A União dos Povos e a Formação de um Estado Mundial

 

Olavo A Arruda D´Câmara *

 

 

            Este trabalho tem por objetivo levantar hipóteses e discorrer sobre possibilidades dos povos de todos os continentes se unirem em torno de objetivos comuns, buscando integração, união e desenvolvimento para a paz.

 

            Desde que se conhece a história do homem na terra, dos povos mais antigos, a começar pelos “pitecantropos erectus”, o homem de “java”, o homem de “Pequim”, o homem de “cro-magnon”, até chegar ao “homo sapiens”, passando pelas tribos  e tornando-se o homem nômade e depois sedentário, catando, caçando ou plantando e buscando meios para sobreviver, foi sempre uma história de violência e de disputas.

 

            Quanto a origem da Raça Humana, vale destacar que há atualmente grande interesse, por parte de muitos segmentos, em procurar suas raízes e este termo se refere à origem do homem, um humanóide.

 

            “O fator tempo com relação aos  espécimes conhecidos mais antigos que possam ser designados como humanos está sendo empurrado cada vez mais longe no passado. A mais antiga data proclamada pela renomada família de antropólogos, a família Lakeys, remonta a vários milhões de anos. Hoje  a África está sendo reconhecida como o possível lar da mais antiga criatura com formas humanas o Homo Erectus”.  Vale citar o texto abaixo pesquisado e citado pela Ordem Rosacruz-AMORC, uma entidade filosófica e estudiosa da evolução do homem, da mente humana e dos vários aspectos da vida:

 

            “Em períodos anteriores da ciência da antropologia, a honra de ter sido o primeiro centro da vida humana foi passada de um continente para outro. O sinantropo, ou homem de Pequim, foi  por muito tempo saudado como o nosso mais antigo ancestral. Mas isso resultou em grandes  controvérsias a respeito da autenticidade daquele achado. No Quênia, África Ocidental, foram encontrados restos que, de acordo com os testes com radio carbono devem ter quase três milhões de anos. O exame dos crânios desses espécimes revela uma capacidade de 600-800 centímetros, cerca de metade  da capacidade cerebral do homem moderno. Restos arqueológicos de seres humanos  mais recentes, da Idade do Gelo, com idade avaliada em 30.000 anos, mostram sinais de habilidades simples. Pedras eram usadas como ferramentas de corte e percussão, ou seja, serviam para cortar e martelar. Depois foi adquirida a capacidade de modelar e selecionar o sílex para fazer implementos, usando-se a percussão, isto é, retirar lascas dessa pedra até conseguir a forma desejada, por meio de batidas com outra pedra. Desse ponto, houve um progresso lento na direção da pressão que consistia em prensar com uma pedra os lados da pedra de sílex para remover partes indesejáveis. Amarrar as pedras de sílex assim trabalhadas a pedaços de pau com reentrâncias para mantê-las presas e depois adicionar um cabo foi um avanço técnico que ocorreu bem mais tarde”.

 

            “Uma questão que ainda está sendo considerada pela ciência é se o homem evoluiu dos primatas para os hominídeos – criaturas parecidas com homens – somente na África” ? Seria os achado do Homem de Neanderthal na França e Espanha o resultado de peregrinações posteriores vindas da África? Na Europa existem traços de povos pré-históricos, do final do período paleolítico. Sua Cultura aparenta ser a mesma dos achados em partes da África.

 

