Uma dramática denúncia ética sobre o episódio de Canudos.

    Lourival Gonçalves de Oliveira*

        

Resumo:

A história do episódio de Canudos tem sido escrita com base no sentimento de testemunhas, de mitos que rondavam os primórdios republicanos ou que criados pela literatura, e no drama das modificações sociais e políticas que vinham sendo impostas pelas elites urbanas à sociedade brasileira. A perspectiva de visão prevalente tem esteio na grande obra Os Sertões de Euclides da Cunha. No entanto, outras muitas foram dadas a público. Entre estas está Descrição de Uma Viagem a Canudos escrita a partir do testemunho de Alvim Martins Horcades, acadêmico da Faculdade de Medicina de Salvador. Ambas as obras têm visões diferentes e culminam com a diversa descrição do fim da guerra e a denúncia de Horcades sobre o trágico destino dos 800 jagunços vencidos, rendidos e feitos prisioneiros.

  

1 - Introdução.

              Poucos são os moradores das maiores cidades brasileiras que, acostumados a ver as favelas da periferia, procuraram saber a partir de que lugar disseminou entre nós o uso do vocábulo identificador daqueles aglomerados pobres, muitas vezes desesperançados e quase sempre marginalizados. Desconhecem que oriundo de Canudos onde o arruado sinuoso, por entre 5200 casas de estacas de pau e barro, hospedava a pobreza e a ausência de perspectiva futura para o homem do opressivo sertão nordestino. Grande parte de sua população era formada por negros, escravos recém libertos e abandonados à própria sorte, vagando por caminhos e dormindo ao léu. Aquela favela expressava uma desesperada tentativa de auto-organização popular pela sobrevivência e fazia-se em torno do único elemento catalisador da época, a religião. Esta fora, logo a seguir, igualmente liberta das tirânicas amarras políticas e econômicas do velho padroado e já não mais consagraria o estado laicizado.

          Como ocorreu com aquela palavra, veio até nós a história do respectivo fenômeno sociológico profundamente correlacionado à conduta da oligarquia sertaneja. Esta permanecia repleta de fortes traços do nobre cavaleiro do medievo, então, ainda a serviço do melancólico ocaso monarquista do século XIX, esse capaz de nos legar dúvida perene quanto a sermos uma república com rei ou uma monarquia com presidente.  A história do complexo episódio de Canudos tem sido escrita com base em sentimentos fortes de testemunhas presentes, em mitos que rondaram os primórdios republicanos ou que criados pela literatura, e no drama das modificações sociais e políticas que vinham sendo impostas pelas elites urbanas à sociedade brasileira.

          A falta de acesso, em regiões remotas e localidades quase isoladas, como as pequenas vilas do sertão nordestino, às informações que permitissem uma melhor condução e entendimento do processo político em curso, e de seu contorno ideológico e econômico, tornavam-nas baluartes favoráveis a alguma resistência. Assim ocorreu com o arraial de Monte Belo, que cresceu com a vinda constante de sucessivas levas de sertanejos sem rumo, endurecidos na caminhada da vida, e que se organizaram precariamente como muitas das mais primitivas comunidades rurais daquela época e lugar. Seus habitantes mantiveram-se firmes na fé de um catolicismo popular, flagrantemente oposto ao catolicismo romanizado, erudito e sofisticado dos centros de cultura, nela conduzidos por um líder não tão inculto quanto por vezes se pensa e dedicado a capitanear a luta que os fizesse supérstites naquele ambiente não pouco hostil.

          O restrito arcabouço cultural dos seguidores de Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, não pode ser utilizado como uma sombra ao seu particular conhecimento e atualização, principalmente em matéria religiosa, como se pode observar dos dois códices em que agrupada a maior parte de seus manuscritos e dos demais documentos avulsos. Além do conteúdo, também a fina grafia depõe a favor de uma instrução não tão comum. Os sermões por ele escritos nada devem “à ortodoxia eclesiástica. Acrescente-se que ali se ouve a voz de um sertanejo letrado” [1].

         As intenções e os objetivos daquele povo não eram bem expostos, talvez nem eles mesmos os tivessem sequer um pouco alinhados com aquilo que além de singela auto-organização com olhos na própria sobrevivência, mas incomodaram muito rapidamente a sociedade baiana e depois impressionaram os fortes grupos políticos e intelectuais de São Paulo e Rio de Janeiro.

