LISITA PASSOS, Cristiane

 O MODO DE SER CAMPONÊS

 E A PROPRIEDADE DA TERRA

 ENTRE CAMPONESES
 

 Curitiba, Juruá, 2008, 278 p

 

A professora Cristiane Lisita Passos tem o privilegio de reunir as três belezas. A do espírito, a do intelecto... E a do corpo. A última a levou a vencer em importantes concursos. A do intelecto nota-se em suas aulas magníficas, que encantam os alunos, e na construção das suas obras. A outra, a da alma, que sem dúvidas eu acredito ser a mais importante, além de fazer-se evidente em suas belíssimas e profundas poesias (ela tem vários livros de poemas), traz o carimbo da sua integridade notável, de seu compromisso com os valores e as boas idéias, da sua lealdade ferrenha. São essas qualidades importantes em uma pessoa dedicada às ciências (no caso, às disciplinas humanas e sociais)? Eu acho que sim, em maneira fundamental, desde que a ciência, como tal, é axiologicamente neutra: é o cientista quem a pode transformar em maravilha ou pesadelo...

 

            O livro da professora Cristiane que hoje tenho o prazer de comentar, é o resultado da sua tese de Doutorado em Direito e Ciências Sociais. Sabe-se que há teses e teses. Mas esta é boa. Excelente. Deus, na sua sublime sabedoria, decreta que muitas teses doutorais jamais vejam a luz da imprensa, e passem os séculos dormindo em obscuros estantes bibliotecários, até que, piedosa, lhes chegue a hora do olvido. Amiúde são os próprios doutores os que, conhecedores como ninguém do magro das suas lavras, fazem questão de que fiquem na tranqüilidade que fornece a ignorância.

 

            Mas, ao invés, quando uma tese merece ser publicada, é coisa formosa ver como ela plasma na maravilha do livro. Para o autor, é uma verdadeira epifania das letras, um amanhecer. Para o público, uma oportunidade nova, uma jóia que nasce feliz e generosa. Eis o caso deste trabalho da professora Cristiane, que está impresso porque assim devia estar. E vai ser conhecido, lido e difundido, porque assim merece ser.

 

            Desde minhas humildes aulas, ao longo de décadas já, eu venho insistindo na importância de abrirem-se os pesquisadores jurídicos às “outras” fontes. Ao cinema, à televisão, à música, à literatura. Às artes em geral. Não ficar fechado, cego por vontade própria, no reino seco das leis, das normas, da jurisprudência dos tribunais, da doutrina estreita. Por isso, quando eu vejo que uma mente aguda como a da professora Cristiane constrói sua tese desde a literatura e as letras musicais, indo para o direito com as amalgamas da antropologia e da filosofia, só posso parabenizar-lha.

 

            A delimitação cronológica, entre as décadas de 30 e 60 da passada centúria, além de outorgar ao trabalho uma ótica histórica de alta valia, em nada fere sua atualidade. De fato, a obra resulta de grande proveito para compreender melhor fenômenos hodiernos como o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra.

 

            Com espírito lutador e justiceiro, comprometido até o fundo com os direitos essenciais, sem conhecer o que é a covardia, a doutora Passos tece a epopéia da exclusão agrária brasileira. Essa tragédia, porém, desgraçadamente, não é exclusiva desse país. É a triste ladainha que, em português, em espanhol, em kechwa, em guarani, em mil línguas, repete-se da uma à outra ponta da nossa eterna América Latina. É a canção apenada que traçam as lagrimas dos despossuídos, dos injuriados pelo poder. Dos que não entendem, nem querem entender, que o tempo é dinheiro e o dinheiro é tudo.

 

            Desde a antropologia, compreendendo ao camponês (que para alguns autores, como salienta a professora Cristiane, nem sequer existe), colocando-o na sua posição complementar, necessária, com o citadino, esta tese revisa as idéias sobre a propriedade da terra. A originalidade do trabalho é total. A instigação para pensar que ele produz, também.

 

            Duas coisas eu vou confessar, finalmente. Primeira, que eu tenho várias discordâncias com as noções e conclusões que surgem deste magnífico texto. Mas o maravilhoso não é concordar (estou cansado até o tédio da concordância e da mania da concordância). O maravilhoso, eu acho, é co-existir. E não há nada como coexistir na diferencia. Por isso, por exemplo, quando a professora Passos fala da sua visão da propriedade medieval da terra, eu desço do carro, com todo respeito. Mas ela não teve a infelicidade de ter sido minha aluna de História do Direito.

 

            Segunda, que eu não gosto muito do tema, e pensei que ler este livro ia constituir-me uma tortura inesgotável, imposta pelo dever imperioso da amizade. E não. Resultou algo completamente inesperado. Gostei mesmo. Eu fiquei hipnotizado por suas amenas páginas. Por isso resolvi comentar-lho, embora a autora nada disso soubesse, e seguramente deve ter-se assombrado muito ao ver tratada sua ótima obra nestas páginas... R.R.-B.