            “Outra notável descoberta foi feita nos subúrbios de Vladimir, nos arredores de Moscou, o cemitério de um povoado do paleolítico superior. Continha túmulos bem preservados, cuja data foi estimada em 22.000 anos antes de Cristo. A ciência não aceita a idéia teológica de uma criação espontânea do homem. Há uma estimativa famosa feita em 4.004 antes de Cristo, que seria o ano  para a criação do homem. “Esta citação consta de uma versão Bíblica, a de Saint James, feita pelo arcebispo de Armagh”. É sempre citada pelos teólogos e alguns historiadores. Mas, ressalte-se, trata-se e questão teológica e religiosa e não científica. Raça significa procriação. Diz-se “que a raça se originou onde o tipo humano foi submetido a certas condições ambientais por longos períodos de tempo”. Quanto a questão da superioridade racial, a ciência primeiramente tentou relacionar a superioridade  com a inteligência e a capacidade cerebral. Entretanto, ficou estabelecido que alguns povos primitivos de hoje têm uma capacidade cerebral idêntica ao habitante médio de uma cultura avançada. Os descendentes desses povos primitivos, caso sejam levados ainda pequenos para uma cultura civilizada, avançada, e ali criados  e educados, mostram uma inteligência igual à dos  nativos do local onde são educadas. A alegada superioridade racional tem se devido principalmente à superioridade da vantagem mais que a qualquer qualidade inata.”

 

            Com os passar dos séculos o homem se torna mais civilizado e  evolui ainda mais, começa a plantar e cultivar alimentos, a inventar instrumentos de caça e pesca que eram utilizados para obter meios para a sua sobrevivência. Assim, prossegue o homem na sua trilha para o longo caminho para a chamada civilização, passando por muitas e dolorosas etapas.

 

            Desde tempos imemoriais o homem sempre viveu em guerras, a violência esteve presente em todas as etapas evolução. Hoje, após a entrada do homem no século XXI, o processo civilizatório ainda está a necessitar de  uma evolução em todos os sentidos, pois há fome e miséria em vários países do globo, falta água, habitações e inúmeras doenças proliferam aqui e ali, assustando o homem moderno.

 

            Em que pese todas as descobertas feitas, tais como a tecnologia moderna e as conquistas fantásticas, como a internet, telefonia celular, cirurgias plásticas, raio laser, computador, radio, televisão, foguetes, clonagem, “fecundação in vitro”, transplantes de órgãos, descobertas de remédios e vacinas e tantas outras,  a humanidade ainda terá muito a fazer. Enfim, o homem demonstrou ao longo do processo civilizatório vivido até o presente, astúcia, criatividade, inteligência e uma mente fantástica, capaz de realizações extraordinárias.

 

            Entretanto,  não encontrou meios de como fazer uma melhor divisão das riquezas e evitar os conflitos e as guerras. Basta passar os olhos pelo planeta e se depara com dezenas e dezenas de setenta conflitos armados no globo em todos os continentes. A intolerância do ser humano é assustadora, a violência nos grandes centros urbanos de inúmeros países é  cada vez maior e as relações entre a população de um mesmo país, devido as disputas por moradias, alimentos e melhores condições de vida, são profundamente conflituosas.

 

            Em que pese haver países ricos e desenvolvidos, a maioria da população mundial, hoje ultrapassando seis bilhões de habitantes, vive em miséria e a fome é um dos maiores problemas enfrentados quase dois bilhões de pessoas  do planeta.

 

            As despesas com armamentos, bombas e equipamentos para as guerras consomem tanto, diariamente, que os gastos de um único ano poderiam acabar definitivamente com a fome mundial.

 

            Outro aspecto que pode ser analisado é o fenômeno da globalização, conforme citação do Professor Ricardo Granillo Ocampo, em seu livro Derecho Publico de la Integración:

 

Podríamos decir que la globalización es um proceso político que tiende a la integración de los Estados, que nace a partir de um hecho cultural (las innovaciones tecnológicas y la revolución de las comunicaciones) y que tiene consecuencias econômicas, sociales, culturales y políticas y su corolário em el universo jurídico, al haberse introducido modificaciones em el universo fáctico”.

 

            Todas estas questões demonstram a insensibilidade do ser humano que é profundamente materialista e pensa exclusivamente  em si e não nos seus semelhantes que perambulam pelo planeta terra.  Mas, há esperanças para o homem neste mundo chamado de civilizado?

 

As possibilidades de se instalar no planeta terra um governo mundial são enormes. Quando, um dia, todas as raças, povos e nações buscarem objetivos comuns, fazendo surgir o estreitamento das relações humanas, políticas, sociais e culturais, para que a vida seja cada vez melhor e o homem cumpra a sua missão com dignidade, provavelmente os conflitos desaparecerão.

