig

S.d.:  sem data

UMSA: Universidad del Museo Social Argentino

 

PRÓLOGO

 A escolha do tema levou em consideração a escassez de estudo a respeito, o que tornou o tema mais interessante, ainda que dificultasse o trabalho.

Iniciei pelo Arquivo Histórico de Blumenau, pesquisando a obra do Dr. Blumenau, empreendedor, que não encontrando apoio governamental implantou uma colônia particular, dando início ao que hoje é o Município de Blumenau. Deparei-me com três obras escritas pelo Colonizador, publicadas originalmente em alemão, Sul do Brasil; Guia de Instruções aos Emigrantes e A Colônia Alemã Blumenau na Província de Santa Catarina no Sul do Brasil, traduzidas para o português, as duas primeiras por ocasião do centenário da morte do Fundador, em 1999, compõem a obra Um Alemão nos Trópicos, Dr. Blumenau e a Política Colonizadora no Sul do Brasil, e a última, A Colônia Alemã Blumenau. Ainda no arquivo histórico pesquisei nas revistas Blumenau em Cadernos, onde encontrei registros da vida dos imigrantes relatados em correspondências, memórias, biografias e diários.

No primeiro livro, escrito em 1850, o Dr. Blumenau descreveu o país, as condições que o imigrante encontraria, as maravilhas naturais, riquezas encontradas na terra fértil e nos rios consistente na abundância de peixes, clima ameno, os perigos da mata representados por animais selvagens e índios, os mosquitos, as doenças e dificuldades que encontrarão.

Informou as condições de aquisição de terras por parte dos imigrantes e as possibilidades de progresso que espera aquele que se dedicar ao trabalho.

No segundo livro, em 1851, o colonizador descreveu as profissões e indústrias carentes na região, orientou o que deve trazer o imigrante para facilitar sua vida na nova terra, aconselhou aos homens virem antes para preparar as instalações e iniciar a plantação antes da chegada da família que não deve esperar encontrar aqui o conforto e prazeres que a Europa oferece, pois no campo tudo é incipiente, não havendo sequer a satisfação da companhia de pessoas instruídas.

Descreveu o tipo de trabalho que poderão desenvolver como agricultores, diaristas, empreiteiros, mensalistas, empregados domésticos; argumentou que a falta de trabalhadores majora os salários, especialmente após adquirirem experiência, havendo colocação para homens, mulheres, jovens e até mesmo crianças, ou seja, a todos que tenham vontade de trabalhar e progredir.

Em sua terceira obra escrita em 1856 relatou os progressos obtidos nos primeiros cinco anos da colônia, a terra fértil retribuía em abundância o trabalho dos agricultores, não havendo falta de produtos de primeira necessidade, havendo escassez de trabalhadores, em razão do que as oportunidades para o trabalho remunerado eram fartas em especial na agricultura como diaristas e empreiteiros.

Enfim, buscaremos descobrir que tipo de trabalho era desenvolvido por homens, mulheres e crianças e em que condição era executado, que tipo de perigos e acidentes estavam sujeitos.


 

 

1 FUNDAÇÃO DA COLÔNIA DO DOUTOR HERMANN BLUMENAU

 

A colonização de Blumenau iniciou-se por obra de Hermann Bruno Otto Blumenau, alemão, natural de Hasselfelde, no Harz, então Ducado de Brunsvique, Alemanha, nascido em 26 de dezembro de 1819, filho mais novo de Christiane Sophie e do engenheiro florestal Carl Friedrich Blumenau, formado em química, após defender tese de doutorado em filosofia pela Universidade de Erlangen em 1846, viajou para o Brasil.(SILVA, 1972: 29/31)[1].

Desde 1818 D. João VI, a colonização havia sido incentivada, foi dirigido um apelo “aos diferentes povos da Alemanha e de outros Estados”, ofertando benefícios aos imigrantes.

A colonização alemã em Santa Catarina teve início em 1829, com a Colônia São Pedro de Alcântara[2], começou com seiscentos e trinta e cinco pessoas, sendo que quinhentos e vinte e três vieram de Bremen, Alemanha. No mesmo ano foi fundada a colônia de Rio Negro, com cento e cinco pessoas, vinte famílias, embarcadas no Porto de Bremen.

Em maio de 1835 foram fundadas colônias ao largo dos rios Itajaí-Açú e Itajaí-Mirim, foram admitidos colonos moradores da região e migrantes estranhos, cada colono solteiro recebia um lote de duzentos a quatrocentos  jeiras.[3]

Blumenau teve início em 1848 quando o  governo provincial de Santa Catarina concedeu ao Dr. Hermann Bruno Otto Blumenau duzentos e vinte quilômetros quadrados de mata virgem, materializando assim o almejado projeto de colonização do imigrante alemão, nascendo a terceira colônia alemã de Santa Catarina.

 

 

1.1 FUNDADOR

 

Em meados de 1846, após quase três meses de viagem o Dr. Blumenau chegava ao seu destino, com o propósito de estudar a vida dos colonizadores, munido de recomendações de Johann Sturz, Cônsul Geral do Brasil na Prússia, que havia conhecido por ocasião de sua estada em Londres, em 1844, onde foi com o intuito de patentear um processo químico. Blumenau há muito se interessava pela questão da emigração fato impulsionado pelo contato mantido com Sturz, que havia trabalhado mais de dez anos como engenheiro de mineração no Brasil, deixando-o impressionado com a possibilidade de colonização.

A fim de  tornar efetivo seu projeto de colonização, viajou para a capital da Província de Santa Catarina, Desterro, atual Florianópolis e de lá ao Rio de Janeiro, apresentando às autoridades projetos de colonização e cartas de recomendação.

No início do ano de 1848, acompanhado de seu amigo e sócio, Ferdinand Hackradt, guiado pelo caboclo Ângelo Dias, partiu para conhecer a região de Blumenau, às margens do Itajaí, conheceu os colonos que já haviam se estabelecido na região por volta de 1836, alguns já prósperos donos de engenhos de açúcar.

Os exploradores ficaram encantados com a riqueza das florestas, abundantes em madeira e caça, bem como com a fertilidade das terras, ficando entusiasmados com o empreendimento que se iniciava.

Escolheram um local para a sede provisória da colônia, próxima aos Rios Itajaí-Açu e Itajaí-Mirim[4], ficando Hackradt com incumbência das primeiras medidas práticas como derrubadas de árvores, dar início às plantações, preparar ranchos e instalar um engenho de serrar, ajudado por negros e colonos de São Pedro, enquanto isso o Dr. Blumenau envidaria esforços junto às autoridades administrativas a fim de fazer um acordo que lhe permitisse trazer emigrantes, demarcar terras e demais atos necessários para o estabelecimento da almejada colônia.

O Dr. Blumenau encaminhou proposta para colonização das terras visitadas à Assembléia Provincial, em 26 de março de 1848, conforme entendimento mantido com o Presidente da Província, Marechal Antero e deputados, na condição de procurador da Sociedade de Proteção aos Imigrantes Alemães, da qual teve conhecimento através do barão Alexandre Von Humbold, pedia a concessão de duas datas de terras, com cinco ou seis léguas[5] cada uma em quadro, às margens do rio Itajaí, estipulando procedimentos para a colonização por emigrantes alemães, conforme doutrina SILVA  (1972: 34/36) em sua obra História de Blumenau.

Entretanto, o projeto de lei com a proposta do Dr. Blumenau foi rejeitado na Assembléia Legislativa, sendo justificado ao Presidente Antero que a colonização requerida estava autorizada pelos decretos provinciais nº 49 de 15 de janeiro de 1836 e nº 79, de 2 de maio de 1839.

O empreendedor não esmoreceu, em 26 de julho de 1848 fez novo requerimento ao governo imperial do Rio, persistindo na busca de apoio para a colonização, embora já houvesse se associado com Hackradt, fundou a empresa “Blumenau & Hackradt”, tendo comprado parte das terras, primeiro mil trezentos e cinqüenta  hectares, recebeu três mil setecentos e setenta e cinco hectares de presente do Presidente da Província, posteriormente compraram mais três mil setecentos e cinqüenta hectares. Contavam, portanto com expressiva faixa de terras de oito mil, oitocentos e setenta e cinco hectares, dados constantes em carta do colonizador aos parentes. (RICHTER, 2006: 33/34).

Não tendo recebido apoio nem ajuda financeira dos governos brasileiro e alemão, retornou à sua pátria em setembro de 1848, passou a tomar providências como empreendedor particular, adquiriu plantas e instrumentos para o plantio, formou uma equipe com seu sobrinho, Reinhold Gärtner, que se tornou grande colaborador do empreendimento de colonização, a estes se juntaram mais dois jovens, o que animou o Dr. Blumenau, pois “este era um começo”, época que escreveu o livro “O Sul do Brasil em suas Relações com a Emigração e Colonização Alemã”, descrevendo o Brasil como região propícia à imigração. (KIEFER, (1999): 35).

