Constru-são

Ana Beatriz Crespo Fernandes Lopes*

 
Sirva-me de lição

Essa virulência

A incongruência de sentido

Das massas frias de cimento

Que abrigam humanos

A mistura confusa das ideias

Que conspira contra o eu

E que se aperta

Prepotentemente idiota

Entre os tijolos e as coisas

 

Estes pensamentos hostis

Enfadonhos, poderosos

Que se apossaram das rédeas,

do leme,

do “mouse”,

do curso histórico,

do que restou do homem

Os valores atrelados

ao comportamento coisificado,

na cegueira da entrega à imagem

plasmada

 

A uva murchou ao estado de passa,

com gosto insípido e aparência amorfa,

deteriorada

 

Nas ruas, nuvens caudalosas de fumaça

e símbolos elegantemente agressivos,

perturbadores, amnésicos

Que te compram os olhos,

os gestos,

o desejo

 

Sinto a solidão espraiando o pensamento

A saudade tola do tempo sem lantejoulas

Da rede rangendo

Dos cabelos desalinhados

Da pele de viço virgem

Renegando o estupro da realidade.

* Ana Crespo Fernandes Lopes,
é uma brilhante jurista carioca,
que também se dedica à literatura,
às artes plásticas e ao cinema.
Ele cursa atualmente para o Doutorado
na Universidade de Buenos Aires.
Este poema integra seu livro
PúrPURA POESIA (Rio, Achiamé, 2010)