          Logo, a vida dura de Canudos tornou-se uma obsessiva preocupação, um exemplo tido por deplorável de monarquismo há pouco vencido, motor de uma reação sem propósitos de parte de políticos republicanos e de militares positivistas em busca de afirmação. O confronto deu-se entre canhões e armas leves, senão artesanais. As ações militares fizeram-se entre de uma força republicana organizada, em que pese circunstancialmente frágil, sem efetivo minimamente apto para o mister castrense, mas de lastro em coeso substrato nacional, e andarilhos ignorantes, subnutridos, acantonados em casebres, sujeitos a um contraste entre sonhos e decepções. Essa relação tornou-se o elemento significativo da iníqua e violenta luta fratricida, propulsora da república insegura.   

         A perspectiva de visão mais difundida do episódio épico de Canudos tem esteio na grande obra Os Sertões de Euclides da Cunha [2]. Publicada pela primeira vez em 1902, hoje com mais de cem anos, teve lavra a partir das notas elaboradas como sendo um  testemunho candente dos fatos e de sua ambientação, segundo o entender daquele engenheiro e jornalista de formação militar, enviado ao sítio dos combates pelo então maior jornal brasileiro, O Estado de São Paulo. Nisso, trazia consigo a marca da vinculação à república, ao positivismo e à elite econômica e cultural paulistana já anteriormente deixada transparecer em conhecido episódio ocorrido com o autor na Escola Militar. Não foi apenas o testemunho vivo, direto, ainda que muito restrito no tempo, e a brilhante pena do grande autor que lhe deram a conotação de essencial fonte de referência acerca do episódio, mas também essas relações relevantes.

         Outras muitas obras foram escritas sobre o mesmo tema. Se não alcançaram a idêntica ou semelhante projeção não foi apenas porque destituídas da expressão literária de Os Sertões, mas, porque, além disso, despossuídas do apoio da imprensa prevalente, senão mesmo por tornadas carecedoras dos afagos mais diretos e interesseiros da elite.

         Uma testemunha também viva e direta dos dramáticos fatos havidos nos últimos três meses de combates em Canudos foi o então estudante de medicina da Faculdade de Medicina de Salvador, “ex-auxiliar médico dos hospitais de sangue e ex-diretor do hospital de variolosos de Canudos na 4ª expedição militar” (página de rosto), Alvim Martins Horcades, então com 19 anos, que deixou o legado de suas visões e de suas impressões em Descrição de Uma Viagem a Canudos [3], obra consagrada “à pátria republicana e à mocidade brasileira” (Dedicatórias), tão calorosa quanto documentalmente valiosa, com o texto da primeira edição exposto hoje no Museu daquela faculdade. Nela apresenta a clara e incisiva denúncia da hedionda, desumana e ilegal degola de irmãos sertanejos, prisioneiros rendidos e já dominados pelas forças federais.

  

         2 - A obra: Descrição de Uma Viagem a Canudos.

         Escrita a partir do testemunho de seu autor, Descrição de uma Viagem a Canudos, antes de ser editada como livro, foi levada a público sob a forma de notas no Jornal de Notícias de Salvador. Em prefácio escrito por Lellis Piedade, ex-secretário do Comitê Patriótico da Bahia, ficou consignada a referência valiosa e significativa de que “o livro que estas linhas precedem contém páginas dolorosas; saibam-nas ler os espíritos desapaixonados” (Prefácio – IV).

         Essas “páginas dolorosas” constituem-se a questão basilar. Dizem respeito tanto ao objeto da obra quanto aos fatos motivadores de sua divulgação em forma de livro. O próprio autor esclarece tratar-se não apenas de um relato, mas de uma denúncia feita “ao desinteressadamente ter arriscado a dizer verdades tão duras quanto necessárias” (Proêmio – VI).

          Em torno de tais verdades é que “o presente livro não é mais do que a série de artigos publicados desde o dia 26 de outubro do ano transacto no Jornal de Notícias com mais outras partes, que deixaram de ser publicadas por motivos imperiosos, inteiramente alheios à minha vontade e que não vem a momento declarar” (Proêmio – IV e V). O jovem acadêmico de medicina referia-se a verdades duras e não oferecidas ao público em seus artigos jornalísticos, e, a seguir, a uma censura sobre a qual não dá maiores detalhes.        

         Alvim Martins Horcades assistiu à tomada da favela e aos terríveis episódios subseqüentes, com os quais se indignou profundamente a ponto de enfrentar ameaças e deixar escrito que o “fato mais importante que se deu nesta revolução e sobre cuja realidade talvez reste alguém na incerteza. Realmente é de suma gravidade” (fl. 99). Seus artigos começaram a ser veiculados no Jornal de Notícias, de Salvador um ano depois do fim dos combates e retorno dos acadêmicos de medicina àquela cidade e tomaram a feição de livro com edição em 1899, três anos antes do lançamento do clássico euclidiano.