Deixou seu sobrinho na Alemanha arregimentando emigrantes e voltou ao Brasil em julho de 1850 para preparar a recepção dos colonizadores e com esperança de comprar mais terras para expandir o negócio, conforme o progresso obtido pelo sócio que ficara encarregado das providências iniciais. A chegada foi decepcionante, logo no porto recebeu as seguintes notícias:  da morte do pai e a moça com quem pretendia casar-se havia desistido de emigrar para um país desconhecido. (SILVA, 1972: 39/40.)

 Na área comercial as notícias não eram melhores, Hackradt havia desistido da sociedade, o empreendimento não havia se desenvolvido, Blumenau ficou desolado, tinha grande quantidade de terras que deveria colonizar sozinho, sem amparo particular ou governamental, tentou sem sucesso obter empréstimo junto ao governo imperial, sendo socorrido por um amigo com quantia indispensável.

Em carta a um amigo descreveu como encontrou o estabelecimento:

No local, onde havia empregado o melhor de seis mil thalers, encontrei, apenas, algumas choupanas mal feitas que não valiam 300 thalers; um negro paralítico e uma preta velha; um engenho de serra que, com a menor enchente, já não trabalhava mais. Nada de plantações, a não ser um pasto miserável no qual estavam uns oito ou dez bois carreiros. Não havia nada preparado para receber e abrigar os colonos que já estavam em viagem. (SILVA, 1972: 40).

 

Nestas condições que o Dr. Blumenau recebeu seu sobrinho Reinoldo Gärtner com os primeiros dezessete imigrantes em 02 de setembro de 1850, e desta data em diante a vida do colonizador confunde-se com o progresso da colônia por ele fundada que recebeu seu nome quando elevada a categoria de Município.

Sempre preocupado em orientar o imigrante para que não saísse de sua terra pensando que iria progredir num passe de mágica, sem trabalho e sacrifício inerente a todo desbravador, publicou um livro na Alemanha em março de 1850, Sul do Brasil, para incentivar a imigração. Em junho de 1851, escreveu Guia de Instruções aos Emigrantes e em 1855 A Colônia Alemã de Blumenau.

No Guia de Instruções deu várias orientações aos interessados em imigrar, sugeriu que os homens deveriam chegar de seis a doze meses antes para preparar a recepção da família que ao chegar já encontrariam instalações e plantações, um homem de confiança deveria acompanhar as mulheres e crianças na viagem. (BLUMENAU, 1851, (1999): 197).

Aludia que um jovem solteiro seria mais feliz se tentasse sua sorte na Província de Santa Catarina, onde estaria rodeado pela bela natureza, particularmente, na encantadora Ilha de Santa Catarina. (BLUMENAU, 1851, (1999): 205).

Em seu primeiro livro, escrito em 1850 o Dr. Blumenau já recomendava que os imigrantes não viessem solteiros, entendia que a ajuda da mulher era imprescindível para o progresso do colonizador, que lhe pouparia de trabalhos domésticos ou despesas para execução daqueles, afora ajuda na horta, manufatura de produtos na cozinha e ainda lhe daria carinho e consolo nos momentos difíceis; vê-se que possivelmente suas conjecturas estavam certas, pois além de não ter mudado de idéia, descreveu os encantos da ilha para os jovens solteiros.

Sugeriu que famílias com mesmo grau de instrução, ainda que com diferente situação econômica procurassem se estabelecer o mais próximo possível para promover o convívio social, facilitando inclusive na contratação de professores para educar seus filhos. (BLUMENAU, 1851, (1999): 209).

Aconselhou o imigrante quanto aos preparativos para a viagem, desde documentação, empresa que devia contatar com antecedência de quatro a seis meses para adquirir passagem, que preferissem linha direta para São Francisco ou para a Capital de Santa Catarina, frisou que a melhor época para a viagem é a primavera, até maio, e que após nove semanas de duração ao chegarem a temperatura estará amena. Informou que as passagens variam de cinqüenta a setenta e cinco Thalers[6], dependendo da classe, entrecoberta, segunda ou primeira, respectivamente a partir de oito anos, até esta idade o valor é de cinqüenta por cento, sendo que bebês até um ano estavam isentos. (BLUMENAU, 1851, (1999): 215).

Face às adversidades da viagem recomendou aqueles que têm posses o façam em primeira classe.

Orientou ainda quanto à bagagem para auxiliá-los na nova vida e facilitar a viagem como alimentos; roupas para inverno e verão; botas e outros calçados; louças e utensílios domésticos inquebráveis; livros de lazer e técnicos das respectivas profissões, inclusive dicionário e gramática em língua portuguesa; material escolar para a educação dos filhos, que terão dificuldade de encontrar em alemão; ferramentas e todo o material para o artífice executar seu trabalho; sementes; machados, enxadas, foices; anzóis de vários tamanhos; pólvora e chumbo para caça; remédios; reserva de lentes lapidadas, por aqueles que utilizam óculos; material para costura e tricô, incluindo agulhas e aviamentos; livro de canções e instrumentos musicais, como harpa e violino, para alegrar a si e aos amigos, bem como estoque de cordas, até mesmo espelho, útil para quem valoriza a aparência. Enfim, minuciosamente orientou o que os imigrantes devem trazer, ressaltando que o frete não é por peso e sim por volume; recomendando cuidados com a segurança da bagagem, tais como cadeado para prevenir roubos e seguro da equipagem. (BLUMENAU, 1851, (1999): 219/220).

Recomendou que as pessoas abastadas trouxessem roupas para usar em festas e datas especiais, informando que os brasileiros costumam trajar-se bem, embora não zelem pela higiene de suas habitações:

Apesar da casa dos brasileiros ser imunda, eles vestem-se bem e fazem questão de usar roupas limpas, olhando com desdém todo aquele que se apresenta de modo desleixado e com as camisas sujas.” (...) “é importante comportar-se de acordo, evitando que todos os alemães sejam ofendidos e acusados como elementos sujos, precisando ainda ser civilizados (BLUMENAU, 185, (1999): 227).

 

Ainda falando de higiene, sugeriu: “Aqueles que costumam usar escovas de dente devem trazer pelo menos duas dúzias, pois, além de serem muito caras, dificilmente se consegue e o mesmo serve para os pentes.” (BLUMENAU, 1851, (1999): 233).

Sugeriu que se associem cinco ou seis imigrantes para adquirir e trazer até três cabeças de gado leiteiro, de boa qualidade, para compensar o transporte, para dar início à pecuária,  tornando o empreendimento  econômico e vantajoso para todos, em especial as crianças, que seriam bem alimentadas. (BLUMENAU, 1851, (1999): 257/258).

Aconselhou a usar os sapatos novos,  colocar monograma nas roupas e passar um pouco de sabão nas golas dos vestidos novos, dando aparência de usado aos produtos para não ser compreendidos como contrabandos na alfândega e taxados com imposto elevado.

Na colônia o Dr. Blumenau orientava os colonos a fazer bons negócios, conforme descreve Julius Baumgarten[7] em carta ao pai, escrita em 28 de julho de 1853, que havia comprado um lote de terras, com quatrocentas braças[8] de frente, orientado pelo colonizador “que seria melhor comprar a terra agora antes que uma grande leva de imigrantes chegasse e as terras subiriam de preço e principalmente pela ótima localização”.

Julius tinha verdadeira admiração pelo colonizador conforme se constata da correspondência ao pai:

Ele é um homem excelente, modesto, correto e um ótimo conselheiro para seus colonos. Dr. Blumenau é um verdadeiro pai para todos nós; assim também foi para mim. É um homem que dificilmente posso descrever, de grande bondade, muito entusiasmo, trabalhando desde a manhã até à noite incansavelmente para sua obra. Vive como um colono numa cabana de barro, com uma pequena janela. Apartidário em todo sentido, tanto auxilia o pobre como o rico com seus conselhos, mesmo sabendo que pouco ou nada pode esperar como recompensa. Para facilitar a vida de seus colonos, compra alimentos em grande quantidade para poder revendê-los mais baratos e muitas vezes sofre grandes prejuízos. Para animá-los e fortalecê-los (...) circula diariamente entre eles. Como com eles o feijão mal cozido e bebe da mesma vasilha. Sim, este é um homem que aqui tem seu lugar. ‘Deus que o conserve por bastante tempo’ esta é provavelmente a oração diária dos colonos, que o admiram realmente. (...) é uma grande felicidade ter um homem como ele ao meu lado. Ele me ofereceu árvores como macieiras, uvas, limões, figos e chá para plantar e vou aceitar a oferta (BAUMGARTEN, 1853, (1986): 322/323).

