FILADELFO ZACHARIAS DE SOUZA

UMA HISTÓRIA VIVA DA ADVOCACIA VILHENENSE

Paula Veit *

Vilhena é uma cidade pacata, ainda provinciana, localizada no interior do estado brasileiro de Rondônia, considerada e batizada como o Portal da Amazônia Legal, o pequeno município conta com aproximadamente 100 mil habitantes e possui um histórico bastante evoluído quando o assunto é DIREITO, apesar dos tenros 30 anos de emancipação política municipal.

 

Com uma universidade privada fundada há quase 20 anos foi possível levar à cidadezinha, nos idos do ano 2000, o curso tão almejado por tantos brasileiros que pretendem seguir carreira jurídica, despejando, atualmente, cerca de 70 bacharéis em direito por ano na pequena urbe, para assumirem as mais diversas áreas do âmbito jurídico, seja advogando, lecionando ou ingressando em concursos públicos para tentarem uma vaga para o funcionalismo em todo o país.

 

É em meio a essa redoma de profissionais tão jovens e atuantes no mercado vilhenense, que figura o pioneiro e simpático advogado Filadelfo Zacharias de Souza, atualmente com 81 anos de idade e militante na advocacia local até os dias hodiernos.

 

Doutor Fifi, como é carinhosamente chamado por alguns do âmbito forense, também é considerado pelos funcionários, cidadãos e juristas que freqüentam o Fórum Desembargador Leal Fagundes quotidianamente, como uma espécie de anfitrião forense, pois não há um dia sequer, no período matutino, que se adentre o átrio do Fórum de Vilhena, sem que o simpático velhinho não se encontre no hall de entrada para receber a todos com um belo e caloroso sorriso estampado na face, proclamando cortesmente: bom dia!

 

 Goiano de nascimento, Mato-grossense de criação e Rondoniense de coração, o jurista foi batizado originalmente como Filadelpho, quando no Brasil, em 02 de maio de 1927, sua data natalícia, ainda era utilizado o “ph” para designar o som da letra “f”, tendo nascido na cidade de Pedro Afonso, antes pertencente ao estado do Tocantins, região central do majestoso território brasileiro.

 

Ainda pequenino, aos cinco anos de idade, deixou, o então Tocantins, levado por seus familiares para viver em Poxoréu, cidade interiorana do estado do Mato Grosso do Norte, lugar onde passou a maior parte de sua infância e ficou até completar seus 17 anos, quando foi para a capital do estado em busca de novos rumos e oportunidades.

 

Filho de Antonio Zacharias de Souza e de Filadelfa Lima de Souza, esse taurino valente e desbravador passou uma infância humilde e sofrida, tendo herdado da mãe, que morreu ao lhe dar a luz, o nome que carrega consigo ao longo da vida.

 

Zacharias foi completamente acoimado com a orfandade ainda na adolescência, aos 15 anos, quando seu genitor não suportou uma complicação no sistema hepático e morreu deixando o garoto à própria sorte.

 

Com a morte do pai, o garoto ficou sob a guarda de Teotônio Sampaio, casado com sua irmã Maria Barbosa de Souza, 12 anos mais velha que Filadelfo, sendo que o cunhado e a irmã ficaram responsáveis por sua educação e sustento.

 

O casal tinha condição financeira satisfatória, pois Teotônio trabalhava no ramo do garimpo de diamantes e, como não tinham filhos, auxiliaram nos estudos e encorajaram o jovem a lutar por seus sonhos e ideais.

 

Daí em diante se iniciou uma verdadeira jornada de aventuras, desbravações e surpresas na vida do douto jurisconsulto que, já em 1944, aos 17 anos, se mudou para a capital Cuiabá para terminar o estudo ginasial e iniciar na Escola Técnica de Contabilidade de Cuiabá, curso que teve duração de três anos e lhe proporcionou a profissão que lhe garantiria o sustento por muito tempo em sua vida.

 

Já em 1950, Filadelfo embarcou num ônibus rumo a primeira capital da República Federativa do Brasil, o Rio de Janeiro, enfrentando os desafios de uma época em que as rodovias brasileiras se encontravam em péssimas condições de trafegabilidade, pois eram desprovidas de qualquer pavimentação asfátilca.

 

O incansável doutor viveu durante seis anos na cidade maravilhosa, residindo em pensão comunitária, que são as conhecidas repúblicas de estudantes disseminadas pelo Brasil afora até os dias de hoje.

 

Durante o período que permaneceu no celeiro carioca, de início, estudou Ciências Econômicas na Faculdade de Economia do Rio de Janeiro, na época situada na Praça da República localizada no centro da cidade e, mais tarde, desistiu do ramo das ciências exatas, quando então aconteceu o inexorável encontro com o DIREITO, que passou a fazer parte indelével de sua existência.

