Professor Ricardo,
 

Acabo de ler o editorial de Persona nº 76 e confesso não haver contido as lágrimas. Suas palavras tocaram fundo a minha revolta diante das insanidades que vislumbramos passar sem movermo-nos.

Como pudemos chegar ao século XXI, que na minha infância havia imaginado como o tempo dos robôs, dos veículos voadores, havia mesmo uma música de uma cantora brasileira chamada Rita Lee (uma incrível rebelde que comanda o rock feminino) que instigava minha imaginação e dizia: "miss Brasil, 2000!", então, como pudemos chegar até aqui sentindo o mesmo cheiro de sangue dos irmãos que lutam em guerras hipócritas, camufladas por motivações nobres e transcendentais, ainda convivendo com a miséria nas calçadas, nos morros, nas favelas; assistindo a morte em hospitais públicos decadentes, a fome em pequenas casinhas ou barracos, assombrando os olhares de crianças puras.

E os meus robôs? Os adoráveis robôs que eu sonhei na infância? Ah, eles existem. Não existem? Existem sim, sou eu mesma, é você, somos nós. Que robotizados, passamos adiante do irmão que estende a mão suja e velha, na calçada suja e fria. Somos nós quando trocamos o canal da TV para não assistir o noticiário a denunciar os horrores do cotidiano, a violência, a corrupção. Somos eu e você, quando nos esquivamos de cumprir o nosso dever como homens, de lutar pela humanidade, seja ela, branca, negra ou amarela, seja ela oriental, ocidental, nortista ou sulista. Somos nós, os robôs, quando capacitados, dotados de saber, não os repassamos, não conscientizamos o outro.

Até onde chegaremos? Passam anos, passam governos, passam os papas (até eles) e a revolução da igualdade não aparece. Por que será? Depois de ser proclamada por tantos como a solução, filósofos clássicos, doutrinadores modernos, cada um a seu modo, sempre citaram a igualdade entre os homens como fórmula viável para a conquista da justiça. E Jesus? Que poderíamos falar dos seus ensinamentos? Compilados em textos por seus seguidores, sagrados para a maioria dos humanos, tanto que à sua proximidade muitos se ajoelham. Por que será que não alcançam os corações a ponto de modificar-lhes as atitudes?

É Natal, tempo de paz, e agora há pouco ouvi (sem querer ouvir) uma grave discussão familiar na casa vizinha. A verdade é que somos todos muito hipócritas. Somos capazes de elogiar, de presentear, de atitudes doces, mas só o fazemos quando nos convém. Somos egoístas. Profundamente egoístas. O egoísmo é que nos corrompe. Venda nossos olhos para a dor alheia, mas os faz crescer com a própria dor. Ata nossas mãos para os gestos solidários, mas as faz estender-se para pedir alento ao outro. Cala nossa boca para a hora da denúncia em favor do irmão e a faz gritar se a denúncia for por nosso próprio direito. Cerra nossos ouvidos para escutar o pedido de ajuda, porém nos permite a glória maculada do aplauso.

Estanco aqui as palavras porque o momento prima por reflexão e porque (paremos com a hipocrisia) não tenho resposta para nada.

Amanda Guilherme
amandaguilherme@gmail.com