 

Parece-nos que a admiração era recíproca, conforme se depreende de correspondência do Dr. Blumenau ao superintendente Baumgarten, na Alemanha, pai de Julius, em 12 de dezembro de 1853, dando notícias tranqüilizadoras a respeito do filho, que já tinha um vizinho, não se sentindo mais sozinho, tinha um casal de empregados que lhe ajudavam e mantinham sua casa em ordem e tecendo vários agradecimentos e elogios tanto ao destinatário quanto ao novo imigrante:

Receba agora meus sinceros agradecimentos por estas duas cartas e a confiança nelas expressada. Cartas desta natureza exigem de minha parte certa responsabilidade, enquanto muitas outras que recebo são bem menos simpáticas (...) cartas como as do senhor são reflexos luminosos na minha árdua luta, (...) Estou numa constante luta na Alemanha a favor do Brasil e em especial por meu empreendimento. (...) Sob estas circunstâncias o senhor não se surpreenda se eu chamo as cartas que me escreve, tão cheias de sincero respeito e total confiança, como verdadeiros pontos luminosos. (...) novamente quero expressar-lhe meus agradecimentos e com grande alegria agora que tive tempo suficiente para observar o comportamento de seu filho, o qual aprecio sinceramente. Tenho a certeza que com ele não sofrerei nenhuma decepção (...) como já aconteceu com outros que me foram recomendados. A vinda de jovens, dispostos, trabalhadores e com alguma posse, são sempre bem-vindos por nós. (...) aqui chamamos de ‘jovens’ aqueles que ainda não têm 28 anos e pai de 3 a 4 filhos, mesmo aqueles já casados. Seu filho mostra-se ativo, disposto e alegre e estando em situação financeira relativamente privilegiada para mim e a satisfação ainda é maior, pois não é só uma nova aquisição para a colônia, mas também é útil, caso não perca o ânimo. (...) veremos com o passar dos anos e depois de ter enfrentado (...) tempos ruins. Além de tudo ele ajuda a enriquecer o pequeno grupo social. Eu gosto realmente do ‘pequeno prefeito de Lichtenburg’, foi assim que ele denominou sua pequena propriedade. Não sei quem lhe deu este apelido (...) Agradeço aqui mais uma vez ao senhor, que enviou-me este rapaz tão gentil e prestativo. Tudo que posso fazer por ele, eu o farei (...) Se a saudade lhe apertar o coração eu estarei ao seu lado, fiel e compreensivo, pois, (...) já passei horas iguais. Encontrei no senhor, igualmente, um fiel e confiante amigo, nas minhas horas mais amargas, e sem esta sua amizade dificilmente me encontraria entre os vivos (BLUMENAU, 1853, (1986): 240/241).

 

Não há dúvidas que havia um forte laço de amizade entre o colonizador e o pai do imigrante, não se sabe se este fato teve alguma influência no tratamento recebido por Julio, o que é certo é que existia admiração e consideração de ambas as partes.

Ao escrever para a irmã Julius também ressaltou o carinho e admiração que tinha pelo colonizador, que apoiava e estimulava os imigrantes sem fazer distinção, considerava-o um pai, afirmando que daria a vida pelo empreendedor. (BAUMGARTEN, s.d., (1987): 354).

A simpatia e admiração creditada ao Dr. Blumenau por Julius não eram compartilhadas por todos colonos, conforme relato de Sievert, imigrante nascido em 1866 em Kolberg, na Pomerânia, que chegou em Blumenau acompanhado dos pais, em junho de 1875, com nove anos:

O fundador da colônia era de temperamento áspero, severo e quase sempre estava de mau humor, gritando com todos. Os colonos, apesar de respeitá-lo e de estimá-lo mesmo, não queriam muito contato com ele, procurando sempre que possível entender-se a respeito do seu negócio com Hermann Wendeburg, que era o guarda-livros e pessoa muito boa e delicada. (SIEVERT, 1960: 65).

 

Após trinta e dois anos, o Dr. Blumenau volta para a Alemanha, em 15 de agosto de 1884, sua família, esposa e duas filhas já haviam retornado em agosto de 1882. Morre na terra natal, em 30 de outubro de 1899. (SILVA, 1972: 135/136 e 187).

 

1.2 LOCALIZAÇÃO

 

 

O local escolhido pelo Dr. Blumenau era a região de convergência dos dois rios, o Itajaí-Açu e o Itajaí-Mirim, próxima ao mar, terra fértil, dispondo de espaço para acolher inúmeros emigrantes. Um porto favorável próximo e uma via navegável facilitava a exportação, importação e o comércio. (BLUMENAU, 1855, (2002): 21/22).

Por mais de dois anos o Dr. Blumenau se dedicou ao estudo dos problemas e condições inerentes à colonização, conhecendo o Brasil e as colônias instaladas, conforme retratou no livro publicado na Alemanha para esclarecer aos interessados em imigrar e construir uma nova vida neste país.

O colonizador não poupou adjetivos para descrever o Brasil aos seus conterrâneos:

O Brasil é um país extremamente belo, fascinante, abençoado e prodigamente contemplado pela natureza, um verdadeiro diamante à espera de um hábil mestre que o transforme na jóia mais preciosa do mundo. No seio das suas montanhas jazem os metais mais nobres e as mais valiosas pedras preciosas. Seu solo equipara-se aos mais férteis do mundo e sua superfície é coberta de florestas verdejantes, que contêm as mais nobres madeiras, e de campos infinitos, que alimentam numerosos rebanhos no verão e no inverno.

Inúmeras fontes e riachos alimentam os majestosos rios que correm pelos seus campos e o litoral é repleto de baías e portos, que asseguram o escoamento dos produtos. O clima e a salubridade desta vasta e bela terra devem ser considerados como os melhores (BLUMENAU, 1850, (1999): 49).

 

Ressaltou a necessidade de dedicação e perseverança para que o imigrante possa vencer na nova pátria, não devendo se iludir que encontraria vida semelhante a que deixa para trás.

Aqui, como em todos os lugares, a realidade encontra-se no ambiente, pois o Brasil é um país jovem, com uma população escassa, pouca terra cultivada e recursos abundantes, que somente podem ser explorados com ação, conhecimento e perseverança.

Engana-se aquele que, fora dos grandes centros e cidades, espera pelas mesmas condições de vida da Europa ou dos antigos estados da América do Norte. (...)

O brasileiro, por ser uma mistura de raças, demonstra em seu caráter uma grande indolência, preguiça, sensualidade, sofre de impetuosa paixão e irascibilidade, características dos povos de países tropicais, como também gosta de enganar no comércio, tanto quanto o norte-americano, possuindo muito talento para esta arte. Quanto mais ao norte e mais quente, mais perceptíveis são estas características. Mas o brasileiro também demonstra uma mente esperta e sensível, geralmente ágil na compreensão, tem muito talento, hospitalidade, simpatia e sociabilidade com relação aos estranhos, além de muita caridade, da qual certos imigrantes alemães, que não gostam de trabalhar, abusaram, o que considero uma vergonha. Lembro ainda hoje, com prazer, de alguns brasileiros atenciosos com os quais estive (BLUMENAU, 1850, (1999): 49).

 

 

Depois de conviver com seus patrícios colonizadores descobriu que também entre os alemães tinha gente preguiçosa que queria vencer na vida sem esforço.

Relatou que alguns aventureiros querem, ao chegar, receber salário igual àqueles que têm experiência, frustrados os interesses, ficavam mal-humorados e insatisfeitos com todos, contagiando o ambiente com lamentações.

Louvava a Deus porque estavam vindo em menor quantidade pessoas desta espécie, “(...) não há como lidar com eles e seu modo de falar: ‘se eu tivesse sabido antes que no Brasil é preciso trabalhar’, ou seja, não se ganha dinheiro dormindo, ou então: ‘o senhor por acaso acha que vamos ser escravos dos outros? Queremos terra e o Imperador terá que nos sustentar até que consigamos algo ‘”. (BLUMENAU, 1851, (1999): 195).

“Atualmente, as pessoas que possuem apenas conhecimentos teóricos têm pouca serventia no Brasil, pois o importante é conhecerem o lado prático e serem capazes de executar todos os serviços por conta própria, porque inicialmente faltam-lhes os trabalhadores especializados”. (BLUMENAU, 1850, (1999): 51).

O Dr. Blumenau esclareceu ao futuro imigrante as condições do clima, solo, cuidados com higiene para combater bicho-de-pé e carrapatos, possibilidade de doenças, existência de animais peçonhentos; ferozes, como jaguar (onça-pintada), onça parda; incômodos menores como mosquitos (maruim e borrachudo) e mosca varejeiras que atacam animais e o homem, alertou para a existência de muitas formigas e a inexistência de gafanhotos, a existência de índios, que os brasileiros chamavam de bugres e os alemães de selvagens, embora fossem covardes e usassem apenas flechas não envenenadas, recomendou a construção da casa numa clareira aberta por todos os lados, que deveria ser vigiada no verão, de dezembro a março, quando havia ataques, sendo afugentados por armas de fogo e até por cachorros. (BLUMENAU, 1850, (1999): 81).

Aconselhou que os imigrantes trouxessem armas e munições para caça, para proteção do ataque dos macacos, pessoal e das plantações; mencionou abundância de papagaios, bem-vindos na mesa e fartura de peixes nos rios, sendo de primeira necessidade redes e anzóis, juntamente com as armas para garantir alimentação e segurança.

Descreveu a abundância de riquezas em madeira nas florestas, a variedade de plantas comestíveis, tubérculos, árvores frutíferas.