 

Quando decidiu se direcionar para o ramo jurídico por volta de 1953, em princípio, o que mais lhe instigou foi o fator financeiro, vez que estava insatisfeito com as rendas obtidas até então como contabilista, ofício que exercia na época.

 

Assim, cursou os três primeiros anos de direito no Rio, mas precisou trancar o curso para retornar ao Mato Grosso, onde lhe haviam “arranjado” um casório, pois a tradição brasileira na época ditava a regra de que os familiares dos noivos negociavam o enlace dos pombinhos que muitas vezes nem se conheciam. Era tempo, também, onde vigorava o “dote”, uma antiga prática herdada da colonização portuguesa pelo Brasil já não mais utilizada, mas Filadelfo garante que, apesar do arranjo matrimonial, não recebeu nenhum benefício patrimonial do pai de sua noiva.

 

Casou-se em Rondonópolis, também no estado do Mato Grosso, cidade próspera e conhecida nos dias de hoje pela terra fértil e agricultura promissora, sendo que, depois disso, o ilustre nômade só voltou a flertar com o curso de direito no ano de 1961, quando nem imaginava que ainda enfrentaria quase 10 anos para alcançar o tão almejado diploma.

     

Atualmente viúvo e bisavô, depois do falecimento de sua esposa Vandira Guedes de Souza aos 37 anos, com quem foi casado durante 15 anos e tiveram quatro filhos, Filadelfo não quis mais contrair matrimônio e permanece descompromissado com laços de tal natureza até os dias atuais.

 

As intempéries da vida fizeram com que o causídico levasse cerca de 17 anos para concluir o curso de Ciências Jurídicas e Sociais. Entre idas e vindas, o curso foi iniciado em 1953 na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro e concluído em 1969 na Faculdade de Direito de Cuiabá, capital do estado do Mato Grosso.

 

 

Filadelfo tem orgulho em afirmar que, apesar da luta, das dificuldades e da responsabilidade que atravessou enquanto ocupava a função de chefe de família, nunca deixou adormecer suas aspirações e anseios vitais, mormente em relação ao seu ímpeto de um dia se tornar advogado e ganhar lugares desconhecidos e pouco explorados através de sua profissão.

 

Apesar das barreiras enfrentadas, Filadelfo foi persistente e, com argúcia e dinamismo superou as dificuldades e empecilhos em busca de seu sonho e se tornou um jurista empenhado e corajoso, tendo exalado seus ímpetos forasteiros anos depois de haver terminado a faculdade, para ganhar novos horizontes, enfrentar o mundo e buscar novos rumos.

 

Antes disso, porém, exerceu função pública de Delegado de Polícia Civil durante cinco anos para depois inaugurar sua militância na advocacia em diversas cidades, iniciando no próprio Mato Grosso e depois, aos poucos, sem perceber, já estava na terra cujo nome homenageia Cândido Mariano da Silva Rondon, ou simplesmente Rondon, “o famoso oficial do exército brasileiro que arquitetou a política do Brasil para os povos indígenas”[1] e prolongou os fios telegráficos a uma região brasílica que, na época, a partir do ano 1900, era praticamente inóspita e selvagem, através da Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas, mais conhecida por Comissão Rondon ou pela sigla CLTEMTA. 

 

Destemido, Filadelfo Zacharias decidiu rumar paulatinamente para as bandas do norte brasileiro, saiu da capital mato-grossense em direção ao interior, tendo passado por Barra do Bugre em 1974, Tangará da Serra em 1975, Cáceres em 1976, onde conheceu um colega de profissão, Doutor Jaci Raimundo de Alencar Faria, que militava no direito penal e tinha raízes em Rondônia, especificamente Guajará Mirin, cidade brasileira que faz fronteira com a Bolívia.

 

Das prosas e idéias trocadas com o advogado rondoniense, Filadelfo decidiu que iria para Rondônia, sendo que, em 1977 se aventurou pelas estradas do norte e chegou à capital, Porto Velho, onde encontrou um velho amigo de Cuiabá, o advogado Agamenon Alcantra Moreno, por quem foi convidado a trabalhar em seu escritório.

  

 

Mas seu espírito vivaz e curioso não se aquietou e Filadelfo decidiu ganhar o interior do verde estado de Rondônia, tendo fixado paradeiro rápido, em 1978, no município de Ji-Paraná, na época conhecido por Vila Rondônia, que fica no centro do estado, em seguida desceu o mapa brasileiro para Cacoal, onde advogou e tomou cota de uma espécie de filial do escritório do colega e advogado Agamenon, que ficava em Porto Velho.

