BEZERRA DE MENEZES:
O ESPÍRITA, O MÉDICO DOS POBRES

 

 

ALOISIO PEREIRA NETO*

 

1. Introdução

 

O presente trabalho tem por objetivo pesquisar um pouco da origem de Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti, também conhecido como o Allan Kardec Brasileiro ou, ainda, o Médico dos Pobres.

 

Alguns motivos nos levaram a estudar a história desse médico e parlamentar cearense, pois apesar dele ter nascido em nosso Estado, haver diversas obras escritas sobre ele e ter seu nome tão bem pronunciado em diversas músicas relacionadas à Doutrina Espírita, poucos sabem de sua origem e seu passado político.

 

Contudo, o principal motivo que nos levou a escrever sobre esse digno cidadão foi seu envolvimento com a Doutrina Espírita, a sua coerência com os princípios de justiça, honestidade e igualdade entre as pessoas, os quais poderão ser facilmente percebidos durante seus discursos feitos no parlamento brasileiro, ora transcritos.

 

No primeiro capítulo o trabalho discorre sobre origem de Bezerra de Menezes, o local de seu nascimento, a conjuntura política e social da época, bem como sua família.

 

No capítulo posterior é tratado o desenvolvimento escolar e profissional do Médico dos Pobres, como ele também era conhecido, desde sua saída do Ceará, a fim de cursar medicina, até o início de seu mandato como parlamentar.

 

Em seguida serão colacionados alguns depoimentos de Bezerra durante seu mandato como Deputado, especialmente àqueles que mostram sua preocupação com os mais humildes, sua coerência com os princípios de justiça e, principalmente, seu não envolvimento com as mazelas que afligem a política brasileira desde aqueles tempos.

 

O capítulo seguinte trata do envolvimento do Médico dos Pobres, também conhecido como Allan Kardec Brasileiro, com a Doutrina Espírita, pois originado numa família eminentemente católica, Bezerra foi, aos poucos, estudando a Doutrina e conseguindo aplicá-la no seu dia-a-dia. Certamente, esse estudo e sua dedicação aos ensinamentos kardecistas o levaram a ter esse destaque internacional perpetuado até os dias de hoje.

 

Durante todo o trabalho serão colacionadas diversas fotos da época, sendo estas todas relacionadas a Bezerra de Menezes. Pessoas, objetos e locais retratam como era a vida de Bezerra e de seus familiares e nos aproximam, ainda que saudosamente, desse missionário cearense.

 

 

2. Origem e Família

 

Foto 1 – Bezerra de Menezes

 

Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti, o Médico dos Pobres, era filho de Antônio Bezerra de Menezes, capitão das antigas milícias, tenente coronel da Guarda Nacional e chefe do Partido Liberal de Riacho do Sangue, e Fabiana Cavalcanti de Albuquerque. O conhecido Allan Kardec Brasileiro reencarnou no dia 29 de agosto do ano de 1831.

 

A família Bezerra é proveniente da Galícia e antes de ir ao Brasil passou por Portugal. Conforme pesquisa publicada, em 1994, na Revista Instituto do Ceará. Os primeiros a chegar ao Brasil tocaram seu solo no início do século XVI.

 

Bezerra teve como local exato de seu nascimento a Fazenda Santa Bárbara, no atual município de Jaguaretama, no Estado do Ceará, nordeste brasileiro. A época de seu nascimento, o município não tinha esse nome e chamava-se Riacho do Sangue, pois ocorreram diversas batalhas entre índios que serviam a duas famílias da época (Montes e Feitosa). Por conseqüência desses confrontos, as águas de seu leito ficavam com a cor avermelhada, de tanto sangue. Daí o nome anterior.

 

O município de Jaguaretama está sediado aproximadamente a duzentos e quarenta quilômetros de Fortaleza, Capital do Estado do Ceará, conforme mapa a seguir:

Foto 2 – Localização de Jaguaretama no Nordeste Brasileiro

Imagem:Ceara Municip Jaguaretama.svg

 

Jaguaretama é uma palavra de origem indígena e significa terra das onças. Do tupi “yaguar” é onça; e a outra parte do nome, “retama” que é a terra natal, a pátria. Pode se chegar a esta cidade de cerca de dezenove mil habitantes seguindo o caminho indicado abaixo. O Rio Jaguaribe, maior do Estado do Ceará, banha esta cidade e suas margens são utilizadas para a agricultura.