         A par da censura à qual submetidos e da qual, como exposto, pouco fala, o autor apontou às ameaças sofridas por ele e por outros e às mentiras, fatos esses merecedores de destaque. Afirma que de seus colegas acadêmicos partiram os primeiros protestos acerca dos bárbaros atos levados a efeito contra a vida dos prisioneiros derrotados, sendo dito a um deles: “Olhe que o Sr. está numa praça de guerra; acho bom que se cale” (fl. 107). Não há dúvidas de que tais palavras devessem ser avaliadas na severidade do contexto castrense no qual pronunciadas.

          Além desse, relata outro episódio, comparando-o com as ameaças à sua integridade, sofridas posteriormente, quando do preparo da edição de seu livro, e que assim expôs: “Lá poderiam assassinar-me atrás dos montes sem que ninguém o soubesse, como quiseram fazer com o criterioso correspondente do Jornal do Comércio, do Rio, Capitão Manoel Benício” (fls. 107 e 108), autor da obra O Rei dos Jagunços (fl. 47).

          Ao declarar pretensão de fazer a sua grave denúncia, esclarece, em nota de pé de página, que “atualmente está nesta Capital um cidadão que esteve como auxiliar da Comissão de Engenheiros, em Canudos, que ao saber da maneira pela qual eu me externava nesse livro, quando ainda no prelo, disse-me que não achava bom proceder eu por essa forma, porque há certas coisas que não devem ser ditas” (fl. 107). E continua o autor a transcrever as palavras de seu interlocutor para demonstrar como se seguiram durante as apurações oficiais a sucessão de mentiras voltadas a acobertar o ocorrido: “sabia que tinha se degolado jagunços, porém que fora chamado no Rio, pelo Ministro da Guerra, para dizer se era real, mas respondeu que não sabia de coisa alguma, porque não era tolo para fazê-lo” (fl. 107).

         No conjunto das muitas informações oferecidas, o autor faz duas notas muito interessantes para a análise crítica do episódio de Canudos. Afirma de forma clara e sem as peias da dúvida que os revoltosos conselheiristas não tinham o característico político monarquista como da essência, mas apenas o tinham circunstancialmente. Assim expõe sua idéia: “Mas dizer-se que o elemento monárquico era o que ali existia, é uma mentira [...] A idéia monárquica nunca existiu ali, mas sim a ignorância, auxiliada pela perversidade e chefiada por um maníaco bandido” (fl. 184). A tomar dos manuscritos do Conselheiro, não se pode afirmar com robustez a preocupação ou ideologia monarquista como elemento do cerne de suas pregações ou de sua ação aglutinadora. Mas, também, não permitem concluir que se tratasse efetivamente de um “maníaco bandido” ou que a referida “ignorância, auxiliada pela perversidade” lhe fossem próprias. O ponto de vista esposado por Horcades acentua o aspecto sócio-cultural-econômico da revolta e reduz de forma drástica o caráter político e o fundamento da reação oficial, em prejuízo de sua exploração republicana.

         Ao mesmo tempo, o autor e testemunha diz, por mais vezes, dos despropósitos havidos na condução das atividades militares caracterizadas pelo comando arbitrário e confuso.

          Quando, a caminho da cidadela dos jagunços, os acadêmicos, entre os quais ele, chegaram a Queimadas, e, como escreve, “aí já principiamos a sofrer os horrores da guerra e as decepções do homem grosseiro [...] Era o Sr. Comandante da praça, major Nemésio de Sá, que com a grosseria que lhe é característica [...] Por esta fúnebre recepção imaginem os leitores o que estava reservado para nós” (fl. 12). Mas não deixa de referir-se às gentilezas recebidas quando “de entusiásticas saudações da distinta mocidade da Escola Militar, que estava ali servindo” (fl. 16). Mais, diz que em Cansanção, estes jovens cadetes, num ato absurdo, são levados à dura realidade dos combates em linha de frente quando da tomada da Fazenda Velha.

          E continua relatando a situação dos “600 soldados feridos, andrajosos e cadavéricos [...] os defensores da Pátria transformados em cadáveres ambulantes” (fl. 18). Ainda, expõe que os médicos militares trabalhavam de má vontade, que os soldados e oficiais, feridos há mais de 15 dias permaneciam sem tratamento, outros nus e famintos, conduzidos pela crueldade e pela indiferença, que os cadáveres restavam insepultos.