Também orientou as condições para aquisição de terras, ônus com custo de medições, possibilidade de estrangeiro não naturalizado ser proprietário de terras e deixá-las de herança; das dificuldades que iria encontrar e das possibilidades de progresso se houvesse dedicação de parte do imigrante; que poderia manter sua religião, os imigrantes eram na maioria protestantes, embora a religião oficial do Brasil fosse a católica, era permitido culto público de outras religiões, desde que as igrejas não ostentassem torre e sinos[9]. Julgou indigna a restrição e esperava que fosse revogado com a atuação dos colonizadores o que aconteceu com a Constituição Federal de 1891.(BLUMENAU, 1850, (1999):55).[10]

Manifestou sua preocupação com a educação das crianças dos imigrantes, visto que embora o ensino elementar fosse gratuito, o sistema era deficiente, faltava dinheiro para pagamento dos professores e a freqüência dos alunos era insuficiente o que não seria diferente em relação aos filhos dos colonizadores. (BLUMENAU, 1850, (1999): 57).

 

1.3 PRIMEIROS IMIGRANTES

 

Os primeiros imigrantes, dezessete pessoas, chegaram em 02 de setembro de 1850, depois de setenta e dois dias de viagem, aportaram em Desterro[11], são eles:

1.      REINOLDO GÄRTNER, vinte e seis anos, solteiro, natural de Brunsvique, sobrinho por parte de mãe do Dr. Blumenau;

2.      FRANCISCO SALLENTHIEN, vinte e quatro anos, solteiro, também natural de Brunsvique;

3.      PAULO KELLNER, vinte e três anos, solteiro, igualmente de Brunsvique;

4.      JÚLIO RITSCHER, vinte e dois anos, solteiro, agrimensor, natural de Hannover;

5.      GUILHERME FRIEDENREICH[12], vinte e sete anos, natural da Prússia, casado com

6.      MINNA FRIEDENREICH, vinte e quatro anos, possuindo o casal duas filhas:

7.      CLARA, com dois anos de idade e

8.      ALMA, com nove meses;

9.      DANIEL PFAFFENDORFF, vinte e seis anos, solteiro, carpinteiro, natural da Saxônia;

10. FREDERICO GEIER, vinte e sete anos, solteiro, marceneiro, natural de Holstein;

11. FREDERICO RIEMER, quarenta e seis anos, solteiro, charuteiro, natural da Prússia;

12. ERICH HOFFMANN, vinte e dois anos, solteiro, funileiro, igualmente da Prússia;

13. ANDRÉ KOHLMANN, cinqüenta e dois anos, ferreiro, também da Prússia, casado com:

14. JOANNA KOHLMANN, quarenta e quatro anos, acompanhados das filhas:

15. MARIA, vinte anos de idade, solteira e

16. CRISTINA, dezessete anos, também solteira e por fim,

17. ANDRÉ BOETTSCHER, vinte e dois anos, solteiro, ferreiro, natural da Prússia. (SILVA, 1972: 40/41).

Nem todos permaneceram na colônia. Julio, Frederico e Erich foram para o Rio de Janeiro; também se transferiram Francisco para a Barra do Itajaí Mirim e Paulo um pouco acima com sua serraria; os Kohlmann e André Boetscher, foram residir em arraial de Pocinho, onde encontraram colonos alemães de São Pedro. (SILVA, 1972: 43).

Os colonos recém-chegados eram abrigados no barracão dos imigrantes e inicialmente eram ocupados em serviços agrícolas, no cultivo de batatas e feijão, em área pertencente à sede, para não ficarem ociosos e a se afeiçoarem às novas condições de vida, iniciando com o trabalho para seu próprio sustento.

Conforme relatos feitos por Ruth Sallientien extraídos da  agenda de seu avô, que viveu na colônia a partir de 1850, até colher as primeiras plantações de milho e feijão muitos  imigrantes sobreviveram de caça e frutas silvestres. (SALLLIENTIEN, 1950, (1986): 350).

Em 1851 chegaram oito novos imigrantes, todos solteiros, dos quais apenas quatro ficaram na colônia sendo que dois morreram afogados, neste ano também foi vítima de afogamento Pfaffendorff,  que chegou no primeiro grupo. Da imigração deste ano permaneceram Frederico Toepel e Júlio Paupitz, torneiro, com importante atuação no desenvolvimento da colônia. Neste ano nasceu Ida, a primeira blumenauense e  terceira filha do casal Friedenreich,

Em 1852 começou a demarcação de lotes urbanos e rurais às margens do Ribeirão Garcia, sede do empreendimento. Wilhelm iniciou a construção de sua casa de tijolos, melhor prédio da colônia por muitos anos, também foi construído um barracão de madeira para abrigar os imigrantes até ocuparem os lotes próprios.  Chegaram cento e quatro imigrantes, entretanto nem todos permaneceram, no final do ano havia cento e quatro habitantes na Colônia, sendo dois nascidos no local. (SILVA, 1972: 42 e 49).

Em 1856 dois imigrantes chegados naquele ano foram mortos pelos índios, João Kaben e Augusto Hammester, este último era casado e deixou quatro filhos entre um e nove anos, causando pânico e desespero nos colonos que saíram à caça dos bugres acompanhados da guarda de pedestres sem sucesso, nesta época havia quatrocentos e noventa e oito habitantes na colônia. (SILVA, 1972: 59/60).

Afinal o tempo demonstrou que os índios, chamados de “selvagens covardes” pelo Dr. Blumenau em sua obra, eram mais selvagens do que covardes e nada inofensivos, pelo contrário, a realidade  demonstrou que eram bem cruéis conforme  vários ataques relatados em cartas.

Julius escreveu ao irmão Hermann, em 07 de dezembro de 1855 e relatou emboscada de oito ou nove índios no dia 9 de novembro, a Paul Kellner e seus operários, Paul fazia escavação para escoar água da serraria juntamente com dois operários quando foram atacados com arco e flechas, Paul foi ferido nas costas, um operário no coração morrendo na hora, tentou chegar até a casa com o outro operário, sendo novamente atingido pelas costas, conseguiram fugir, foram socorridos e operados para retirar as flechas na serraria de um amigo, o operário morreu após seis horas, Paul se salvou. Quando retornou para casa verificou que os índios tinham roubado todas as ferramentas. (BAUNGARTEN,1855, (1988): 118/119).

Carta do Sr. Benz ao diretor da Colônia, denunciando ataque:

Timbó, 15-10-1876

À Direção da Colônia Blumenau!

Comunico (...), que no sábado, dia 14 do mês, às 11 horas – se deu uma invasão dos bugres, vindos da margem direita do rio dos Cedros. Os mesmos assassinaram uma moça de (...) 16 a 18 anos.A flecha entrou (...) mais ou menos na altura do coração (...). Feriram uma menina de 6 anos com pancadas na cabeça, de tal forma, que a menina provavelmente não escapará com vida. O homem e a mulher conseguiram escapar. A casa foi totalmente saqueada e as vítimas não possuem mais do que eles carregam no corpo.

Quando eu cheguei ao local, todos os colonos (...) tinham fugido, sobrando apenas o senhor Butzke com seu pessoal e a minha pessoa. Achamos o corpo da moça (...) onde ela tinha sido assassinada.

Neste momento acabam de chegar 4 tiroleses (...) trazendo consigo um cadáver e exigindo que fosse sepultado no cemitério. Indiquei uma sepultura no cemitério católico.

(...) trouxeram o cadáver sem o respectivo caixão (...) por mim providenciado. A pessoa acidentada chamava-se Peterniti Adoni. Respeitosamente G.BENZ. (BENZ, 1876, (1988): 115).

 

A vida dos imigrantes não era fácil, muitas vezes passaram fome, e enfrentaram ataques de silvícolas e tigres, pelo que consta da autobiografia de Carlos Frederico Guilherme Butzke, que chegou em Blumenau em 1869, oriundo da Alemanha:

Os gêneros de primeira necessidade eram escassos. O estômago teve que jejuar muitas vezes. E, além disso, nós tínhamos que estar sempre vigilantes. Os bugres selvagens enxameavam ao redor de nós. Também tivemos a visita de tigres. Estes causaram grande prejuízo em toda a colônia. A mim um tigre matou numa noite de chuva muito forte, um novilho de três anos, estraçalhando-lhe a garganta. Também me carregou dois bons cachorros (BUTZKE, 1869, (1969): 151).

 

Em final de 1882 a colônia de Blumenau já contava com dezesseis mil trezentos e oitenta habitantes, sendo  onze mil, cento e oito alemães, demais eram originários da Áustria, Tirol, Itália, Suíça e lusos-brasileiros e os ataques continuavam, e cada vez mais agressivos (SILVA, 1972: 137).

Já em 1895 os bugres atacaram o racho de Gottlieb Reif, em Pombas, aos cuidados do jovem Jost e mataram dois auxiliares deste que estavam dormindo, cansados de trabalhar, Carlos Klichim e Carlos Hannemann, o primeiro morreu com uma lança no coração e último foi degolado; os bugres roubaram os utensílios, ferramentas e espingarda. (BRUECKHEIMER, s.d., (1969): 181/182).