 

Foto 3 – Caminho de Fortaleza ao Pólo de Bezerra - Jaguaretama

 

                                                                  

Na época em que Bezerra nasceu havia uma forte emigração da população do sertão cearense para a Capital do Estado do Ceará e até para outros Estados brasileiros devido à seca que assolava o nordeste do país. As pessoas procuravam “fugir” da escassez de água e buscavam uma vida melhor nas cidades maiores. Tal movimento ainda é encontrado nos dias atuais por total inoperância dos governantes brasileiros e pela falta de políticas públicas que atendam realmente a necessidade da população interiorana do país, principalmente a nordestina.

 

 

 

3. O Desenvolvimento Profissional de Bezerra

 

Adolfo estudou, no Estado do Ceará, no Colégio mais tradicional da época, chamado Liceu do Ceará.

 

Foto 4 – Fachada do Colégio Liceu na época

 

No início do ano de 1851, Bezerra foi para a cidade do Rio de Janeiro em busca de realizar um sonho pessoal: estudar medicina.

 

Adolfo não mais voltou ao Estado natal, concluiu o curso de medicina em 1856 e, na década sessenta, ingressou na vida política onde obteve reconhecimento por sua integridade moral, honestidade e senso de justiça.

 

Um dos temas que mais preocupava Bezerra de Menezes era a seca que assolava o sertão nordestino, donde ele se originara. Em 1877 houve um período de intensa estiagem, a famosa Seca dos Dois Sete.

 

3.1. Bezerra de Menezes na Política

 

O parlamentar que, apesar de distante fisicamente, foi capaz de escrever um livro chamado Breves Considerações Sobre a Seca do Norte, documentando sua preocupação com os sedentos nordestinos. Nesse pequeno livro de quarenta e quatro páginas Bezerra não somente descreveu a angustia sofrida pelas famílias nordestinas diante da escassez de água, mas tratava, também, acerca de algumas possíveis soluções para esse problema.

 

Na verdade, Bezerra de Menezes ingressou na política objetivando defender os mais humildes e buscando uma melhoria de vida à coletividade. À época tinha vinte e nove anos e, em pouco tempo, com apenas trinta e seis anos, já se tornava deputado geral.

 

Em 4 de junho de 1867 discursou demonstrando seus valores como ser humano e, agora, como político:

 

(...) Largando a vela nos mares sempre revoltos e agitados da política, eu tomei por meu santelmo um princípio com o qual pode-se muitas vezes arriscar os cômodos, o bem-estar e futuras posições, mas nunca a honra.

A política como eu compreendo, não é uma especulação dos homens, é uma religião, a religião da pátria, tão sagrada e obrigatória como o culto das verdades eternas que constitui a religião de Deus. Sessão 4/6/1867, p. 37

 

Bezerra parecia um político a frente de seu tempo, com discursos libertários e preocupados, inclusive, com a preservação do meio ambiente. Isso em 1867 já era assunto discutido por ele e, atualmente, faz parte de todos os noticiários mundiais, vejamos:

 

A liberdade (...) é um direito, direito absoluto e eterno de criação divina; a autoridade é um fato, ou se quiserem, um direito, porém fato ou direito transitórios, passageiros e contingentes, de criação humana.

Uma coisa não pode confundir-se com a outra, porque o fato não se confunde com o direito, nem se confundem as obras de Deus com a dos homens. Sessão 4/6/1867, p. 37

 

Parece que as palavras utilizadas por Bezerra de Menezes nesse discurso estão bem a frente de seu tempo. Afinal, num país onde a escravidão era regra, discutir liberdade individual, era exceção.

 

É claro que a poluição existente na época não chega a ser comparada a dos dias atuais, contudo, Adolfo, em discurso no dia 23 de abril de 1879 afirmou:

 

(...) o fumo tal qual vem ao mercado, não é o que vai servir ao preparo do cigarro e do charuto, emprega-se uma preparação, na qual, entra principalmente um chamado pixuá, que, além de ser insuportável em uma zona imensa, é princípio alterante da constituição da atmosfera, e, por conseguinte, se não é diretamente nocivo, indiretamente vai produzir males....

(...) Se a natureza exige na composição d ar atmosférico uma certa proporção nos seus elementos, desde que essa proporção desaparece, o ar atmosférico torna-se necessariamente nocivo. (...) Sessão 23/4/1879, p. 159.

 

Outra prova da preocupação do Médico dos Pobres com a natureza pode ser vista no Projeto nº 39/1883 que tratava sobre a obrigação do governo em organizar um serviço florestal nas montanhas que circundavam a capital do império, conservando as matas da época, replantando as destruídas, livrando os pequenos leitos de água e penalizando quem derrubasse árvores em zonas delimitadas.