          Relata a imprevidência nas iniciativas, a falta de ordem, segurança e regularidade nos comboios de suprimento, “razão de muitas vezes passarmos fome” (fl. 41). Próximas da vitória republicana “as operações de guerra continuavam no mesmo que dantes: a indecisão triunfava [...], era enorme a morosidade [...]” (fl.54). Noutros momentos o autor descrevia “um segundo ataque [...] inconveniente e inoportuno, pois que só serviu para se sacrificar soldados” (fl. 78), ou ataques de artilharia sobre os próprios expedicionários fora das trincheiras, mas, tudo entremeado de elogios a alguns comandantes em particular e à oficialidade em geral, sem deixar de anotar as muitas ausências do campo de operações enquanto “todos os dias davam parte de doente” (fl. 132).

 

         3 - A denúncia ética de Horcades.

          Ponto fulcral da obra de Horcades é a denúncia por ele formulada “com a responsabilidade do meu nome e máxima liberdade” (Proêmio – V), escrita “para os republicanos, urge dizê-lo” (fl. 3), com o que, como afirmou, “quisemos [...] afirmar nossa dedicação à República” (fl. 3).

         A guerra estava terminada e por toda parte irrompiam os gritos de vitória, soavam os clarins e organizavam-se as bandas. O autor sai para ver os restos da favela e declara que “o cérebro do homem não pode nem a pena tem a força para narrarem os horrores ali presenciados” (fl. 92), enquanto no acampamento dos vitoriosos “estavam mais de 800 jagunços” (fl.90) como prisioneiros rendidos e dominados, até ali levados por Beatinho, braço direito do Conselheiro, após as negociações estabelecidas com o comandante da expedição e as promessas por ele feitas.

         O acadêmico Alvim Martins Horcades é preciso em seu testemunho  e em sua denúncia ao declarar acerca daqueles 800 jagunços vencidos, rendidos e feitos prisioneiros: “se não o visse, talvez duvidasse a princípio, esperando que provas cabais surdissem para a minha desilusão ser completa; mas feliz ou infelizmente eu vi e assisti a sacrificar-se todos aqueles miseráveis, [...] E com sinceridade o digo: Em Canudos foram degolados quase todos os prisioneiros” (fl. 103). E continua com grande clareza: “Levar-se homens de braços atados para traz como criminosos de lesa-majestade, indefesos, e perto mesmo de seus companheiros, para maior escárneo, levantar-se pelo nariz a cabeça, como se fora a de uma ave, e corta-lhes com o assassino ferro o pescoço, deixando cair a cabeça sobre o solo – é o cúmulo do banditismo praticado a sangue frio como se fora uma ação nobilitante! Assassinar-se uma mulher, pelo simples fato de ser o seu companheiro conivente com o que se dava – é o auge da miséria! Arrancar-se a vida de criancinhas, que ainda não haviam sentido o mais leve bafejo da ação corruptora do humanismo, cérebros inconsistentes em que não haviam vibrado ainda sentimentos maus [...] - é o maior dos barbarismos e dos crimes monstruosos que o homem pode praticar! E além de tudo, estes prisioneiros estavam isentos de quaisquer castigos pelo juiz [...], porquanto a psicologia diz que o fanático é irresponsável, é inconsciente; e ainda as leis de guerra do nosso país, como de todos, suponho que garantem a vida do prisioneiro” (fls. 104 e 105). E oferece detalhes escabrosos de tal indignidade para com os prisioneiros indefesos e aos quais havia sido garantida em negociação prévia conduzida por meio do líder Beatinho, a proteção “pois cá teriam casa, comida e tudo quanto precisassem” (fl. 87).

         Num declarado sentimento de desolação para com os fatos, Horcades reclama da sorte daquelas centenas de aprisionados que não mereciam morrer. Eram simples brasileiros, merecedores da condescendência de seus irmãos e o afirmava dizendo: “aqueles homens dignos do nome brasileiro!! Sim! Faziam jus ao perdão, porque eram brasileiros como os revoltosos de 6 de setembro e dos pampas rio-grandenses” (fl. 115). Jagunços dignos da própria nacionalidade pela coragem e pela valentia na luta por seus ideais.

          Nesse caminho aponta a precedente de diversa solução: “porventura não prestou os mais relevantes serviços nesta revolução, o esquadrão de cavalaria de praças do 31, [...] e quem foram eles senão em quase sua totalidade os sentenciados pelo chefe do governo do Rio Grande do Sul, na revolução daquele Estado a tombarem [...] salvos, porém [...] ? Mas, infelizmente, de nada serviu esta portentosa lição” (fl. 102). Na verdade, o autor expunha a diferença entre o tratamento dado aos revoltosos organizados e politicamente capitaneados pela elite política sulina e os pobres, ignorantes e abandonados jagunços de Canudos, cujo líder já havia falecido depois de isolado na favela.