 

É possível a humanização do homem na terra? As organizações internacionais hoje existentes em vários países e que congregam grupos de países, demonstram que é possível. As entidades, organizações ou grupos de pessoas, citadas em um dos capítulos desta monografia, terão grandes responsabilidades e um papel preponderante neste sentido. O estreitamento das relações humanas entre os povos propiciará o crescimento do homem em todos os sentidos. Quando o homem se humanizar mais, é possível que os conflitos entre nações desapareçam. Este artigo não propõe  ou faz renascer a idéia de um Mundo sem Estados, nem a extinção futura do Estado, mas entende que a União da Raça Humana através de um Estado mundial, deva ser considerado.

 

 

Este trabalho objetiva reforçar a idéia de estreitamento das relações entre os povos, a partir do exemplo da União Européia.  Destaque-se que na antiguidade, povos tentaram conquistar, unificar nações inteiras e impor a cultura do conquistador, mas houve fracasso. As tentativas de Alexandre, o Grande, de Julio César e os Romanos, mais tarde Napoleão Bonaparte e muito mais recentemente, Adolf Hitler, sem contar as guerras de todos os tempos. Os povos e seus líderes não obtiveram o êxito almejado.

 

            Por que fracassaram? Não perceberam que os objetivos de união ou até de unificação de povos, depende do crescimento econômico e desenvolvimento das famílias, dos povos e das nações, além do crescimento social, intelectual, político e cultural de todos.

 

            A discussão e o exemplo dado sobre a União Européia, que após séculos e séculos e com o sofrimento de duas grandes guerras mundiais que assolou a Europa, sem contar o perigo nuclear que ronda o continente e a escassez de recursos naturais não renováveis, levaram os povos de vários países Europeus a estreitar as relações em todos os sentidos e assim, já há algumas décadas têm criado organizações e instituições que aproximaram os povos europeus, mesmo tendo resquícios de mágoas do passado, devido aos conflitos históricos.

 

            Organizações internacionais criadas a partir de 1948, considerando-se ainda instituições que surgiram em séculos passados, e outras que estão surgindo, fazem os povos, aos poucos,  implantarem a conscientização nas populações dos vários países. Por exemplo: “não é possível uma nação viver e sobreviver sozinha no planeta terra, pois todos dependem de todos”.

 

            Já é possível compreender que se um país tiver uma epidemia e não for combatida com a ajuda de outros povos, a doença poderá  acabar com uma nação inteira ou até contagiar outras nações. Daí a citação de Albert Sabin como um homem de desprendimento que deu o seu exemplo. Inventou uma vacina e não a patenteou, mas ofertou como presente ao mundo para o combate da poliomielite.

 

            Os conceitos de soberania estão completamente mudados. O intelectual e historiador Eric Hobsbawn afirmou que a população mundial está vivendo em apenas vinte e cinco países. É mais um momento para a reflexão, e como exemplo, podemos citar o Continente Americano, que em sentido “lato” leva a crer que existem apenas três países: América do Sul, América Central e América do Norte.

 

            Com o desmantelamento da União Soviética e o surgimento da CEI – Comunidade dos Estados Independentes pode-se perceber que há no leste europeu, um grupo composto por 12 (doze) nações, que na verdade acaba sendo um único país, apesar de todas as diferenças culturais, logicamente considerando os novos conceitos de soberania.

 

            É possível o surgimento de um governo mundial? Pode parecer utopia, mas o mundo dá sinais, através de suas organizações internacionais e dos entendimentos entre os povos que em futuro, ainda que distante, as nações através dos líderes poderão se entender mais, visando salvar o planeta.

 

            Em que pese os atentados terroristas, guerras de guerrilhas que ocorrem em inúmeros países da África e ainda na América do Sul e América Central, além de alguns países Asiáticos. As ideologias neo-capitalistas,  as socialistas, sejam marxistas ou democráticas, ainda assim, deverão ser revistas, pois falharam em suas aplicabilidades.