No dia 10 de abril de 1898 os bugres atacaram os condutores da tropa de quarenta burros de carga em marcha para Lages e Canoinhas, transportando açúcar, arroz, sal, café e outros gêneros que viajavam sem a companhia de bugreiros armados por não ter querido aguardar que retornasse de outra viagem.

(...) numa curva da estrada, onde esta subia e onde não havia meio de desviar, os bugres fecharam a estrada e atacaram os três acompanhantes da tropa. Rodolf Reich recebeu uma flechada no coração e morreu. José Dias recebeu uma flecha no ombro direito, quebrou-a e fugiu pelo mato. O padre que acompanhava salvou-se apenas com o susto, o cavalo foi ferido e caiu, o padre despiu a batina e caminhou 8 horas pelo mato. Os bugres mataram os 40 burros e carregaram com os sacos vazios, arreios, pelegos, mantas, etc (Idem, p.180/181).

 

Apenas em Blumenau, desde a fundação do Município em 1880, houve sessenta e um ataques dos índios Botocudos, com quarenta e um  colonos brancos mortos e vinte e dois feridos. Foram utilizados vários meios para enfrentar estes adversários, desde destacamentos de soldados, presentes deixados na mata, “caçadores de bugres” que aprisionavam mulheres e crianças indígenas o que apenas enfurecia mais ainda os índios, que por sua vez também arrastavam consigo crianças dos colonos. (DEEKE, 1988: 18/19).

Os imigrantes desbravadores além de todas as dificuldades encontradas na nova terra, de adaptação, alimentação, dificuldades econômicas, de idioma, saudades, enfrentavam a fúria dos inimigos selvagens.

 

1.4 COLÔNIA PARTICULAR

 

Por dez anos o Dr. Blumenau foi empreendedor particular, enfrentando toda sorte de dificuldades, econômicas, ataques dos silvícolas, chamados de bugres ou selvagens pelos colonizadores e enchentes; em 1855 a inundação destruiu tudo que havia sido construído com muito trabalho, plantações, árvores frutíferas, até mesmo a casa do Dr. Blumenau, foi arrastada, tendo este se acomodado no barracão dos imigrantes.

Apesar das dificuldades, o empreendimento ia aos poucos se consolidando, contava com cinco engenhos de farinha, outros tantos de açúcar, três alambiques, dois moinhos de milho, um movido à água e outro a tração animal, dois engenhos de serrar, uma fábrica de vinagre, outra de cerveja, uma padaria e uma olaria. (SILVA, 1972: 60).

Entre o final do ano de  1850 e início de 1851 o Dr. Blumenau apresentou nova petição no Rio de Janeiro e obteve apoio do Imperador D. Pedro II e de outras autoridades públicas, sendo-lhe concedido empréstimo por parte do governo, dinheiro que utilizou para adquirir equipamentos para beneficiamento da cana-de-açúcar e aperfeiçoamento de sua qualidade através de enxerto, adquiriu árvores frutíferas, colméias e outras utilidades para o desenvolvimento da Colônia. Entretanto, a embarcação que transportava a carga foi confiscada, sob a alegação de que o veleiro traficava escravo, sendo aprisionada por um cruzador inglês; desde os anos quarenta, a Inglaterra controlava o caminho marítimo para o Brasil e desde 1845 foi proibido o tráfico de escravos. Mesmo não havendo escravos a bordo o Dr. Blumenau perdeu a mercadoria. (BLUMENAU, 1855, (2002): 11).

O Governo firmou contrato com o Dr. Blumenau, no começo de 1854, para incrementar a colonização concedendo adiantamento para amortização em sete anos, garantiu um ordenado de oitocentos mil-réis por ano para um pastor evangélico durante o mesmo período; dez contos de réis para compra de terras próximo da foz do rio para construção de um trapiche junto ao porto; subsídio de trinta e dois contos para despesas de uma estrada entre o vale e o planalto, a ser amortizado a partir do quarto ano, oito contos de réis por ano. O Governo garantiu ao empreendedor e aos seus colonos o direito de compra de aproximadamente metade das terras situadas à margem desta estrada, por um preço mínimo, com isenção de tributos por dez anos. Isenção de taxa sobre a bagagem e instrumentos de trabalho dos imigrantes. Perdão do imposto de dez por cento sobre a venda de terras. (BLUMENAU, 1855, (2002): 71/73).

Em contrapartida o empreendedor se obrigou a trazer mil e seiscentos imigrantes em cinco anos e mais dois mil e quatrocentos nos cinco anos seguintes. Construir um templo, moradia para o pastor, uma escola ampla com moradia anexa para os professores, e mais duas moradias para esses profissionais nos próximos dois a três anos e pelo mesmo período ou antes a remuneração de mais dois professores. Instalação de diversas casas de recepção para abrigar os recém-chegados, no porto de Itajaí, na colônia e na estrada para o planalto; expansão e manutenção da estrada da colônia até o mar; abertura de caminhos e construção de pontes; construção de galpões de quatro em quatro léguas para abrigar viajantes; instalar uma escola agrícola e transformá-la em centro de experiências e culturas; manter reservados lotes para imigração e administração adequada do empreendimento. (BLUMENAU, 1855, (2002)).

Todos os bens do empreendedor ficaram empenhados para garantir o adiantamento, não cumprida a obrigação arcaria com multa de quatro contos de réis.

A amortização dos adiantamentos e devolução do empréstimo concedido pelo Governo Imperial era feito com fixação de cada colono no Vale, vinte mil-réis para crianças entre cinco a dez anos e trinta mil-réis para imigrante de dez a quarenta e cinco anos. Não atingido o número em dez anos seria concedido uma prorrogação de dois anos para pagamento do excedente, com juros. (BLUMENAU, 1855, (2002): 74).

A primeira década do empreendimento foi também marcada por represália política que dificultava o desenvolvimento da Colônia visto que o governador da Província, João José Coutinho e seus funcionários dificultavam o trabalho do Dr. Blumenau.[13] (BLUMENAU-NIESEL, 2002: 12).

Blumenau foi colônia particular até o final do ano de 1859, em janeiro de 1860 a Colônia passou para o domínio e administração do governo imperial. Foi elaborado contrato com várias condições,  estipulando que as dívidas dos colonos com o Dr. Blumenau continuavam com este, os juros foram limitados a  nove por cento ao ano; também regulou a aquisição dos bens do colonizador pelo governo e na negociação considerou as dívidas daquele com o império. A colônia continuou a ter o nome do fundador por decisão do imperador. O Dr. Blumenau permaneceu como diretor, recebendo gratificação anual de quatro contos de réis. (SILVA, 1972: 67/69).

A colônia foi elevada à categoria de Município em 04 de fevereiro de 1880 quando a população era de quatorze mil pessoas, foi dissolvida a direção da colônia e dispensado o Dr. Blumenau do cargo de Diretor. (KIEFER, (1999): 41).


 

2 RELAÇÕES DE TRABALHO NA COLÔNIA DO DR. BLUMENAU

 

 

O Dr. Blumenau, preocupado com o desenvolvimento da colônia, cuidou de divulgar as atividades com maior carência na região de forma a estimular a emigração nestas áreas, reduzindo o valor da mão-de-obra e fomentando o progresso.

No Guia de Instrução aos Imigrantes o Dr. Blumenau, relatou as atividades e indústrias carentes na Colônia ou na Província, tais como padeiros, artífices em construção, nestes incluídos pedreiros, carpinteiros, marceneiros, tanoeiros, charuteiros, torneiros, açougueiros, curtidores, chapeleiros, funileiros, caldeireiros, moleiros, construtores de moinhos, seleiros, serralheiros, alfaiates e sapateiros, saboeiros, carpinteiros de carruagens, oleiros,  pintores e agricultores, classe mais favorecida com a imigração, possibilitando com muito trabalho um futuro promissor ao colono.

O artífice que faz trabalhos de alto padrão ou o artista, não têm praticamente perspectiva alguma de trabalho nos próximos anos. Lavradores ou peões não recebem tanto quanto os artífices, mas, às vezes, são muito procurados e, outras vezes nem se encontram disponíveis. Para um período relativamente longo, o vencimento médio de um diarista é de 640 réis, 800 réis e até 1 mil réis por dia, incluindo boa alimentação e hospedagem (BLUMENAU, 1850: 111/112).

 

Doutor Blumenau alertou os imigrantes que o país era carente de todos os recursos, que a indústria, agricultura e agroindústria eram incipientes, que o comércio era a atividade melhor desenvolvida, que seria implementada com a imigração e que os salários eram altos (BLUMENAU,  1850 (1999): 59).

A esparsa legislação conferia ampla liberdade na contratação que era regulada pela oferta de mão-de-obra e de trabalho.