 

Nesse ínterim, ocorreu um fato bastante curioso e decisivo para acalmar o espírito nômade do arguto jurista, em suas empreitadas como advogado, Filadelfo conta com entusiasmo uma delas em especial, começando a narrativa desse episódio dizendo que a região sul do estado abrigava na época algumas fazendas de gado e um pecuarista havia sofrido um grande desfalque provocado por furtos que vinham assolando o cone sul e, por conta disso, contrataram-no como patrono a fim de desmistificar e encontrar uma solução para o infortúnio.

 

Assim, Filadelfo foi para Vilhena, cidade com clima agradável em meio a uma região tão cálida, a fim de auxiliar o fazendeiro em sua empreitada para encontrar cerca de quinhentas cabeças de gado que haviam desaparecido de suas terras. Nesse desafio, o astuto advogado conseguiu desbaratar a quadrilha e descobrir onde estavam as reses perdidas, cavalgando heroicamente com o proprietário e alguns de seus funcionários por mais de um dia até chegar ao local onde estava a boiada e resgatá-la até as terras de seu dono.

 

Depois de conhecer Vilhena, ainda chegou a viver alguns meses em Colorado do Oeste, sendo que tais cidades se separam por cerca de setenta quilômetros e guardam uma ligação de reciprocidade até hoje, mas Filadelfo se encantou mesmo foi com Vilhena, onde fixou domicilio e deixou de lado o desejo de percorrer em busca novos horizontes, sendo que, segundo ele mesmo, na cidade de clima agradável e hospitaleiro, ele acredita ter encontrado o que tanto procurou durante toda sua existência.

 

Filadelfo Zacharias de Souza reside há mais de sete anos em um asilo denominado “Lar dos Idosos”, mantido por uma das lojas maçônicas instaladas no município, sendo que, juntamente com mais 14 veteranos da vida, onze homens e quatro mulheres, companheiros de caminhada com idade entre 65 e 91 anos, os anciãos compartilham a terceira idade ou melhor idade de suas existências com alegria e otimismo.

 

Atuante na advocacia, afirma com veemência que apesar de atuar na área cível, principalmente no direito de família, promove defesas no tribunal do júri vilhenense quando lhe é requisitado e que o maior prazer em sua vida é o exercício de sua profissão, companheira fiel de trajetória, na qual pretende trabalhar até os seus últimos dias.

 

Das maiores dificuldades encontradas ao longo de sua carreira, Filadelfo acredita que uma delas chegou atrelada às novas tecnologias, representada especificamente pela informática, ciência que não lhe apraz. Acostumado às máquinas de datilografia, o uso do computador lhe é penoso e algo que o jurista não faz a mínima questão de experimentar, no entanto, para redigir suas peças processuais e esquematizar suas defesas, costuma ditar em voz alta para sua escrivã, que atenta, capta os ideais proferidos engenhosamente por ele.

 

Apreciador da vida, dos sabores e da boa música, principalmente os sambas românticos do carioca Martinho da Vila, o senhorzinho forte e enérgico conta alegremente que o que adora mesmo é embalar fandangos pelo salão nas matinês de domingo com amigos de diversão, além de apreciar, com bom brasileiro que é, os jogos de futebol transmitidos pela televisão.

 

Filadelfo Zacarias de Souza é um exemplo de coragem, luta, perseverança e amor pela vida. O brilho nos seus olhos é permanente e a energia transmitida é de esplendor e tenacidade e, ao ser questionado sobre a trajetória de sua passagem pela vida terrena, mesmo depois de mais de oito décadas plenamente vividas, a resposta veio ligeira e sem titubear: _ “apesar de tudo, a vida é gratificante”.

 

A sabedoria desse veterano da advocacia vai além, trazida pelos anos bem vividos, pela experiência recebida com as inúmeras descobertas, aventuras, sofrimento e dificuldades, aos 81 anos de vida nada monótona, o sonho do pequeno grande homem é “erradicar a ignorância em todos os aspectos”.

 

Doutor Zacarias, um exemplo de força e coragem, dinamismo e luta, paradigma para muitos que com as escusas de uma vida difícil deixam seus sonhos ao léu e passam pela vida sem fazer a diferença que ele fez e faz dentre tantos brasileiros.

 

* Advogada militante, empresária, jornalista, pós-graduada em Direito do Estado com ênfase em Direito Constitucional, mestranda em Direito Internacional, doutoranda em Ciências Jurídicas, natural de Vilhena, RO,

 

[1] DIACON, Todd A. Rondon: O marechal da floresta. São Paulo, Companhia das Letras, 2006, p. 10.