         Diante da força da denúncia apresentada, o autor procura responsabilizar o comandante da expedição, fazendo-o a partir de uma pergunta: “E quem o responsável por essas atrocidades? Naturalmente ninguém agora quererá assumir a paternidade delas, mas eu posso asseverar com toda convicção que são filhas legítimas do comandante da 4ª expedição [...] Se não quisessem que eu dissesse isto arrancassem lá também a minha cabeça quando prometi fazê-lo” (fl. 108). E continua para afirmar, de maneira madura e equilibrada para quem tão jovem e tão atingido em sua honradez, o caráter pessoal da brutal atitude, destituída do assentimento de outros a ponto de afastar qualquer hipótese de acusação genérica às forças republicanas e conclui: “Lá mesmo uma das glórias do nosso exército, um dos verdadeiros heróis daquela sanguinolenta campanha, ao ter ciência da sorte destinada aos seus irmãos, disse não compartilhar a responsabilidade daquelas atrocidades” (fl. 111).  Pelas informações vagamente oferecidas, tudo leva a crer tratar-se da figura do Coronel Dr. Siqueira de Menezes (nota de pé de página, fl. 60). E o autor retoma a responsabilização individual ao afirmar: “Quero, porém, repito, deixar bem patente que nada tem de responsabilidade a classe militar, porquanto é ela, como todas, susceptível de ter em seu seio espíritos sensatos e desvairados e não foi conivente toda ela com aquelas cenas degradantes nem deu assentimento a elas” (fls. 117 e 118).

 

         4 - Conclusão.

         Descrição de uma Viagem a Canudos questiona os fatos como em geral conhecidos, traz em si uma ótica claramente social do episódio ocorrido naquela cidadela sertaneja e remete a novos e mais detalhados exames da problemática, com minimização de seu até hoje asseverado conteúdo político, assente no medíocre confronto monarquista republicano, e reclama uma análise do tema a partir da multiplicidade de textos documentais, alguns nela mesma indicados, quase sempre ofuscados pelo clássico de Euclides da Cunha.

         A obra de Horcades tem conteúdo de denúncia ética e guarda algumas profundas e inconciliáveis diferenças para com Os Sertões. Muitas das informações constantes de uma e de outra não se coadunam, como se uma delas fosse repleta de belas palavras, tecida com maestria, e com lapsos quanto ao conteúdo e a verdade. Essas diferenças acentuam-se no tocante aos prisioneiros, inclusive o Beatinho, sucessor do Conselheiro e o desastroso destino que lhe foi dado após as negociações  desenvolvidas.

          Euclides refere-se à rendição de mulheres, de velhos e de crianças ocorrida sob a ação diplomática do líder Beatinho e que os últimos sertanejos revoltosos não se renderam, lutaram até a morte. Diz textualmente o jornalista: “Fechemos este livro. Canudos não se rendeu [...] resistiu até o esgotamento completo” (fl. 458).

          A essas palavras é possível contrapor a denúncia de Horcades, o jovem acadêmico de medicina, referindo-se à degola sumária e covarde de concidadãos vencidos e rendidos: “forneço deste modo os dados precisos à História para a sua punição moral e ante os meus concidadãos apresento o meu protesto” (fl. 106).

          Mas não nos esqueçamos, Euclides, ao contrário do que ordinariamente se pensa, permaneceu no local dos combates por apenas três semanas e deixou-o em três de outubro de 1897 acometido de febre, dois dias antes do vergonhoso e humilhante fim da guerra.

 

          Nota bibliográfica.

 GALVÃO, Walnice Nogueira, Piedade e Paixão: Os Sermões do Conselheiro, in Breviário de Antônio Conselheiro. Salvador: Editora da Universidade Federal da Bahia. 2002.

 CUNHA, Euclides da. Os Sertões. Rio de Janeiro: Francisco Alves. 1967.

 HORCADES, Alvim Martins. Descrição de uma Viagem a Canudos. Salvado: Empresa Gráfica da Bahia – Editora da Universidade Federal da Bahia. 1996.

 



[1]           GALVÃO, Walnice Nogueira, Piedade e Paixão: Os Sermões do Conselheiro, in Breviário de Antônio Conselheiro. Salvador: Editora da Universidade Federal da Bahia. 2002, fl. 14.

[2]              CUNHA, Euclides da. Os Sertões. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1967.

[3]              HORCADES, Alvim Martins. Descrição de uma Viagem a Canudos. Salvado: Empresa Gráfica da Bahia – Editora da Universidade Federal da Bahia. 1996.