 

2.1 LEGISLAÇÃO

 

Os primeiros colonizadores desembarcaram em 02 de setembro de 1850, sob o manto da Constituição Imperial de 1824, que permitia qualquer trabalho que não se opusesse aos costumes públicos, à segurança e saúde dos cidadãos e abolia as Corporações de Oficio, seus Juízes, Escrivães e Mestres[14].

O Código Comercial, Lei nº 556, de 25-6-1850, inspirado na filosofia individualista reinante na época com forte influência do Código Civil francês de 1807, regulava as relações dos trabalhadores no comércio denominados prepostos (os feitores, guarda-livros, caixeiros e quaisquer pessoas contratadas para trabalhar no estabelecimento) e os comerciantes estabelecidos, os proponentes.

Estipulava a responsabilidade do preponente pelos atos dos prepostos; previa obrigações recíprocas; pagamento de salários até três meses em caso de acidente e indenização a dano sofrido pelo preposto no serviço[15].

O Código Comercial previa também o aviso prévio nas extinções de contratos por prazo indeterminado e indenização nas rescisões culposas dos contratos a prazo, bem como hipótese de rescisões por justa causa[16].

Excetuadas as relações dos trabalhadores no comércio, não existia legislação trabalhista, havia ampla liberdade na contratação, sendo os trabalhadores remunerados por tarefa, parceria, por dia ou mês conforme negociado entre as partes.

Havia regime de escravidão no Brasil, que apenas foi abolido em maio de 1888[17], de forma que não havia muito espaço para o trabalho livre.

O fim da escravidão foi gradativo, inicialmente devido às pressões feitas pela Inglaterra, foi proibido o tráfico de escravos através da Lei Eusébio de Queirós, Lei nº 581 de 4 de setembro de 1850[18], que acabou definitivamente com o tráfico negreiro intercontinental, o que reduziu a oferta de escravos, tornando onerosa a aquisição, já que eles não podiam mais ser trazidos da África.

Seguiu-se a Lei do Ventre Livre, Lei nº 2.040 de 28 de setembro de 1871, que declarou livre os filhos de escrava nascidos a partir daquela data[19]; quatorze anos após a Lei nº 3270, de 28.9.1885[20], conhecida como Lei Saraiva-Cotegipe ou Lei dos Sexagenários concedia liberdade aos escravos maiores de sessenta anos, devendo trabalhar para os senhores durante três anos ou até completarem sessenta e cinco anos, ficando os ex-senhores com a obrigação de cuidá-los e alimentá-los e por cinco anos, mantinham como domicílio o local da alforria, exceto nas capitais e finalmente, em 13 de maio de 1888, foi declarada extinta a escravidão no Brasil através da Lei 3.353, Lei Áurea[21].

Abolida a escravidão, foi estimulada a imigração para suprir a falta de mão-de-obra, a imigração inicialmente começou na agricultura estendendo-se posteriormente para o comércio e a indústria.

Nossa pesquisa abrange ainda o período de vigência da primeira Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, promulgada em 24 de fevereiro de 1891, passados pouco menos de três anos da extinção da escravidão; entre os direitos e garantias individuais, assegurava a liberdade de profissão, moral, intelectual e industrial[22], não havendo qualquer referência aos direitos dos trabalhadores, que foram amparados apenas a partir da Constituição de 1934, que excede o período de nossa pesquisa.

Verifica-se que o imigrante tinha total liberdade na contratação dos trabalhadores, as relações entre patrões e empregados eram reguladas apenas pelo Código Comercial e as leis de locação de serviço.

 Neste cenário se desenvolveram as relações de trabalho no período pesquisado, ou seja, da fundação da Colônia do Dr. Blumenau em 1850 até 1900.

Era utilizado uma espécie de contrato de experiência, que na legislação trabalhista brasileira apenas foi introduzido em 1967, através do Decreto-Lei nº 229/67 que alterou dispositivos da CLT, entre os quais o art. 443 acrescendo o contrato de experiência como modalidade de contrato a prazo determinado[23].

O Dr. Blumenau advertia que seriam pagos altos salários quando os imigrantes tivessem se adaptado às funções.

“Nos primeiros meses, será difícil que recebam mais de 8.000 réis mensais, incluindo as refeições”. Às vezes os recém-chegados não querem trabalhar por um salário inferior ao pago aqueles que já têm experiência (BLUMENAU, 1851, (1999): 193/195).

O colonizador recomendou que não se fizesse contrato por mais de um ano, evitando aborrecimento caso não se adaptassem os contratantes (BLUMENAU, 1851, (1999): 209). As limitações aos contratos a prazo foram introduzidas na legislação trabalhista pelo mencionado decreto-lei[24].

Julgou o Brasil mais favorável para o imigrante onde seria mais bem tratado e respeitado do que a América do Norte:

“No Brasil, assim como na Alemanha, após seis dias de trabalho extenuante, o indivíduo poderá gozar o sétimo dia em companhia dos amigos, sem recear a perda de sua reputação pelo fato de não comparecer à igreja aos domingos, pelo menos duas vezes, e passar o resto do tempo entediado e sozinho em casa, ao contrário do que acontece na América do Norte e, em menor escala, na Austrália e colônias inglesas.” (BLUMENAU, 1850: 55).

Já era guardado o domingo como dia de repouso; apenas na Constituição de 1934 foi introduzido na legislação nacional o direito ao repouso semanal, de preferência aos domingos[25].

 

2.2 TRABALHO ESCRAVO

 

Doutor Blumenau, no seu Livro sobre Imigração e Colonização no Brasil, publicado em 1850 na Alemanha, lamentou a existência da escravidão no Brasil, havia em Santa Catarina quatorze mil numa população de noventa mil pessoas; informou a existência de uma política para redução da escravidão, que o Presidente da Província de Santa Catarina, Antero José Ferreira de Brito, propôs taxar todo escravo introduzido com quarenta mil réis e igual bonificação para todo escravo libertado.

(...) procura-se dificultar e onerar o trabalho escravo, a fim de proporcionar melhores perspectivas aos trabalhadores livres e melhorar suas condições. No Rio Grande, (...) foi proibida aos imigrantes a manutenção de escravos, criando-se assim uma expectativa de que o flagelo da escravidão não vai atingir nem desmoralizar os teuto-brasileiros (BLUMENAU, 1850, (1999): 59).

 

O governo de Santa Catarina, após debates na Assembléia Legislativa decidiu não permitir a utilização de mão-de-obra escrava nas terras cedidas para imigrantes.

Este fato configurou-se como vantagem aos imigrantes conforme descreve o Dr. Blumenau:

(...) os alemães precisam unir-se cada vez mais porque, no momento, os brasileiros não sabem lidar com trabalhadores livre. Eles podem providenciar escolas e igrejas próprias, bem como aprender a língua dos seus futuros compatriotas e os costumes da terra, passando a receber salários mais altos, pagos nos lugares onde há atividade e prosperidade (Idem: 59).

 

A política de incentivo a imigração tinha justamente a finalidade de substituir a força representada pela mão-de-obra escrava pelos imigrantes, de forma a possibilitar o desenvolvimento sem o obstáculo da falta de trabalhadores livres.

Embora o Dr. Blumenau tivesse repudiado a escravidão em seu livro, posteriormente fez uso de trabalho escravo para tornar seu empreendimento mais rentável, conforme comprova carta aos pais e parentes, datada de 21 de abril de 1948:

Depois de muitas ponderações, chegamos à conclusão de que, em vista dos salários altos e a incerteza em conseguirmos mão-de-obra, não podíamos continuar sem o trabalho de alguns negros. Em virtude disto, Hackradt[26] viajou imediatamente para o Rio de Janeiro, a fim de receber o dinheiro e trazer alguns negros. Ele trouxe cinco, entre eles uma negra que cozinha, costura, lava roupa e passa ferro. Os negros, inclusive despesas de viagem, custaram 2.700 mil-réis. A compra não foi má. Nós não estávamos muito entusiasmados, mas não tivemos (...) alternativa. Temos os negros e esperamos que tudo vá bem. Todos são novos, exceto um que tem 38 a 40 anos. São fortes e estão com boa saúde. Aqui cada negro custa normalmente 600 a 700 mil-réis. (...). Hackradt (...) não está satisfeito com os diaristas que pedem 154 réis e trabalham pouco. Vai melhorar, pois com os negros economizamos cada dia 4 réis e sob os olhos do patrão o trabalho rende mais.

O próximo trabalho importante será a construção do nosso engenho de serra. (...) Nossos recursos financeiros são suficientes, se bem que escassos, mas com os negros economizamos muito em salários. Em breve o engenho começará a produzir. Então poderemos dispensar um bom número de diaristas (...).

Pretendemos operar a serraria com um ou dois negros. Se não der certo, teremos que empregar dois brancos, pagando a eles diariamente uma dúzia de tábuas. Sobrarão para nós, diariamente, 12 réis. Em 300 dias serão 3.600 mil-réis, ou no outro caso, 4.800 mil-réis... Se quisermos trabalhar exclusivamente com negros, necessitaremos seis a oito. Se calcularmos sete negros, estes irão custar 4.000 mil-réis... Neste caso o lucro líquido diário será de 32 réis no mínimo ou 7.600 mil-réis por ano. Os negros também poderão ajudar no trabalho do campo. (BLUMENAU, 1848, (1998): 21/23).