 

            O mundo de hoje é um mundo de alta velocidade e como exemplo se pode destacar: “quando o ex Presidente Abraham Lincoln foi assassinado nos Estados Unidos da América do Norte, no ano de 1865, somente quinze dias após a Europa tomou conhecimento”. “Mas, quando houve a “quebra” da bolsa de Tóquio e de Hong Kong em 1998, passados quinze segundos depois do fato, o mundo inteiro sabia”. Quanto ao atentado de onze de setembro, quando as torres gêmeas foram demolidas, o mundo assistiu ao vivo pela televisão. É um mundo rápido e as pessoas  devem aprender rápido, tomar decisões muito mais rápidas e tornarem-se polivalentes. Não se pode mais aprender somente um língua, é preciso saber várias. Entender de filosofia, aprender música e ter conhecimento de história e tudo o mais que for possível assimilar.

 

            Outro exemplo extraordinário é o da Espanha. Após a ditadura do General Francisco Franco, os líderes, autoridades, empresários, políticos, intelectuais e o povo, devidamente representado, organizaram e reorganizaram a Espanha. O “Pacto de Moncloa, foi o marco extraordinário da virada daquele país. Hoje, a Espanha está entre as maiores economias da Europa e do Mundo.

 

            A União Européia obrigou também Portugal a se modernizar, assim, inúmeros países que desejam se integrarem  nesta comunidade, precisam mudar certos hábitos e costumes, além de modificarem suas metas para a economia. Por isso, a União Européia é exemplo para os povos de outros continentes.

 

            Na América do Sul, apesar de todas as divergências, criou-se o Mercosul, tendo a Argentina e o Brasil como líderes mais afirmativos. Vale destacar que estes dois países sempre tiveram divergências e disputas, mas devido as suas necessidades, as relações são as melhores possíveis nos tempos atuais. O Mercosul está cada vez mais forte e tanto os seus líderes como as suas populações melhoram os relacionamentos. Os países se integram  ainda mais e os outros povos começam a entender como uma necessidade ingressar no Mercado do Sul, que não é apenas comercial, mas de integração em todos os sentidos.

 

            Por outro lado, surge de vez em quando, a velha teoria do anarquismo de um mundo sem Estados. Mas, esta é extremamente utópica e não é possível no momento, vez que a população global não é “santa”.

 

            Por pior que possa parecer a teoria de um Estado mundial, esta não pode ser descartada, pois o mundo passa por perigos, principalmente no que se refere as questões ambientais. A união dos povos deixa de ser sonho e passa a ser uma realidade para salvar o planeta.

 

            O renomado Mestre e Dr. Dalmo de Abreu Dallari, jurista e professor da Universidade de São Paulo, cita em sua obra, “O futuro do Estado”,  (Edição de 2001 da Editora Saraiva de São Paulo, às páginas 109 e 110) que: “A crítica da idéia do mundo sem Estados deve também ser considerada, pois há posições e teorias sustentando a possibilidade do mundo futuro sem Estados. Uma delas, de  menor significação teórica e prática, quase que se reduz a uma questão de denominação, pois admite a permanência do poder político, limitando-se a negar que se possa continuar denominando “Estado”, com propriedade, a sociedade política dotada do poder mais alto. Aquilo a que denominam “sintomas de dissolução do Estado” são, na realidade, as transformações que o Estado vem sofrendo, não para se extinguir, mas, pelo contrário, para assegurar sua permanência”. Estas idéias também são alicerçadas pelo Professor e Jurista Ataliba Nogueira.

 

            A idéia que mais entusiasma, é a concentração dos povos e dos Estados em Blocos Políticos. Um dia, estes blocos poderão se juntar ainda mais, como já vem ocorrendo em algumas regiões do mundo e, desta união, o mundo poderá se transformar um pouco mais para a elevação social dos povos. A busca incessante de meios para o combate a fome, por parte de alguns líderes e de outros que pensam na paz mundial, poderá ser o caminho para o fim que se pretende, ou seja, a União da Raça Humana.

 

* Advogado, Mestre em Direito Político e Econômico, Doutorando em Direito, Professor Universitário, [email protected]