Bezerra, apesar de pensar em toda a coletividade, nunca esqueceu da família e da religião em seus discursos, como depreendemos das palavras abaixo:

 

Sou católico porque nasci, casei-me e peço graça de morrer no seio da igreja católica, e porque creio em tudo o que ela crer e manda crer.

(...) Pergunto aos nobres deputados: como haver família constituída em base segura, se não pela religião?

(...) Se a religião não houvesse, a sociedade seria obrigada a criá-la, quando mais não fosse, para manter a família nas condições de ordem e de garantias para a própria sociedade.

(...) Se antes da cruz, (...) nos tempos mesmo pré históricos , já se tinha estabelecido, era a opinião dos  sábios, que sem religião não é possível sociedade, depois da cruz nenhum espírito cultivado pensará diversamente. Sessão 1/10/1879, págs. 136, 170 e 171.

 

Observe-se que Bezerra de Menezes, apesar de nessa época ainda ser adepto à religião católica, não fazia nenhuma imposição da religião escolhida por ele e sua família. Em seus discursos afirmava que os homens, mulheres e, conseqüentemente, as famílias tinham que ter alguma religião, alguma crença, sem, contudo, querer determinar qual a mais indicada, eficaz ou coisa do tipo. Ele sempre falava em religião.

 

Talvez seguindo os passos de seu pai, Bezerra de Menezes era um homem muito apegado à sua família, como se pode perceber pela foto seguinte no qual ele cuidava sozinho de seus filhos pequenos depois de ficar viúvo.

 

 

 

Foto 5 – Bezerra com seus 2 filhos

 

 

Outro posicionamento interessante foi sua preocupação com os médicos, sua entidade de classe, e com os consumidores. Ele também foi responsável pela regulamentação do trabalho doméstico no Brasil, pois tratou de sua conceituação, forma de contratação, da justiça do trabalho e do processo trabalhista, além de tratar, também da conciliação nas lides laborais.

 

Vale ressaltar que, naquela época, o movimento abolicionista ganhava mais adeptos e regulamentar o trabalho doméstico, especialmente atribuindo obrigações aos patrões era, no mínimo, muito polêmico. O projeto 74/1883 dispunha:

 

Obrigações do Empregador

Art. 17. Ajustados amo e criado sobre aquelas bases gerais, assume o primeiro as seguintes obrigações:

1ª. Tratar o criado e fazê-lo tratar pelas pessoas de sua família com bondade e caridade, não o castigando fisicamente, respeitando-o em sua honra e fazendo-o tratar com todo cuidado em suas moléstias.

2ª. Dar-lhe cômodo saudável para sua habitação e sã alimentação para seu sustento.

3ª. Pagar-lhe, segundo o ajustado, seu aluguel, de que poderá descontar-lhe os prejuízos que lhe haja causado, em preterição do direito que lhe fica de reclamar contra a injustiça ou exagero do desconto.

4ª. Passar-lhe, no ato de ele se destituir do serviço, um atestado consciencioso, designando suas boas ou más qualidades morais e profissionais.

 

Porém, apesar dessas belas palavras e da preocupação real do Médico dos Pobres com os mais humildes, ele resolveu abandonar a política em 1885. Não se sabe, ao certo, os motivos dessa decisão, contudo, depois de sofrer com injustiças e posicionamentos desonestos por parte de outros políticos provavelmente o que lhe levou a decidir sobre isso foi a decepção com aquele cenário.

 

 

 

4. O Envolvimento com o Espiritismo e o Pólo Atual

 

Em 15 de outubro de 1892, o principal órgão de divulgação da Doutrina Espírita Brasileira, O Reformador, trouxe o depoimento de Bezerra de Menezes se convertendo ao espiritismo.

 

Bezerra ficou viúvo com apenas quatro anos de casado. Sua mulher, em apenas vinte horas de doença o deixou com dois filhos pequenos, sendo um de três anos e outro apenas com um ano de vida.

 

Geralmente é pela dor que as pessoas se aproximam da Doutrina Espírita e com Bezerra parece que não foi diferente. E sofrendo dessa forma, ele foi presenteado com um livro de Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, devidamente traduzido.

 

Além da dor pela perda da mulher, Adolfo também sofreu de dispepsia e não encontrou cura nos meios da medicina convencional. Daí recorreu aos médicos que atendiam utilizando a mediunidade. Desde essa época, Bezerra começou a propagar o espiritismo.

 

Em 9 de março de 1997 foi inaugurado um museu em sua homenagem sobre os alicerces da casa onde nasceu, mais precisamente na Fazenda Santa Bárbara. No dia 4 de dezembro de 1977 foi inaugurado, também, um Hospital Maternidade com seu nome.