 

Investir em negros poderia ser tão vantajoso quanto deixar o dinheiro aplicado a juros, conforme se conclui de correspondência do colonizador ao cunhado:

Ou deixo o dinheiro aqui (no Rio) a 6% de juros ou escreverei a Hackradat se ele quer assumir por nós e que venha para cá e com aquele dinheiro que ele ainda tem lá (no Itajaí) poderá comprar aqui (no Rio) mais 6 ou 7 negros. Então teremos 11-12 e com eles vai mais rápido e contínuo.

(...) Hackradt me escreve, com data de 26 de fevereiro de 1849, que comprou mais um pouco de terras... Que há muita falta de trabalhadores e que ele, por isso, ainda não pode cortar nada do engenho. Por isto ele comprou mais 5 negros no Rio. Um negro doente ele vendeu e este negro veio a falecer na casa de seu novo dono, um outro se encontra doente. Isto também é bastante sério! (RICHTER, 2006: 36/42).

 

As cartas aos parentes retratam os planos e a economia que representava a utilização de mão-de-obra de escravos, que eram comprados ao preço médio de seiscentos mil-réis e evitavam gasto com diaristas e empregada doméstica, trabalhadores que eram bem remunerados visto que escassos.

A sociedade entre o Dr. Blumenau e Hachradt se desfez em 1850, conforme já mencionamos ao tratarmos do Fundador, quando o Dr. Blumenau retornou da Alemanha ficou decepcionado com o que encontrou, tinha apenas algumas choupanas e um casal de velhos negros, os demais tinham fugido, muito aquém do que esperava para recepcionar os primeiros imigrantes.

 

2.3 TRABALHO DA MULHER

 

O trabalho da mulher era imprescindível no desenvolvimento da Colônia, esse era o entendimento do Colonizador, que não gostava de ceder terras aos solteiros porque sozinhos não progrediam visto que não tinham quem cuidasse da casa, horta, roupas e quem lhes confortasse nos momentos difíceis, situação confirmada pelos imigrantes, conforme constatamos nos relatórios do Dr. Blumenau e em correspondências dos colonos aos parentes.

Em carta ao superintendente Baumgarten, na Alemanha, em dezembro de 1853, o colonizador ressaltou a importância da mulher para o imigrante e a dificuldade daqueles que permaneciam solteiros:

Cada vez me convenço mais que o imigrante que trabalha na terra, necessita do auxílio de uma mulher e boa dona de casa. No meu relatório anual, eu frisei isto (...) e fui criticado, (...) um impressor riu muito sobre isto nos primeiros 8 dias, (...) depois de 8 semanas (...) concordou comigo, (...) dizendo que uma esposa aqui é tão necessária como o pão-de-cada-dia. (...) O melhor conselho (...) a jovens imigrantes (...): procurem trazer uma esposa com prendas domésticas e que não esteja muito habituada à cidades grandes. (...) Os solteiros aqui, para mim são uma verdadeira praga e eu gostaria de ver, principalmente os mais velhos, (...) já casados. Enquanto isto não acontece, não existe uma verdadeira solidez e somente um provisório em tudo que fazem. (BLUMENAU, 1853 (1986): 240/241).

 

“Há falta de empregadas domésticas e de mulheres para o manejo do leite, pois as mesmas são tão requisitadas nas cidades e no campo, quanto o trabalhador do sexo masculino, recebendo em média de 6.000 a 10.000 réis mensais” (BLUMENAU, 1851, (1999): 193).

Em algumas situações o trabalho da mulher tinha por finalidade pagar as despesas de viagem da Alemanha para o Brasil, custeadas pelo empregador, conforme entendimento de Julius Baumgarten com o pai, em carta a este dirigida em 28 de julho de 1853, quando pediu que lhe enviasse pessoas para trabalhar:

Caso não tenham dinheiro suficiente para a vinda, empresta-lhes o dinheiro primeiro. (...) A mulher terá que ficar na minha propriedade por 2 anos e fazer todos os trabalhos domésticos. Ao mesmo tempo terá que cuidar de seu marido e filhos. (BAUMGARTEN, 1853, (1986): 322/323).

 

Em outro trecho da mesma carta Julius incentivou o amigo (que passado pouco mais de ano morre em acidente na serraria) a trazer uma esposa, “uma moça de nosso meio (...) precisa apenas assumir as atividades domésticas principais. Não precisa ordenhar vacas, nem alimentar porcos, só se quiser (...) deve cozinhar e cuidar da roupa. (...) uma propriedade sem mulher é coisa insustentável”. (BAUMGARTEN, 1853, (1986): 326).

A importância da mulher foi também ressaltada por Julius em seus apontamentos:

(...) quero ainda salientar uma importante circunstância que diz respeito aos solteiros. (...) É melhor trazer um pouco menos de dinheiro e uma mulher, do que o contrário, porque meter-se na agricultura sem mulher é o mesmo que trabalhar inutilmente. O que ele arruma no solo com suor e sacrifícios, desperdiçará facilmente em casa. Uma mulher dedicada é o melhor capital e quem não quiser seguir este conselho certamente falirá, como aconteceu com muitos jovens (...) (BAUMGARTEN, 1854, (1961): 126).

 

A empregada doméstica além de cozinhar, cuidar da casa e das roupas, ajudava na plantação e deveria de preferência ser bonita e educada, informação extraída novamente da correspondência de Julius, agora em carta para a mãe em 02 de abril de 1854:

Minha querida mãe! (...) A minha vida doméstica está praticamente normalizada. A senhora Schack é muito ordeira, trabalhadora e econômica. Com o pouco de trabalho que apresenta em sua casa ainda sobra bastante tempo para trabalhar na horta e no jardim. Ainda conseguiria fazer mais, mas seu estado de saúde é precário, debilitado pela febre que contraiu na Colônia Dona Francisca. Ela cuida da roupa de Kellner e da minha, muito bem. Não é uma grande cozinheira, mas isto também não é importante, a panela com a comida colocada no fogo, cozinha sozinha. Ela é alta e forte, mas terrivelmente feia e tem somente 36 anos, mas aparenta ter cinqüenta. Tem o péssimo costume de falar muito alto e é tagarela, razão porque às vezes preciso dar umas palavras rígidas de repreensão. Apesar de que eu me dou bem com ela, gostaria de conseguir uma outra doméstica em breve, e que fosse um pouco mais educada. Gostaria de encontrar uma pessoa, da qual não precisasse envergonhar-me quando mando para algum lugar, pois todos a acham tola e riem dela.

Mesmo com todos estes defeitos ela é útil para mim e nos últimos 14 dias economizou-me um operário, porque diariamente teve que ajudar na plantação da cana-de-açúcar e feijão, o que com o atual calor é um verdadeiro castigo.

Espero que vocês consigam para mim uma boa doméstica, da qual não precise me envergonhar e não brigar com ela. (BAUMGARTEN, 1854, (1986): 282).

 

“As mulheres e moças encontram ocupação na cozinha, no serviço leiteiro e no jardim; além disso, aos domingos, podem costurar e obter um ganho extra”. (BLUMENAU, 1851, (1999):193).

Sem dúvida o colonizador entendia que a mulher deveria trabalhar em tempo integral, de domingo a domingo.

Encontramos mulher trabalhando no comércio e como parteiras, conforme relatado por Max Brueckheimer em suas memórias:

Com a morte do avô sua mãe foi trabalhar como pagem na casa de Pedro Schimid, perto de Gaspar, onde muitas vezes a avó tinha ido como parteira, o que fez com que a menina fosse bem recebida e lá permaneceu por muitos anos. Com 19 anos saiu para ser parteira, ofício que aprendeu com a mãe, que passaram a dividir o trabalho. (BRUECKHEIMER, s.d, (1969):160/161).

 

A avó de Max era parteira diplomada na Alemanha, tendo ensinado o ofício para a filha, mãe de Max, trabalho que não tinha hora para ser executado, noite ou dia, em tempo bom ou ruim, a pé ou a cavalo, tendo às vezes que viajar dez horas para exercer o ofício, nem sempre remunerado, face às dificuldades econômicas dos colonos, conforme relata o descendente em suas memórias.

A mulher ficava responsável pela família e até pela matança de animais na ausência do marido que estava ocupado na roça, em derrubadas de mato ou qualquer outro trabalho, como o pai do Max, que era agrimensor.

“Quando eu ainda era pequeno e meu pai estava fora, mamãe mesma é quem carneava os porcos, com a ajuda de minha irmã mais velha e eu tinha que segurar a cauda”. (BRUECKHEIMER, s.d., (1969):174).

Ordenha era trabalho de mulher, é o que se deduz de diálogo entre uma jovem e seu pretendente, relatado por Max: a moça pergunta se ele sabe ordenhar e ele responde: - “Isso é coisa que todo colono tem que saber, pois, que será do colono se a mulher um dia ficar doente e ele não souber nem mesmo como se tira leite de uma vaca?” (BRUECKHEIMER, s.d., (1969):186).