 

Fotos 6 e 7 – Sede Do Pólo na época da inauguração

 

Atualmente o Pólo possui um prédio com auditório de trezentos lugares onde há evangelização infantil, atendimentos diversos e estudos mediúnicos.

 

O Lar Fabiano de Cristo, a FEEC, o Grupo Espírita Paulo e Estevão e muitos espíritas Cearenses transformaram o Pólo num oásis. Mantém, atualmente um trabalho de assistência e promoção social que engloba toda a família.

 

 Diante da imagem seca na época da inauguração, plantou-se o Nin Indiano, árvore sagrada da Índia, transformando o Pólo num verdadeiro cenário Europeu. Pássaros que antes não existiam ali passaram a habitar como um viveiro livre, onde diversas espécies ali se abrigam e reproduzem.

 

Fotos 8 e 9 – Antes e depois do Pólo

 

 

São cerca de 800 árvores de Nim plantadas no Pólo. O Pólo distribuiu gratuitamente para as cidades vizinhas cerca de 3000 mudas.

 

Foto 10 – O Pólo na Atualidade

 

Hoje há, ainda, o Projeto Feijão Verde, a Fábrica de Redes de Dormir que objetiva não só a fabricação de redes de dormir, mas de outros produtos artesanais muito procurados. A fábrica é gerenciada pelos próprios assentados e beneficia cerca de 50 pessoas que tiram uma pequena renda para complementar as despesas de casa.

 

Foto 11 – Fábrica de Redes

 

A Escola Fabiano de Cristo também deve ser citada, bem como o Projeto de Informática na Escola, pois conforme informações obtidas junto ao Centro Espírita Paulo e Estevão, o corpo docente é composto por 1 (uma) coordenadora pedagógica e 9 (nove) professores, sendo 8 (oito) formados em pedagogia. Conta também com 4 (quatro) auxiliares de serviço e muitos voluntários.

 

 

 

5. Conclusão

 

Num trabalho dessa natureza, de trato sobre a história de uma pessoa, é difícil concluir-se algo. Podemos fazer um resumo de pequenos trechos da vida da pessoa, a fim de termos algumas noções sobre o modo de vida desse cidadão, suas principais características e virtudes.

 

Por fim, Bezerra de Menezes foi uma pessoal normal. Teve seus desatinos, suas angústias, seus sofrimentos e, a partir deles, iniciou no espiritismo. Talvez o já tivesse iniciado antes, mesmo sem saber, devido ao conteúdo de seus discursos no parlamento brasileiro.

 

Afinal, onde impera a corrupção, a mentira, o jogo sujo, a desordem, Bezerra permaneceu intacto. Foi político, justo, honesto. Preocupou-se com os mais humildes, com os trabalhadores mais fracos, com os menos favorecidos. Lutou, sob o manto da paz, por um mundo mais justo, solidário, fiel aos princípios de igualdade e respeito ao próximo.

 

Foi um bom médico onde ajudou diversas pessoas e nunca esqueceu de cuidar de seus filhos, apesar de tantos outros compromissos. Encarnou católico e foi-se espírita. Evoluiu, certamente, mas sempre foi um cidadão em busca da justiça.

 

 

6. Bibliografia

 

ACQUARONE, Francisco. Bezerra de Menezes o Médico dos Pobres. Ed. Aliança, São Paulo, SP, 1996.

 

KLEIN Filho, Luciano. Bezerra de Menezes: Fatos e Documentos. Ed. Lachâtre, Fortaleza, CE, 2001

 

MARTINS, Jorge Damas (coordenador). Jesus não é Deus (Série de vinte artigos de Max publicados no jornal do Brasil em 1895). Ed. Associação Espírita Francisco de Assis, Rio de Janeiro, RJ, 1995.

 

 

7. Anexo

 

Hino a Bezerra de Menezes

Grupo AME

 

Oh vinde bom amigo amado e benfeitor
Das luzes do infinito de cintilações
Oh! vinde amenizar a nossa grande dor
Espargindo em mão cheias as consolações

Bezerra de Menezes servo do Senhor
Apóstolo do bem a nos iluminar
Celeste mentor, em passes de amor
Águas fluidificai

Movimentai vossas falanges protetoras
Dai-nos as bênçãos redentoras
Balsamizando os corações
O sofrer é um bem divinal
Que o Senhor nos envia do astral
É o cadinho imortal da perfeição
A nos redimir das nossas vidas mal vividas
Ante o Evangelho todo luz
És apoteose do amor
Redime a nossa dor com Jesus

 

* Destacado jurista especialista em Direito Ambiental (Recife, Brasília, Goiânia)