As famílias eram numerosas, às vezes com doze a dezesseis filhos e as mães trabalhavam na lavoura e no serviço doméstico. Os filhos supriam a falta de mão-de-obra ajudando os pais, muitas vezes assumiam as plantações com as mães, visto que os pais trabalhavam no mato.

A importância da mulher na vida do imigrante fazia com que se apressassem a casar para não perder a pretendente para outro interessado, é o que aconteceu com Julius Baumgarten, que relatou aos pais em carta do dia 10 de fevereiro de 1855, a razão do acelerado noivado:

No dia 04 de fevereiro noivei com uma jovem muito simpática de nome Gretchen Wagner. A vida de solteiro aqui é horrível (...) Refleti muito (...) não foi um passo impensado. Eu não quis sacrificar minha liberdade jovem, mas não foi possível e peço aqui sua bênção. Não pude mais esperar com meu pedido, pois do contrário ela teria se tornado noiva de outro e já havia 3 ou 4 pretendentes à espera. (...) como ainda é muito jovem posso educá-la. (...) Está na companhia dos pais e irmãos e educada desde pequena para o trabalho, já dirige agora a casa de seus pais já que a mãe é doente (BAUMGARTEN, 1855, (1986): 329.)[27]

 

Além do trabalho doméstico cuidando dos filhos, casa, roupas e comida,  as mulheres trabalhavam na roça, eram responsável pela horta, pelos animais domésticos e ainda costuravam, faziam tricô e crochê; para que a esposa se aperfeiçoasse nestas artes de agulha é que Julius entre outros motivos agilizou o casamento, visto que em casa a noiva não tinha tempo. (BAUMGARTEN, 1855, (1988): 24).

Em 1883 Minna Hering, (apud RENAUX, 1995: 147) relatou as tarefas que compõem seu dia a dia de dona de casa:

Querida Aurelie, (...) aqui o tempo passa de maneira assombrosamente rápida, o que certamente não vais querer acreditar, (...) os três anos em que aqui nos encontramos voaram, nós nem sabemos como. Que para mim, em especial, o tempo fica curto, dá-se ao fato que uma dona de casa é obrigada a fazer uma série de trabalhos a mais do que em nossa querida Saxônia. Aqui eu por exemplo, sou padeiro, cervejeiro, açougueiro, cozinheiro etc. etc. Preciso fazer pão duas vezes por semana e, de tempos em tempos, também ainda junto um bolo de batatas, já que aqui toda casa, por menor que ela seja, possui o seu próprio forno. O pão, entretanto, é de uma qualidade bem diferente que o de lá, porque não se cultiva centeio, e sim milho; quando usada a farinha feita dos grãos de milho, sem farinha de trigo, obtém-se um pão curto, firme, quase intragável, e, ao comê-lo, tem-se a impressão de estar com serragem na boca. Agora, porém, acrescento a metade em farinha de trigo, cujo preço é, mais ou menos, o de lá, e faço um pão muito gostoso, cujo sabor é bem melhor que o do pão de centeio alemão, o qual às vezes não se pode comer devido à acidez.

Eu fabrico por semana um barrilzinho de cerveja de aproximadamente 25-30 garrafas, já que a cerveja fabricada nas cervejarias locais é cara demais, uma garrafa custa, pelo vosso dinheiro, 60-70 P., além de ser muito pouco substanciosa; isso então, para as nossas condições é oneroso demais. Por isso, fabrico, de lúpulo e açúcar bruto, que aqui é muito barato, uma bebida deliciosa, engarrafo a mesma, e quando se abre uma garrafa, é bem assim como se derrama soda, sendo o sabor quase igual à última, com morango. Grandes e pequenos são assíduos “fregueses” e mesmo Bruno, o qual conhecidamente não é bebedor de cerveja, aproveita bastante. Uma garrafa custa para mim 6-8 P., pelo vosso dinheiro.

Isso era pão e cerveja, agora vem a carne; como a carne bovina não é tão forte e suculenta como lá, comemos pouca; em compensação comemos ovos e aves; dos primeiros custa cada um 2 P., assim não há necessidade de tomar-se uma sopa sem ovos, uma galinha custa 60 P., um galo 48 P., patos são um pouco mais caros; assim trato as aves ainda por algum tempo, então tenho a melhor mercadoria, já muitas vezes uma galinha chegou a pesar 4-5 kg. Isto são excelentes refeições, também tem de ser já que aqui todos têm de trabalhar muito (...) [aqui menciona o trabalho da família na fábrica, já transcrito no capítulo da indústria].

Agora veja, querida Aurelie, cada qual trabalha de acordo com suas forças, então também eu preciso cuidar para que as forças do grupo sejam restituídas com alimentos substanciosos. Pode-se também aproveitar as laranjas, muito baratas, sendo que duas delas mal custam 1 Pfennig. A manteiga é muito boa e barata, o quilo custa 1 marco.

Eu também tenho um jardinzinho junto a casa, onde naturalmente planto hortaliças; como sempre adubamos bem, colhemos mais que outros que plantam uma área bem maior.

 

O longo relato de Minna Hering (apud RENAUX,1995), nos dá uma dimensão do trabalho da dona de casa, que não se restringia aos afazeres domésticos referentes a cuidado das roupas, limpeza da casa, preparo de pão, comida, mas também a criação de animais domésticos, cultivo de hortaliças, economia doméstica e produção de cerveja, além é claro das responsabilidades de mãe de vários filhos como era comum à época e de esposa e companheira; ainda sobrava tempo para cuidar do jardim, aos sábados faziam quitutes para reunir a família para o lanche de domingo e quando não tinham nada para fazer, bordavam e  costuravam; sem dúvida, é forçoso  concordar com o Dr.  Blumenau, a mulher realmente era imprescindível para o progresso do imigrante.

No que se refere a Minna, ainda lhe sobrava tempo para se dedicar à atividade cultural, participando do corpo cênico do Teatro Frohsinn juntamente com o marido, cunhado e filhos. Eram apresentadas em média cinco peças por ano no teatro.

É de se considerar o fato de que Minna era uma dona de casa de família de alto poder aquisitivo na época, família burguesa, donos do próprio negócio de tecelagem, de nível econômico e cultural superior a maioria dos imigrantes, pelo que se pode concluir que as demais donas de casa trabalhavam o equivalente pelo menos.

A mulher também assumia e levava adiante o empreendimento herdado com a morte do marido, como aconteceu com Carolina Jensen, viúva em 23 de março de 1899, deu prosseguimento ao estabelecimento comercial, antes firma individual, transformando em sociedade comercial, nascendo assim a Jensen & Cia. (ACIB, 1989).

A indústria têxtil garantia trabalho às mulheres, diretamente na fábrica ou em casa, conforme relata Johanna Baier Muller, (apud RENAUX, 1995: 161) ela e familiares costuravam para a firma Hering em casa, trabalhavam desde a manhã até as vinte e duas horas, cada uma fazia uma parte da peça: “Para a fábrica eu costurei alguns anos, minha avó, eu e a Tante Delminda. Hermann Muller-Hering nos trazia a costura cada segunda-feira ao mesmo tempo em que levava a que já ficara pronta. Com isso ganhávamos dinheiro”.

Não se sabe que tipo de contrato que era realizado entre as partes, poderia ser prestação de serviços ou empreitada. À luz da atual legislação se caracterizaria como empregado a domicílio, desde que prestado de forma pessoal, com subordinação e não eventual, independente da forma de remuneração[28].

O que é certo é que em sua origem a indústria têxtil já utilizou mão-de-obra paralela àquela diretamente subordinada ao empregador na fábrica, atualmente habitual na região no ramo têxtil.

As filhas de Hermann e Minna Hering, Elise quatorze, Joanna treze, Nany dez e Margarete com sete anos, trabalharam na indústria da família até casarem, quando então os maridos assumiram postos na empresa, com exceção da mais nova Gertrud, nascida em 1879, que não chegou a trabalhar na fábrica tendo vida de menina burguesa, freqüentando escola, ocupando-se de prendas domésticas, como bordado, cozinha, aula de música tornando-se apreciadora da literatura e escritora, atividade que conciliou com a vida de casada e mãe de três filhos e esposa. (RENAUX, 1995).

As mulheres constituíam a maioria das operárias na indústria têxtil, os homens dedicavam-se à agricultura, pecuária, comércio e transporte.

 

2.4 TRABALHO RURAL

 

Os imigrantes vinham seduzidos pela facilidade de aquisição de terras o que não era possível na Alemanha, no Brasil a aquisição era regulada pela Lei de Terras, Lei 601 de 18 de setembro de 1850 que dispunha sobre as terras devolutas do império, disciplinando a venda aos estrangeiros bem como a vinda destes para o país às custas do tesouro[29].

Às vezes tinham que trabalhar para pagar as despesas de passagem custeadas, conforme se depreende da carta de Julius ao pai, em julho de 1853, ao solicitar que lhe enviasse pessoas para trabalhar: