Niilismo Ativo e Direito na Pós-Modernidade

 

 

Lucas Villa*

 

Resumo

 

Este trabalho situa-se no âmbito da Filosofia Geral, Filosofia Jurídica, Teoria do Direito e Hermenêutica jurídica, tendo como objetivo analisar a relação entre o niilismo e o pensamento pós-moderno, bem como as implicações na esfera ética, política e jurídica de um modelo de niilismo ativo.

 


1. INTRODUÇÃO

 

Estes estudos resultam de reflexões e pesquisas bibliográficas concernentes principalmente aos ramos da Filosofia, Teoria do Direito, Filosofia do Direito e Hermenêutica Jurídica, buscando compreender o fenômeno do niilismo na cultura pós-moderna, bem como analisar suas implicações ao pensamento jurídico.

Escolhemos trabalhar dialogando, principalmente, com três autores com quem possuímos uma certa afinidade de pensamento, quais sejam Friedrich Nietzsche, Martin Heidegger e Gianni Vattimo. Utilizando este plano de fundo, pretendemos não só traçar um diagnóstico do niilismo na pós-modernidade, mas também trabalhá-lo não como algo negativo, mas como uma esperança de liberdade e emancipação da violência metafísica, utilizando-o como instrumento para propor paradigmas e posicionamentos não só jurídicos, mas também éticos e políticos.

O tema parece extremamente relevante, como ficará claro no decorrer do trabalho, dada a consumação crescente do niilismo na contemporaneidade ocidental, o que nos obriga a relacionar-nos com ele, buscando tirar-lhe algo que nos seja positivo. Parece necessário tomar a sério o fenômeno niilista, e não mais negligenciar sua existência, sob pena de corrermos o risco de sermos engolidos por ele.

Partiremos de uma análise panorâmica do pensamento dito pós-moderno para reconhecermos nele seu viés niilista. Estudaremos, então, o próprio niilismo, tentando compreender como este tem se manifestado em vários períodos históricos e o que tem caracterizado a espécie de niilismo consumado da pós-modernidade, bem como as possibilidades que esta forma de niilismo encerra. Posteriormente aplicaremos as conclusões tiradas a respeito do niilismo ao pensamento jurídico, buscando uma espécie de Filosofia do Direito de cunho hermenêutico e niilista, mas com postura ativa dentro da realidade social.

Vale lembrar que todo este trabalho, bem como as propostas que ele inclui, refere-se às sociedades ocidentais democráticas capitalistas de cultura cristã, não possuindo, como não poderia ser diferente, qualquer pretensão de universalidade.

 

 

2. Panorama dos destroços: A crise da Modernidade e o Niilismo da Pós-Modernidade

 

O mais incômodo dos hóspedes instalou-se em nossas casas. Invadiu-as sorrateiramente, sem bater às portas ou pedir licença, e permanece bem diante de nossos olhos, com feições misteriosas, imprevisíveis e, por isso mesmo, assustadoras. O medo nos faz ignorar sua presença, negar sua realidade, mentir a nós mesmos, convencer-nos de sua inexistência para evitar ter de mirar-lhe os olhos repletos de vazio e possibilidades. Este espectro, a quem, um dia, já batizamos Niilismo, hoje reclama outra alcunha: Pós-Modernidade.

Adentramos uma era em que a verdade já não nos parece alcançável e os caminhos que acreditávamos levar a ela mostram-se cada vez menos confiáveis. Religião, arte, filosofia, ciência, em suma, o conhecimento, tem seu papel alterado, deixando de fornecer uma explicação da realidade e tornando-se uma interpretação desta. É o fim das verdades absolutas, o fim das certezas, como prenuncia Ilya Prigogine.

É certo que o próprio termo “pós-modernidade” carrega consigo uma contradição interna. Etimologicamente é impossível afirmar a existência do pós-moderno, uma vez que o moderno (do latim hodiernus) é justamente o atual, o hoje. Afirmar que existe um “pós-hoje” é dizer que vivemos no amanhã e, portanto, que o amanhã não é mais o amanhã, é o hoje. Nestes termos, em uma análise literal, o pós-moderno é, necessariamente, também moderno, enquanto atual.

Inobstante a inadequação do termo, que na verdade denuncia a falta de criatividade não só de quem batizou a pós-modernidade, como também e principalmente de quem deu à modernidade este nome, é inegável que vivenciamos um momento histórico sui generis, um período que anuncia o rompimento dos principais paradigmas da era moderna, deixando em cheque seus grandes mitos: Deus[1], a razão e a ciência. Em suma, a metafísica foi destronada, a verdade tirada de alcance e o real esvaziado de qualquer sentido pré-estabelecido.

 O termo “moderno” tem sido usado historicamente para definir aquele modelo de sociedade que assumiu papel primordial a partir dos séculos XV/XVI, ou seja, após o fim da Idade Média, e que se caracteriza por uma laicização da cultura e uma tentativa de reordenar a realidade econômica e política humana sob a orientação filosófica do racionalismo, tendo em vista sempre a busca do “progresso”. A era moderna tem, portanto, início com o Renascimento, desenvolvendo-se na chamada Idade Moderna propriamente dita e atingindo seu auge durante o Iluminismo, no séc. XVIII. A sociedade moderna, entretanto, não é qualquer sociedade que se manifesta neste espaço de tempo, uma vez que dentro do mesmo rasgo histórico encontram-se sociedades em que predominam ainda características pré-modernas, mesmo que muitas vezes convivendo simultaneamente com aspectos considerados modernos. A sociedade moderna, portanto, é aquela marcada pela crença na razão libertadora, pela mudança de eixo do teocentrismo ao antropocentrismo, a sociedade que crê na verdade, na unidade, no homem como criador de fins e na linearidade histórica rumo ao progresso.

O primeiro grande crítico deste modelo de sociedade moderna foi, talvez, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que vai mudar a forma de entender o conhecimento, entregando à filosofia a função de atribuir sentidos à realidade, ou seja, criar valores, questionando as verdades ontológicas e voltando seu martelo contra a metafísica. A respeito da verdade, afirma Nietzsche:

 

“O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas”.[2]

 

Através do método da genealogia, Nietzsche vai investigar as lacunas presentes nos discursos tidos como racionais, demonstrando como determinados conceitos meramente humanos acabaram por se ectoplasmar em verdades absolutas. Buscando, portanto, os fundamentos extra-racionais da razão, chega à conclusão de que muitos dos valores pregados como libertários pelo pensamento moderno, como uma pretensa moral racional absoluta, na verdade têm raízes nas religiões e pagam tributo justamente aos mitos que a modernidade se propunha a abandonar.

É neste contexto que Nietzsche proclama a morte de Deus, e com ela o fim das verdades absolutas, da metafísica e da crença na linearidade histórica rumo ao progresso. É o fim da moral universal, os valores já não existem em si, mas são criações humanas, demasiado humanas. O bem e o mal já não existem e assim o homem se depara com a necessidade de posicionar-se para além deles. Está lançada, sem dúvida, a crise da modernidade.

“Se Deus não existe, então tudo é permitido!”, é a famosa exclamação de Ivan Karamazov, personagem de Dostoievski. Nenhuma outra proposição poderia colocar, de maneira tão clara, a realidade complexa que representa o fim da metafísica, com sua dupla dimensão dádiva/fardo. Após o desmoronar da metafísica e da razão, o homem encontra-se em uma crise moral, onde não existem valores a priori e, portanto, a vida se torna destituída de um sentindo pré-determinado. Surge para a humanidade a necessidade de confrontar-se com o nada e assim o Niilismo torna-se objeto de uma reflexão cada vez mais necessária.

Outras figuras importantes no pensamento ocidental irão contribuir para esta crise da razão moderna. Entre elas Sigmund Freud, com a psicanálise, ao afirmar categoricamente que o fator determinante da psique humana não é a racionalidade, mas o inconsciente, caótico, irracional e fora de domínio. Michel Foucault inverterá a relação entre saber e poder colocada durante o Iluminismo. Não mais se acreditará, como na época das luzes, que o conhecimento leva necessariamente ao progresso e ao poder, mas, por vias inversas, é aquele que detém o poder que vai construir o conhecimento e ditar, arbitrariamente, o que é a verdade, a fim de legitimar seu próprio poder. Nos termos de Marx, em Foucault a verdade também deixa de ser uma verdade universal para ser a verdade de uma classe ou de um grupo de poder. O poder produz o saber, não mais o inverso. A fenomenologia de Edmund Husserl e Martin Heidegger, fazendo vezes de ontologia crítica, mostrará que a verdade já não se encontra no objeto em si, como pretendiam os ontológicos clássicos, nem no sujeito que o apreende, como pretendem os subjetivistas românticos, mas no próprio fenômeno de compreensão. A verdade passa a ser a própria relação sujeito-objeto, ou seja, a interação entre o objeto e a imagem que o sujeito constrói a partir do material que este objeto lhe fornece (envia) e que ele apreende através dos sentidos. Uma relativização, portanto, do conhecimento, mesmo do conhecimento sensorial.

Ademais, Heidegger, bem como os existencialistas que seguiram suas pegadas (e aí é fundamental situar Jean-Paul Sartre, Merlaeu Ponty, Albert Camus...), vai se deparar com o problema do sentido da existência, frente ao fim da metafísica. Negada a existência de Deus e de qualquer além-mundo de natureza transcendental, a morte torna-se um escândalo absurdo que parece, à primeira vista, tirar toda a coerência do ser.

A influência de pensadores como Nietzsche e Heidegger vai marcar a crítica à modernidade, tornando-a presente em uma série de outros pensadores contemporâneos, como os estudiosos da Hermenêutica (mormente Dilthey e Gadamer), aqueles da chamada Escola de Frankfurt (com suas Teorias Críticas), os representantes do desconstrucionismo pós-estruturalista, encabeçados por Jaques Derrida, e o chamado pensiero debole (pensamento fraco) italiano, liderado por Gianni Vattimo. A Filosofia da Linguagem também vai se ocupar destas inquietações, chegando a dar origem à chamada Nova Retórica de Chaïm Perelman, que já assume a impossibilidade do discurso puramente racional, passando a defender a idéia do discurso razoável.

As artes foram igualmente abaladas pela chamada crise da representação. Quando se torna ao homem impossível emitir juízos de valor, a questão estética torna-se ainda mais subjetiva e reina, também entre os artistas, a lei do “tudo é permitido”.

E não foram só a Filosofia e as Artes que sofreram o impacto disto que, por falta de termo mais adequado, chamaremos pós-modernidade. Também as ciências vivem um momento sem precedentes neste contexto. A objetividade parece ter sido posta por terra, de maneira que vivemos atualmente um processo de relativização até mesmo das Ciências Naturais. Karl Popper vai defender a falseabilidade como atributo intrínseco do conhecimento científico. Qualquer teoria científica tida em determinado momento histórico como verdadeira está sujeita a tornar-se falsa. Thomas Kuhn falará da revolução dos paradigmas dentro das ciências, Paul Feyerabend fará seu discurso contra o método, sugerindo que o rigor dos métodos científicos, em muitos casos, impede o progresso da ciência, e pensadores como Edgar Morin e Ilya Prigogine defenderão uma teoria dos sistemas que enfrente a hipercomplexidade do real, que não apele para uma razão simplificadora e que perceba como todas as teorias, tanto nas ciências naturais como nas sociais, carregam em si princípios de auto-destruição (entropia), auto-complementação (autopoiesis) e auto-criação (ecologia). Surge a chamada Epistemologia da Complexidade.

Planta-se, portanto, uma crise, também, do positivismo e do modelo de Ciência inspirado nas ciências naturais e sustentado pela objetividade, experimentação, método rigoroso, comprovação e certeza. Um dos grandes marcos para a crise do modelo tradicional das ciências naturais foi a Teoria da Incerteza, do Físico alemão Werner Karl Heisenberg. Tentando compreender e prever o comportamento dos elétrons no interior de um átomo, Heisenberg descobriu que era impossível determinar com exatidão a posição de um elétron, já que ele, de forma imprevisível, ora se comportam como partícula, ora como onda. A partir disto, inferiu que é impossível medir simultaneamente e com precisão absoluta, a posição e a velocidade de uma partícula qualquer, ou seja, a determinação conjunta do momento e posição de uma partícula, necessariamente, contém erros (nunca menores que a constante de Planck). Em nível macroscópico esses erros podem ser despresíveis, mas para o estudo de partículas atômicas são de suma importância. Junto com as descobertas de Planck, este foi um dos marcos iniciais do surgimento da Mecânica Quântica, que, até então incompatível com os modelos da física Newtoniana e com a Teoria da Relatividade Geral de Einstein, fez com que a física deixasse de ser uma ciência das verdades para tornar-se uma ciência das possibilidades.

Trabalhar com eventos aparentemente aleatórios, enfrentando a complexidade e a fragmentariedade do real, deixando de encontrar certezas e passando a cada vez mais catalogar possibilidades parece ser o grande desafio deste novo modelo de ciência que surge com a pós-modernidade e que atinge mesmo a mais pura das ciências naturais: a matemática.

As chamadas Teorias do Caos, que se desenvolveram na área da matemática a partir de pesquisas realizadas pelo meteorologista Edward Lorenz (e aqui se faz presente outra característica típica da pós-modernidade, que é a multidisciplinaridade), tentam trabalhar com sistemas complexos, dinâmicos e aparentemente aleatórios, buscando encontrar padrões de linearidade nestes fenômenos e prever as possíveis conseqüências deles. É célebre a assertiva de Lorenz sobre o chamado “efeito borboleta”, que afirma que o bater de asas de uma borboleta em um lado do globo pode desencadear uma reação que acabe gerando um furacão do outro lado do globo. Ainda na área da matemática, é também sintomático o caso da Teoria dos Jogos, que igualmente trabalha com a idéia de prever fenômenos aparentemente aleatórios e chegando a ter aplicações práticas, sendo a mais famosa delas a Teoria dos Jogos aplicada à Economia, que teve seu grande expoente em John Nash.

Também o estudo dos fractais, que seriam figuras não geométricas aparentemente caóticas (ou figuras geométricas não-euclidianas), buscando encontrar neles padrões de repetição, é outro marco desta nova matemática que se abre ao contexto da incerteza. Questão mais curiosa é, entretanto, a do “Paradoxo de Banach-Tarski”. Estes estudiosos comprovaram matematicamente a possibilidade de se dividir uma esfera sólida tridimensional em um número finito de pedaços (mais precisamente em cinco partes) e, com esses pedaços, construir duas novas esferas de dimensões idênticas à original. Foi a mais clara prova de que mesmo a mais pura das ciências, a matemática, não traz uma descrição real dos fenômenos, já que o feito que os matemáticos demonstraram através de cálculos atinge um resultado completamente contra-intuitivo, sendo algo impossível de ser concretizado na realidade (é como imaginar a possibilidade milagrosa de um indivíduo transformar uma única laranja em duas laranjas idênticas)[3].

Não seria a Ciência Jurídica que permaneceria ilesa a este cataclismo cultural. Também as Teorias do Direito tradicionais mostram-se, agora, abaladas diante da crise do pensamento moderno. A morte de Deus e da metafísica implicam, também, na morte do Direito Natural (o que não impede que existam ainda tentativas verdadeiramente heróicas de reanimá-lo). Com a crise da moral e a relativização de todos os valores, tornou-se impossível falar em direitos naturais universais, imutáveis no espaço e no tempo[4]. Isto significa, também, colocar por terra a universalidade dos Direitos Humanos, fazendo com que a Declaração Universal dos Direitos do Homem, um dos maiores obeliscos culturais erguidos em honra à modernidade, já não seja vista como tão universal.

O modelo juspositivista, fundamentado basicamente na legitimidade de uma autoridade competente para ditar o que é o direito, cai por terra a partir do momento que já não existem critérios para atestar a legitimidade de qualquer poder. A alternativa moderna do contrato social, para o pensamento pós-moderno, já se mostra muito mais racionalizadora que propriamente racional – desmorona, portanto, outro dos grandes monumentos construídos pela modernidade: a idéia de Estado Nacional. Ademais, tanto o juspositivismo como sua variante do realismo jurídico (e aí se incluem ambas as vertentes, americana e escandinava) pecam diante da complexidade do real, tentando reduzir a hipercomplexidade do fenômeno jurídico a um único de seus elementos (a norma, no caso do juspositivismo, e o fato, no caso do realismo jurídico). Resta, então, mais um problema: como pensar o Direito neste contexto esquizofrênico em que nada é válido e, conseqüentemente, tudo é válido?

A própria vida em sociedade tem mudado em velocidade vertiginosa. Os avanços da tecnologia, a mídia e a superinformação, a cultura de massa, a globalização, a Internet, tornam a realidade cada vez mais complexa, fragmentada e multidisciplinar. É neste cenário de incerteza, de retorno ao relativismo sofista, no qual, como propunha Protágoras, “o homem é a medida de todas as coisas”, que cresce o fantasma da pós-modernidade. Uma vez destituído de seu solo firme, o homem já não tem valores ou certezas às quais se ater e não só sua vida, mas toda a realidade que o cerca se demonstra destituída de qualquer sentido ou valor. A humanidade se depara com o nada e precisa descobrir o que fazer em relação a ele. Não há dúvidas de que a pós-modernidade é Niilista, mas a pergunta é: pode este Niilismo tornar-se um ponto de partida para a construção de novos valores, ainda que estes já não tenham a pretensão de ser absolutos? É possível construir algo a partir do nada, ao contrário do que afirmava Parmênides de Eléia? E se a resposta é positiva, o que devemos construir, já que estamos desprovidos de valores que nos permitam fazer opções? Se o nada pode dar origem a alguma coisa, pode dar origem a qualquer coisa, e justamente aí se parece encontrar o grande perigo do Niilismo da pós-modernidade.

Este cão feroz invadiu nossa morada. O mais inquietante dos hóspedes, como o definia Nietzsche. Ele existe, e não podemos negá-lo por medo de encará-lo. Diante do filhote de fera que é o Niilismo pós-moderno, restam-nos duas opções: a) enganarmo-nos uns aos outros, para nos tranqüilizarmos com uma racionalização simplificadora que negue sua existência, até que ele cresça, invada nossos cômodos e destrua a nós e a quem amamos; b) ou abraçar este animal arisco em toda a sua complexidade, enquanto ainda é uma criança, assumir sua existência e dedicar-se a ele na tentativa de domesticá-lo, para que possamos conviver com ele, afeiçoar-nos a ele e, inclusive, tirar dele algum proveito, fazendo-o guardião de nossa morada. Domesticar o Niilismo pós-moderno, antes que ele nos abocanhe: este parece ser o grande desafio lançado para as inteligências da contemporaneidade.

Basta de negar a pós-modernidade. É preciso coragem para encará-la em toda sua complexidade e fragmentação, coragem para mergulhar no coração do nada e retornar de lá trazendo em mãos alguma coisa que brilhe.

 

 

3. NIILISMO: O QUE É, O QUE NÃO É E O QUE PODE SER

 

3.1.                       Um conceito de Niilismo?

 

Conceituar é, necessariamente, simplificar e, conseqüentemente, reduzir e falsear o real. Conceitos são sempre arbitrários, são sempre contingências, uma vez que as coisas, por si mesmas, não possuem conceitos nem limites previamente determinados. Saussure, no âmbito da lingüística, e Derrida, com seu método desconstrutivo, já nos diziam que os signos não têm relação direta alguma com os significados nem com os significantes (e que estes não possuem relação entre si ou com os referentes). Neste sentido nos parece impossível afirmar, categoricamente, o que é e o que não é o niilismo. Mais frutífero, talvez, seja tentar demonstrar o que pode ser o niilismo, mostrando como este tem sido encarado durante a história do pensamento e, com base nesse catálogo de possibilidades, escolher uma destas acepções para sugerir o que, em nossa visão, deveria ser (ou se tornar) este niilismo.

Quanto mais fechado é um conceito, mais arbitrário ele se torna e, também, mais reducionista e simplificador. Se muito amplo, entretanto, o conceito se esvazia de conteúdo, podendo ser manipulado de várias maneiras diferentes e, assim, se tornando menos prático e significativo. O termo niilismo parece um exemplo sintomático de conceito distendido que, tendo se ampliado historicamente a ponto de abarcar praticamente todo o real (e também o irreal), passou a, efetivamente, não significar mais coisa alguma.

De início, entre as tantas acepções da palavra, pode ser esclarecedor partir de seu significado literal. Niilismo deriva do latim nihil, que significa nada. Observando o significado dicionaresco do termo já percebemos quantas acepções este pode possuir, senão vejamos:

 

“Niilismo, s. m. (filos.) aniquilamento, redução a nada. / Ausência de toda a crença. / Nome dado por alguns críticos ao idealismo absoluto. / Doutrina política segundo a qual as condições apresentadas pela organização social são tão más que justificam a sua destruição, independentemente de qualquer programa construtivo. / Nome que por vezes se dá ao terrorismo ou à propaganda revolucionária. / F. lat. Nihil (nada)”.[5]

 

É comum, também, a definição de niilismo como “todo questionamento do valor-verdade”[6]. Neste sentido, que parece o mais empregado e aceito, o niilismo seria o posicionamento epistemológico que nega a possibilidade de se atingir verdades absolutas. Desta forma, volta-se contra alguns pilares do pensamento ocidental, como o racionalismo, a metafísica, a religião e até mesmo a ciência.

Costuma-se afirmar que o termo teria sido cunhado nos anos 1860, pelo escritor russo Turgeniev, em seu romance “Pais e Filhos”[7]. Bazarov, o protagonista da trama, seria a personificação do niilista. Franco Volpi reconhece a Turgeniev o mérito de ter posto em circulação a idéia de niilismo e tê-la transformado em um problema visualizado em larga escala, mas menciona que, ao contrário do que o próprio Turgeniev afirmava, o termo “niilista” já havia sido empregado anteriormente a seu livro por outros autores, inclusive tendo sido título de conto datado de 1853 de autoria do romancista e dramaturgo alemão Karl Ferdinand Gutzkow[8].

A idéia de niilismo, entretanto, mostra-se bem mais antiga que a palavra. É comum atribuir-se o título de primeiro niilista da história do pensamento ocidental a Górgias, famoso sofista nascido em Leontinos, na Sicília, por volta de 485/480 a.C.[9] É célebre a afirmação de Górgias de que a verdade não existe, ainda que existisse, jamais poderia ser alcançada, ainda que fosse alcançada, jamais poderia ser expressa em palavras e que, ainda que pudesse ser expressa, jamais poderia ser compreendida por um interlocutor. Uma postura, portanto, de niilismo epistemológico extremo (que o possibilitou desenvolver todo seu conceito de retórica e de verdades construídas através do discurso persuasivo). Em Górgias, também, pela primeira vez, a noção de niilismo aparece atrelada à idéia de ateísmo. O relativismo agnóstico de Protágoras, que o leva a construir seu método da antilogia (não existiria uma só verdade sobre os objetos, mas duas verdades opostas e igualmente sustentáveis através do discurso) e a afirmar que “o homem é a medida de todas as coisas”, se extrema em Górgias com a própria negação da existência dos deuses e, portanto, com a impossibilidade da existência de qualquer verdade ontológica última. Assim é possível dizer que, em suas origens, o niilismo é uma espécie de relativismo extremado. O conflito entre Sócrates (o defensor das verdades últimas) e os sofistas (descrentes nas verdades universais) parece marcado da mesma essência do conflito entre racionalismo e niilismo e, em última instância, entre os discursos da modernidade e da pós-modernidade.

Na Rússia de Turgueniev, entretanto, no século XIX, o niilismo pareceu, pela primeira vez, tomar a forma de uma teoria e se propagar em diversos meios, inclusive na política. Assim, partindo de pensamentos como os de Pisarev, surge o que poderíamos denominar “anarco-niilismo”, o niilismo político que perpassa o anarquismo russo de Bakunin, Kropotkin, Nechaiev, e que levanta a descrença em todos os modelos políticos organizados.

O grande analista do niilismo na Rússia, no entanto, parece ser Dostoievski. Romances como “Os Irmãos Karamazov”, “Os Demônios” e “Crime e Castigo”, em rasgos de genialidade, dissecam a fisiologia do niilismo e mergulham sem receios no coração do nada. A Dostoievski podemos considerar como um dos maiores popularizadores do niilismo.

O maior destes popularizadores, entretanto, parece ser o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que devotou grande parte de sua obra a analisar o fenômeno niilista e a distinguir suas várias nuances. Não parece coincidência que a ele se atribua, também, o início das críticas à modernidade que desembocariam no que hoje conhecemos como o discurso pós-moderno.

Nietzsche, que descreveu o niilismo como “o hóspede mais inquietante”, em um de seus fragmentos póstumos assim define o termo:

 

“Niilismo: falta o fim; falta a resposta ao “para quê?”; que significa niilismo? Que os valores supremos se desvalorizaram”.[10]

 

A falta de valores referenciais, a falta do eixo arquimediano e a ausência total de finalidade do devir, é, portanto, para Nietzsche, o cerne do fenômeno do niilismo, que ele, profeticamente, prevê como o fenômeno que marcaria os próximos dois séculos (para ele, os séculos XX e XXI).

É difícil refutar a profecia nietzscheana se encararmos a curva que tem descrito o pensamento ocidental desde o século XX. O niilismo foi, realmente, tema que permeou de maneira decisiva o pensamento de alguns dos maiores intelectuais destes tempos, inclusive profundamente influenciados pela obra de Nietzsche, senão vejamos a obra de filósofos como Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre, Michel Foucault e, mais recentemente, Jacques Derrida, Richard Rorty e Gianni Vattimo.

Assim, seria possível destacar um núcleo que parece se manter constante nas utilizações do termo niilismo durante a história e esboçar, talvez, uma possível definição de niilismo como a postura epistemológica que nega a possibilidade de se atingir verdades últimas e absolutas, que nega as certezas, que retira da existência qualquer sentido e finalidade pré-determinados, qualquer essência a ser desvendada.

Este termo, entretanto, tem sido comumente utilizado por intelectuais como forma de polemizar e atacar o pensamento de seus adversários, de maneira que a palavra “niilista” tornou-se, em qualquer meio acadêmico, verdadeiramente um insulto contra aqueles que se fundamentam no vazio e não conseguem propor qualquer solução às problemáticas do real. Os “niilistas” são, assim, acusados de adotar posturas passivas, conformistas, desencantadas e pessimistas ante a realidade, desenvolvendo pensamentos inférteis, incapazes de trazer qualquer contribuição à interação humana com a realidade. A mesma crítica, mais uma vez vale ressaltar, costuma ser feita aos autores considerados “pós-modernos”.

Nem todo niilismo, todavia, é um niilismo passivo, nihil negativum. É possível falar de um niilismo positivo, afirmativo ou, como prefere Nietzsche, um niilismo ativo, transformador da realidade. Para compreender esta postura pode ser esclarecedor um breve passeio sobre as formas de niilismo que Nietzsche nos descreve em sua obra.

 

3.2.                       Nietzsche e as formas de Niilismo

 

3.2.1. Do platonismo ao niilismo: a evolução do niilismo-platonismo

 

De acordo com Nietzsche, o processo de desvalorização dos supremos valores, ou seja, a evolução do niilismo, caracteriza toda a história do pensamento europeu e, por conseguinte, do pensamento ocidental. O início deste niilismo, que nada mais seria que uma lógica da decadência, se encontra, segundo o filósofo, na doutrina dos mundos advinda do pensamento socrático e, principalmente, platônico. Iniciaria-se a decadência quando o homem cria, acima do mundo sensível (e em contraposição a ele), um mundo ideal, transcendente, “verdadeiro” (o Hiperurânio platônico), atingível somente pela razão e de cujas formas os sentidos só nos permitem visualizar cópias imperfeitas. Quando o mundo verdadeiro se torna mundo inatingível, inalcançável, promove-se, necessariamente, uma mutilação ontológica, um enfraquecimento do ser e de seu valor. O idealismo platônico seria, portanto, um sopro venenoso que seduz o homem direcionando-o ao inalcançável e, portanto, ao nada. Assim Nietzsche coloca que “o niilismo é o que do mundo tal qual é julga que não deveria ser, e do mundo tal qual deveria ser julga que não existe”[11].

A este primeiro niilismo, que converte o mundo verdadeiro em fábula, Nietzsche chamou de niilismo-platonismo, a respeito do qual, em seu “Crepúsculo dos Ídolos”, vestido em sua dourada máscara de Aufklärer, nos faz um breve histórico, mostrando seu desenvolvimento em seis etapas.

Na primeira fase deste desenvolvimento, o mundo verdadeiro é “alcançável pelo sábio, pelo piedoso, pelo virtuoso: ele vive ali, ele mesmo é este mundo”[12]. Esta seria a etapa do pensamento de Platão, que nos conta da existência de um Hiperurânio, um mundo supra-sensível, verdadeiro, mas que não é ainda inatingível: está ao alcance dos sábios, que podem conhecê-lo através da razão e da virtude.

A segunda fase seria aquela em que o mundo verdadeiro deixa de estar ao alcance do sábio e virtuoso e se transforma em uma promessa para o além-túmulo - “o mundo verdadeiro, por enquanto inalcançável, mas prometido ao sábio, ao piedoso, ao virtuoso (ao pecador que faz penitência)”[13]. Nesta etapa se encontraria a apropriação feita pelo cristianismo do pensamento platônico. O mundo das idéias toma as formas do paraíso, o Hiperurânio é o jardim do Éden e a existência terrena torna-se apenas aparência, sala de espera para a vida verdadeira do além-mundo. Pensamento que, segundo Nietzsche, se mostra extremamente pernicioso, levando o homem a uma desvalorização da vida, a uma bipartição entre mundo ideal e mundo sensível, mundo verdadeiro e mundo aparente, com uma desvalorização do mundo sensível em detrimento de um mundo das idéias que não existe senão como idéia, uma opção pelo nada em detrimento das coisas, pela morte em detrimento da vida. O platonismo, acessível anteriormente apenas aos sábios, agora se torna platonismo para o povo (cristianismo), doutrina de negação da vida e dos sentidos que torna a purificação acessível a qualquer um que a abrace. Aí se encontra a raiz daquele ódio à vida ao qual Nietzsche declara guerra em toda sua obra.

A terceira fase do niilismo-platonismo é aquela do “mundo verdadeiro inalcançável, indemonstrável, impossível de prometer, mas já enquanto pensado, um consolo, um dever, um imperativo”[14]. É a etapa da filosofia kantiana, em que o mundo verdadeiro desliza para fora da experiência sensível e cognoscível, se torna inacessível dentro dos limites da razão pura, mas torna-se imperativo categórico nos domínios da razão prática. É a hipótese que obriga, o agarrar-se ao phaenoumenon, aceitando a impossibilidade do noumenon.

Quarta fase: “O mundo verdadeiro: inalcançável? Em todo caso, não alcançado. E enquanto não alcançado, também desconhecido. Por conseqüência, tampouco consolador, salvífico, vinculante: a que poderia vincular-nos algo desconhecido?”[15]. Este quarto capítulo da história do niilismo faria referência ao pensamento positivista. Kant haveria promovido um abalo das certezas metafísicas e, por conseqüência disto, abala-se também a crença em um mundo ideal, fazendo crer que, ao contrário do que pretendia o pensamento kantiano, aquilo que não é certo jamais nos pode vincular a coisa alguma. É a decadência do próprio niilismo-platonismo. Já que o mundo verdadeiro se mostra incognoscível, as ciências passam a voltar-se ao mundo sensível, a uma busca de verdades terrenas. Os problemas metafísicos tornam-se indiferentes. Neste ponto as ciências naturais alcançam seu status de ciências completas, tornam-se o modelo de conhecimento válido, confiável, já que passível de comprovação empírica.

Fase cinco: “O ‘mundo verdadeiro’: uma idéia que já não é útil para nada, nem sequer é já vinculante, uma idéia que se torna inútil e supérflua, portanto, uma idéia refutada: abolamos-la!”[16]. Aqui Nietzsche começa a demonstrar já seu próprio pensamento. O termo “mundo verdadeiro”, a partir desta fase, passa a ser utilizado entre aspas. A indiferença à metafísica da quarta fase aqui se torna vontade de destruição. É necessário abolir o “mundo verdadeiro”, idéia inútil que distancia o homem do mundo aparente (sensível), que o faz trocar as coisas pelo nada. O “mundo verdadeiro” só serve para desencadear o ódio à vida. Surge a necessidade iconoclasta de destruir o santuário metafísico. O “mundo verdadeiro” deixa de ser verdadeiro.

Sexta e última fase: “Abolimos ao mundo verdadeiro: que mundo resta? Quiçá o aparente? (...) Mas não! Com o mundo verdadeiro temos abolido também o aparente”[17]. Aqui, uma vez abolido o “mundo verdadeiro”, mostra-se necessária, dentro de um niilismo radical que teria como fim a própria superação do niilismo-platonismo, também a abolição do mundo aparente. Mas como superar o niilismo se, dentro da dicotomia platônica, abolirmos tanto o “mundo verdadeiro” quanto o “mundo aparente”? Se este fosse o objetivo, restaria somente o nada e seria impossível uma superação do niilismo-platonismo como parece sugerir Nietzsche. Quando o filósofo fala em abolir o mundo aparente, entretanto, quer dizer abolir o mundo aparente como tal, tirar dele o caráter de aparência. É o fim da dicotomia platônica dos dois mundos, a necessidade de tirar do mundo sensível o caráter de mera aparência que lhe concedeu o platonismo, resolver o mal entendido platônico e tratar de nova maneira a relação entre sensível e não sensível. Abolido o mundo das idéias e o mundo das aparências, finalizada a bipartição do real, restaria apenas o mundo terreno, com o qual o homem precisaria se reconciliar. Esta é a filosofia final nietzscheana, o pensamento do meio dia de Zaratustra: a transvaloração de todos os valores. Não se trata apenas, entretanto, de ter os valores do antigo “mundo verdadeiro” trocados pelos de um novo mundo verdadeiro (antes relegado à condição subalterna de aparência). Não apenas fazer passar a ser bom, agora, aquilo que exalta a vida, não mais aquilo que nega a vida em detrimento do além-vida, do além-túmulo agora já demolido. Não falamos apenas em pôr acima o que antes abaixo estava e vice e versa, valorizando o sensível e depreciando o não sensível. Falamos, para além dessa interpretação simplificadora do pensamento nietzscheano, em sair integralmente do horizonte do platonismo-niilismo, ou, como nos coloca Franco Volpi, “da dicotomia ontológica que implica e de suas correspondentes categorias”[18] – devem cair, portanto, as três grandes categorias que embasam todo o pensamento metafísico ocidental, as categorias de “fim”, “unidade” e “verdade”. Esta mudança de perspectiva e transvaloração dos valores é a etapa última da superação do niilismo-platonismo, etapa do niilismo radical, completo, consumado, perfeito, que não é superação do niilismo no sentido de abandono deste, mas seu ultrapassamento através do mergulho nele próprio. A idéia de ultrapassamento do niilismo através do próprio niilismo e sem abandonar sua perspectiva assemelha-se à idéia de ultrapassamento da metafísica que nos propõe Heidegger, um ultrapassamento que não é Überwindung, mas sim Verwindung, não um deixar para trás, mas um torcer, um retorcer, um remeter-se, um mergulhar-em. Não se trata, portanto, de assassinar o niilismo, de abandoná-lo, mas de entregar-se a um trabalho de denúncia e desmascaramento, de rememoração e distorção, de consumação e exaurimento do mesmo. Justamente por isso Nietzsche falava em acelerar o fenômeno do niilismo, para que mais cedo pudéssemos alcançar a etapa do niilismo consumado, para que surgissem finalmente os niilistas consumados, aqueles que compreendem que “o niilismo é sua (única) chance”[19]. Este movimento de consumação do niilismo, segundo Nietzsche, marcaria toda a história do pensamento europeu dos próximos dois séculos posteriores a ele e que, sem dúvida, parece caracterizar bem o estado do pensamento pós-moderno.

A superação da dicotomia entre mundo verdadeiro e mundo aparente do platonismo, entretanto, para que se torne possível o niilismo consumado, parece ter de ser, necessariamente, Überwindug, superação com abandono das estruturas. O trabalho do niilista ativo que pretende acelerar a consumação do niilismo é, acima de tudo, o trabalho de exorcista, trabalho daquele que pretende expulsar e afugentar o fantasma de Platão.

Por contraditório que pareça, todas estas fases do niilismo parecem provenientes de uma mesma vontade de verdade, um desejo de dar explicações ao mundo e atribuir sentidos à existência. É essa vontade de verdade que faz o homem criar os mitos, os deuses, o “mundo verdadeiro”, o paraíso, para ter alguma verdade a se agarrar. É esta mesma vontade de verdade, entretanto, que faz também o homem dar-se por insatisfeito com as pseudoverdades que cria e o leva, através da razão, a destruir os mitos, os deuses, os “mundos verdadeiros”, os paraísos por ele mesmo criados, a fazer da razão instrumento da verdade, possibilitando o surgimento do racionalismo da modernidade.

Esta mesma vontade de verdade, todavia, obriga-nos a questionar a razão e perceber que ela também não é suficiente para atingir a verdade objetiva pretendida. É a mesma vontade de verdade que leva o homem a perceber a intangibilidade da verdade e, em última instância, sua inexistência. É esta vontade de verdade, também, que o leva a, percebendo que a verdade não existe, angustiar-se diante da falta de sentido da existência, entregando-se a um niilismo reativo (passivo), vegetativo e nostálgico da metafísica ou a um niilismo ativo e consumado. Assim, desta complexa relação (uma relação de certo modo até dialética) entre vontade de verdade e ausência de verdade surgem as várias formas de niilismo das quais Nietzsche nos fala, principalmente, em seus fragmentos póstumos, e a consumação do niilismo, o niilismo perfeito, seria o ultrapassamento desta vontade de verdade forte.

 

3.2.2. Niilismo incompleto e niilismo consumado

 

Nietzsche entendia por niilismo incompleto aquela forma de niilismo que se impõe como um “estado psicológico” voltado a uma desvalorização e dissolução dos valores tradicionais tidos como supremos, mas que põe, no lugar dos antigos valores, novos valores que possuem a mesma carga metafísica, o mesmo caráter supra-sensível, ideal, a pretensão de fundamento, fundação, Grund, verdade última. Nesta forma de niilismo, a dicotomia platônica entre mundo verdadeiro e mundo aparente ainda não se mostra superada, existe ainda uma fé na verdade, que apenas volta seu foco para novos valores. Nesta perspectiva, podemos afirmar que positivismo, cientificismo, naturalismo, mecanicismo, racionalismo, mostram-se como niilismos incompletos, que trocam de ídolo, mas mantém o culto. Assim também, na esfera política, com o nacionalismo, socialismo, anarquismo, chauvinismo, democratismo, etc...

Somente com o amadurecimento do niilismo, portanto com um niilismo completo, que exorcize definitivamente o fantasma de Platão e seus espectros, é possível desconstruir não somente os velhos valores metafísicos, mas também o lugar que eles ocupavam, ou seja, a ilusão do “mundo verdadeiro”. Este niilismo completo, no entanto, será inicialmente um niilismo passivo, um estado de decadência de poder ocasionado pela nostalgia da perda da verdade e da fundação/fundamento. O niilista passivo é aquele tomado pela angústia heideggeriana, pela náusea sartreana diante da falta de sentido da existência, pelo sentimento de absurdo do qual nos fala Albert Camus, mas incapaz de contornar este abismo. O homem absurdo camusiano, descrito de maneira soberba em “O Mito de Sísifo” e tão bem posto em movimento no personagem de Merseault no romance “O Estrangeiro” (e também no Roquentin sartreano de “A Náusea”), sente-se vazio, incapaz de fazer escolhas, já que não mais possui um fundamento último, já que percebe que qualquer escolha se dissolve em igual falta de sentido. Perde o interesse pela vida, passa a agir mecanicamente e movido por uma espécie de “ética da quantidade”[20], já que não há critérios para julgar a qualidade de suas ações. Seria, como nos coloca Franco Volpi, uma espécie de assimilação do budismo oriental pelo pensamento ocidental, um tropismo à postura apática e ataráxica, um cultivo do nada, do pessimismo, da negação, como podemos encontrar, por exemplo, no pensamento de uma série de românticos, em Schopenhauer e, de forma extremada, em Mainländer. A esta forma de niilismo podemos chamar, também, de niilismo reativo, caracterizado, principalmente, pela nostalgia de Deus, da metafísica, da verdade com seu caráter de fundação. O termo niilismo, em geral, vem sendo utilizado sempre como sinônimo desta forma de niilismo passivo, destrutivo e incapaz de construir, mas que não é, como veremos, a única forma de niilismo possível.

Já o maturar do niilismo completo poderá tirá-lo deste estágio de apatia e torná-lo em niilismo ativo, ou seja, em “incremento da vontade de poder” que se volta para a aceleração do processo de destruição dos antigos valores, sem nostalgia e passividade. Nietzsche denomina niilismo extremo este niilismo ativo que sustenta que “toda fé, todo verdadeiro é necessariamente falso”.

Quando o niilismo abandona seu aspecto meramente negativo e abre novamente uma possibilidade de afirmação, supera sua própria incompletude e torna-se niilismo consumado, niilismo perfeito, aquele niilismo que Nietzsche reivindica para si quando se auto-intitula “o primeiro niilista perfeito da Europa, que, sem dúvida, tem visto já em si o niilismo em seu mais profundo, que o tem atrás de si, debaixo de si, fora de si”[21]. Percebe-se, portanto, que a “superação” do niilismo não é, em si, verdadeiramente superação, mas ultrapassamento sem abandono, é um eterno “remeter-se a”, uma “torção”, “distorção”, “mergulhar-em”, ou, utilizando novamente a terminologia heideggeriana, é Verwindung, e não Überwindung. O niilista consumado é aquele que consegue agir e construir sem deixar de assumir o niilismo, o que consegue atuar de maneira positiva mesmo após ter exorcizado completamente de si o fantasma de Platão. Este niilismo ativo e consumado parece se tornar mais “dizível” (no sentido que Foucault adota para o termo) do que nunca no cenário pós-moderno e é justamente a forma de niilismo que se nos apresenta, conforme Gianni Vattimo, como única chance.

 

3.3. A morte de Deus e o niilismo consumado na era pós-moderna

 

O problema do niilismo consumado parece remontar, necessariamente, ao problema da existência ou não de Deus. Não é à toa que Gianni Vattimo afirma que “para Nietzsche, todo o processo do niilismo pode ser resumido na morte de Deus”[22]. A famosa sentença do deicídio exposta no fragmento 125 da Gaia Ciência parece a melhor expressão do ponto de partida do niilismo pós-moderno. Tomar posição diante do problema divino é tomar posição a respeito da crença na verdade última e no valor dos valores supremos.

Crer ou não em Deus não é um problema indiferente ao qual nos possamos dar ao luxo de não tomar posição. Uma existência autêntica, no sentido heideggeriano do termo, exige uma tomada de decisão, exige esta que, de todas, é a mais arriscada das apostas.

Aposta porque é impossível afirmar com exatidão se Deus existe ou não (e nesse sentido é desaconselhável alimentar um pensamento forte sobre o tema). O ateísmo coerente não é, absolutamente, a certeza da inexistência de Deus. Assim como o crente não pode ter certeza sobre a existência do ser supremo, também o ateu não pode pretender que sua falta de fé seja um saber. Vejamos o que, a este respeito, nos esclarece Comte-Sponville:

 

“Si encontráis a alguien que os diga: ‘Yo sé que Dios no existe’, no se trata de un ateo, sino de un imbécil. Y lo mismo sucede, desde mi punto de vista, si encontráis a alguien que os diga: ‘Yo sé que Dios existe’. Es un imbécil que confunde su fé com un saber”[23].

 

Assim, não sendo uma certeza, crer ou não em Deus mostra-se como uma aposta. Existem as duas opções, duas possibilidades, e cabe a cada um fazer sua escolha por aquela que entende ser mais provável. Não crer em Deus, portanto, também é um problema de fé (crer que Deus não existe), não uma verdade última. Abster-se de apostar, entretanto, é aceitar uma existência mecânica, inautêntica, sem reflexão, na qual não se possui uma perspectiva (ainda que fraca) que lhe permita se posicionar ante o mundo. Isso porque se Deus existe, existe a verdade última, os valores últimos, e é extremamente urgente que o homem se porte de acordo com eles. Se Deus não existe, entretanto, os valores últimos estão desvalorizados, a existência carece de fundamento e finalidade, “tudo é permitido”, como exclamava Ivan Karamazov.

A mudança de eixo promovida pela modernidade, que fez a cultura ocidental migrar do teocentrismo pré-moderno ao antropocentrismo, iniciou este enfraquecimento de Deus e, conseqüentemente, da metafísica e da verdade. A morte de Deus não é, portanto, um fenômeno abrupto e puramente pós-moderno. O próprio projeto moderno foi responsável pelo deicídio, a pós-modernidade se encarrega apenas de encontrar o cadáver de Deus e promover seus ritos funerais (parece que só agora o odor da decomposição se alastra pelas ruas das grandes metrópoles pós-industriais e passa a incomodar o cidadão comum).

Conforme nos esclarece Zygmunt Bauman, a vida dos homens e mulheres pré-modernos continha pouca incerteza[24]. A religiosidade que perpassava toda a cultura trazia consigo um pacote de certezas e verdades que poderiam guiar a vida dos homens. A única janela possível para algum anúncio de incerteza se encontrava na morte, a vida antes da morte era uma vida de certezas.

Com a modernidade, entretanto, deu-se a secularização da cultura, a laicização das instituições, o escorregar do homem ao centro e, conseqüentemente, o esquecimento de Deus. Os valores modernos, entretanto, permaneceram os mesmos valores supremos de origem judaico-cristã e seus fundamentos, em regra, não costumavam ser questionados, se tornam auto-suficientes. Surge, portanto, como bem colocou Sartre, “un certain type de morale laïque qui voudrait supprimer Dieu avec le moins de frais possible[25], deixando a incerteza ainda pouco presente na vida do homem moderno, que acreditava no poder libertador da razão, no curso histórico em direção ao progresso e no próprio valor a priori dos antigos valores. A verdade racional era sua certeza. Deus já estava morto, mas o homem ainda não estava livre.

Com o advento da sociedade pós-industrial, algumas novas características passaram a ser incorporadas pelos homens, desembocando no modelo de homem pós-moderno individualista, hedonista e narcisista. O sujeito se fragmenta ante a hipercomplexidade do real, passa a ser acossado pela hiper-informação, a ação intensa dos mídia, a velocidade dos meios de transporte e comunicação, a agitação das grandes metrópoles, o desejo irrefreado de consumo, o culto exacerbado do trabalho, dos simulacros e da auto-imagem, as pequenas práticas do dia-a-dia, a burocracia, a tecnociência, a loucura da vida pós-moderna e do capitalismo tardio. Somem os grandes ideais, as certezas, crenças, causas sociais. “Os valores foram trocados pelo modismo, os ideais pelo ritmo cotidiano. Saturado de consumo e informação, ele (o sujeito) encosta no conformismo refletindo a famosa apatia pós-moderna”[26]. A alienação de uma sociedade baseada no valor de troca faz com que restem ao indivíduo, em regra, duas possibilidades: adotar a postura da “criança alegre”, que ingenuamente segue sua vida maravilhada pelas luzes e cores, pelo movimento e as rápidas transformações do ambiente e da tecnologia, sem se questionar a respeito do sentido desta realidade, empurrado pelas práticas involuntárias do cotidiano e agindo em uma espécie de niilismo ativo incompleto; ou abraçar a postura do “andróide melancólico”, desgostoso com a falta de sentido de sua realidade, angustiado com a falta de certezas e de verdades, descontente com a sobrecarga de informações que é incapaz de assimilar, nauseado pela velocidade das transformações que é incapaz de acompanhar, desiludido com os ideais e as grandes causas, que já não vê sentido para agir, não vê critério que o possibilite fazer escolhas, e assim mergulha no nihil negativum, no niilismo passivo e incompleto[27].

De qualquer maneira, as ocupações mundanas e as preocupações do cotidiano são tantas e se apresentam tão vertiginosamente, que em qualquer das opções o indivíduo é levado a vivenciar o dia-a-dia sem refletir, mergulhado na prática e sem tempo para se questionar a respeito de problemas teóricos e fundamentadores. Some, assim, do cotidiano do sujeito pós-moderno, problemas como o de Deus, da morte ou da verdade. O homem se torna o Mechanical Animal denunciado por Marilyn Manson (figura que, poderíamos dizer, encarna a própria pós-modernidade – vestida em trapos e com feições extremamente niilistas), não faz mais suas escolhas, é escolhido por elas despercebidamente (“I don’t like the drugs, but the drugs like me”, canta Manson). O tempo livre é tempo de agir, não de pensar. É tempo de experimentar, não de conhecer – assim pensa o hedonista pós-moderno, que tem como maior pavor a possibilidade de desperdiçar uma experiência, perder uma oportunidade, deixar escorrer uma sensação. Não há tempo para preocupar-se com a verdade, “a experiência pós-moderna da verdade (...) é uma experiência estética e retórica”[28], como afirma Vattimo.

Sem tempo para a verdade, sem tempo para Deus (verdade última). Assim as grandes religiões do ocidente perdem espaço para as pequenas seitas religiosas que, mais que doutrinas metafísicas, são religiões personalizadas que oferecem ajuda ao homem, este homem que já não quer pensar ou escolher, que já não tem sequer critérios de escolha e, portanto, precisa do místico que escolha por si. Este homem que se sente incapaz e que não precisa de uma religião tradicional para dizer-lhe de suas limitações, mas de uma religião pós-moderna que lhe fale de tudo aquilo que ele é capaz de realizar. O crescimento das seitas religiosas na pós-modernidade tem a mesma raiz do crescimento da literatura de auto-ajuda: a insuficiência do homem em presidir sua vida e a necessidade de alguém que lhe diga que ele é capaz de fazê-lo (ainda que não o seja).

É assim que o homem contemporâneo, ainda que acredite que crê em Deus, age no dia-a-dia como se Ele não existisse. A religiosidade se transforma em símbolo tranqüilizador, mas já não é vivida no cotidiano, como nos denuncia Luigi Bogliolo:

 

“Siamo tutti um po´atei ogni volta che nella nostra vita pratica operiamo come se Dio non ci fosse, contro la sua legge e la sua volontà. Ogni volta che il nostro riconoscimento teoretico di Dio, della fede e della ragione, rimane inoperante agli effetti della nostra vita quotidiana”[29].

 

Mesmo os cristãos contemporâneos, portanto, cometem aquela que, de acordo com o Cardeal Carlo Maria Martini, seria a maior de todas as heresias: brincar de ser cristão (sem vivenciar a religião na prática cotidiana e sem refletir sobre ela e os mistérios divinos)[30]. O próprio crente contemporâneo já carece de Deus e, portanto, já é niilista, um niilista incompleto, que não tem consciência que o é.

Esse enfraquecimento inicial da crença abre espaço, na sociedade pós-moderna, para que o deicídio se torne cada vez mais “dizível” e plausível, possibilitando um ultrapassamento do pensar metafísico e a própria consumação do niilismo através da tomada de consciência do niilista incompleto. Assim, morte de Deus aponta, necessariamente, para a morte da verdade e a desvalorização dos supremos valores. “Se Deus não existe, então tudo é permitido”, reproduzindo novamente o dito do personagem dostoievskiano. Assumir a morte de Deus é assumir a consumação do niilismo. Decorre da morte de Deus uma liberdade extrema que se torna tanto dádiva como fardo. “Estamos condenados a ser livres”, como nos coloca Sartre, livres para escolher qualquer caminho e sabendo que todos os caminhos são igualmente desprovidos de sentido. Se não há Deus, não há pecado, não há céu e inferno, não há bem e mal, certo e errado. Se não há Deus, não há vida após a morte, e assim a própria morte se torna o supremo escândalo, o maior dos absurdos, “a nadificação de todos os nossos projetos”, em termos sartreanos. Sem fundamentos norteadores, viver se torna sobreviver, como ensina Derrida.

Ante essa situação de absurdo e falta de sentido surge a necessidade de uma postura ativa do niilismo, uma reconstrução do terreno do pensar a partir da herança e do enfraquecimento das violentas verdades fortes da metafísica. Esta é a tarefa do niilista perfeito, do niilista consumado, que agora já pode emergir do atual contexto histórico, aparentemente caótico, da pós-modernidade.

 

3.4. Heidegger e o “pensamento fraco” de Gianni Vattimo

 

3.4.1. Conseqüências do Deicídio: o enfraquecimento do ser e o ultrapassamento da metafísica

 

A morte de Deus anuncia, também, a morte dos valores, da fundação, do ser, da ousia, da metafísica. “Não possuímos mais a verdade”, escreve Nietzsche em um de seus fragmentos póstumos. Surge, portanto, a necessidade de busca de novas formas de se posicionar, de modelos para a superação da atual crise da filosofia, anunciam-se as “novas lutas” de que nos falava Nietzsche no fragmento 108 da “Gaia Ciência”[31]. Advém, conforme Rossano Pecoraro, uma nova missão à Filosofia:

 

“Convocada a elaborar ao menos tentativas de resposta ou de reação, a filosofia interrogou-se a respeito da alternativa: deve-se renunciar necessariamente à verdade (em todos os seus sentidos e acepções) ou é possível apelar para novas razões, menos pretensiosas e mais estratificadas, com as quais enfrentar e contornar a crise, sem que a teoria perca o seu poder?”[32]

 

Neste panorama surge, na Itália, um paradigma sintomático, o chamado “pensamento fraco”[33] (pensiero debole), encabeçado pelo filósofo Gianni Vattimo, direcionado a uma postura assumidamente niilista de radical renúncia a qualquer tipo de tentativa de preservar ou reconstituir a racionalidade metafísica (ao contrário de tentativas anteriores que mergulhavam em uma verdadeira nostalgia da verdade). A morte da razão no cenário da pós-modernidade passa a ser encarada como um acontecimento positivo, um caminho que se abre rumo ao ultrapassamento da metafísica ou a seu “enfraquecimento”, deixando, assim, de lado a pretensão do fundamento último, forte, universalizante, sistematizador e, conseqüentemente, uma chance de vitória sobre a violência que acompanha a metafísica e a crença nas verdades últimas (tão absolutas que merecem ser impostas).

Este pensamento fraco teria como maiores influências as heranças do pensamento niilista nietzscheano, da ontologia ultrametafísica heideggeriana e da hermenêutica de Gadamer. Seriam cinco as principais características do pensamento fraco, conforme Pecoraro, quais sejam: 1) a necessidade de tomar a sério a descoberta promovida por Nietzsche e Marx da relação de causalidade entre a evidência metafísica (poder coativo do fundamento) e as relações de domínio, opressão e poder em micro e macro-escala, ou seja, o nexo causal existente entre verdade e violência; 2) a rejeição, entretanto, de uma mera necessidade de lançar-se à elaboração de uma filosofia que tenha como funções últimas o desmascaramento e a desmistificação, por si sós; 3) por via inversa, utilizar esta tomada de consciência como chance para o desenvolvimento de um novo modo, mais amigável, menos angustiado e sem nostalgia da metafísica, de ver o mundo das aparências, dando especial atenção aos procedimentos discursivos, retóricos, e às formas simbólicas, entendidos, agora, como locais de “uma possível experiência do ser”; 4) uma experiência do ser como acontecimento, mas não no sentido de glorificar os simulacros dos quais nos falam Deleuze e Baudrillard, o que daria a eles a mesma força de verdade metafísica, mas no sentido de um pensamento capaz de “articular na meia-luz”, consciente de que a experiência total do ser é impossível, de que o ser, ao mesmo tempo que se envia, se subtrai; 5) a identificação entre ser e linguagem, como caminho para entender o ser como rastro, lembrança, não mais como ente, mas como acidente, como nos ensina Heidegger, em suma, um enfraquecimento do ser[34].

Nota-se, portanto, que o niilismo vattimiano tem estreita ligação com o enfraquecimento do ser e, necessariamente, com sua não identificação com o ente. Em uma ontologia niilista (se é que podemos falar nisso) e, conseqüentemente, hermenêutica, como veremos, o ser já não é, acontece. Heidegger, que parece ser a base para o pensamento ontológico de Vattimo, já nos dizia que o ser não é o ente, dotado de uma verdade velada, não é ontos on passivo a ser desvendado pelo sujeito. O ser, nesta perspectiva, só pode ser encarado como envio (Geschik), transmissão (Über-lieferung). Não há mais um ser verdadeiro, uma condição objetiva de alcançar o ente. O ser é ativo, se envia, se transmite, não é ente, dotado de essência e finalidade pré-determinadas, mas acidente, evento (Ereignis), ocorre por acaso, sem fins precípuos, e necessita, portanto, da interpretação e da linguagem para ganhar sentido.

Ocorre que esse ser, ao mesmo tempo que se envia, se subtrai, não se transmite por inteiro, oculta determinadas características, de forma que o sujeito se torna incapaz de percebê-lo objetivamente, em sua completitude. O que resta à tentativa de apropriação promovida pelo sujeito são as possibilidades que o ser encerra como acidente. Assim, a percepção do ser adquire um caráter de contingência, torna-se Im-posição (Ge-Stell), e ao mesmo tempo rememoração (An-denken) do ser. A compreensão dos objetos como objetos que se dão no tempo se torna rememoração, não mais percepção da presença concreta e permanente do ente, do ontos on.

O ser, dessa maneira, se enfraquece, passa a carecer de uma verdade final, objetiva. A finalidade da percepção e da interpretação do ser não é mais alcançar sua verdade, sua essência, mas trabalhar com as possibilidades que sua existência histórica comporta, abrindo caminho para um viés criativo no trabalho hermenêutico. Esta mudança de perspectiva, entretanto, deve ocorrer sem trauma, sem nostalgia do ontos on, e sem negação ou desistência do ser (sob pena de queda no niilismo passivo). É impossível falar objetivamente sobre o ser, o que não significa, como poderia pretender o Wittgenstein do Tractatus Logico-Philosophicus, que sobre o que não podemos falar devemos calar. É necessário ainda, e mais do que nunca, falar do ser, é necessário acercar-se dele, já que é no próprio discurso sobre sua existência que o ser irá se construir. Ninguém mais possui o domínio do ente, assim o ser torna-se democratizado, todos podem aproximar-se dele e o espaço retórico e comunicativo se abre às mais diversas opiniões a seu respeito. É o retorno da antiga doxa dos sofistas em detrimento da ilusão da aletheia, o afastamento do fundamento forte, o ultrapassamento sem abandono (Verwindung) da metafísica, jogando para escanteio ou enfraquecendo as possibilidades da violência que dela decorre. Abre-se espaço, portanto, para uma cultura da tolerância, do pluralismo, da diferença, da caridade entendida como pietas, conceito que se tornará chave no pensamento de Vattimo.

O ultrapassamento da metafísica, portanto, só poderia se mostrar possível através da consumação do niilismo, mas não o niilismo tornado em metafísica do nada, que pretenda inverter as relações e afirmar que o ser não é, enquanto o não-ser é, mas um niilismo entendido como processo de enfraquecimento, de caducidade, de tendência indefinida de redução ao nada. Não significa, portanto, dizer que o ser é o nada, mas melhor que o ser tende ao nada. Assim, a caridade de que nos fala Vattimo “evoca a mortalidade, a finitude, a caducidade; desvela e corrói as pretensões da força, do poder, do domínio, do fundamento único, da presença; mostra o abismo dos vestígios, a falta, a angústia. Mas também aponta, francamente, para um caminho”[35]. Este ultrapassamento da metafísica promovido pelo niilismo seria a chance que se apresenta para o enfraquecimento das estruturas de tradição metafísica do ser, da verdade, retirando do pensamento qualquer pretensão de superioridade, primazia, potência fundadora. O pensamento ontologicamente fraco não possui, portanto, qualquer razão para exigir para si a posição de soberania que lhe atribuíra a metafísica e, portanto, não traz em si fundamentos que legitimem sua imposição violenta.

 

3.4.2.     Hermenêutica niilista como ontologia da pós-modernidade

 

Conforme percebemos da ontologia heideggeriana, parece haver uma identificação entre ser e linguagem.  Esta perspectiva hermenêutica de Heidegger, entretanto, tem, conforme Gianni Vattimo, base em dois outros aspectos do pensamento do filósofo alemão: (1) a análise do Dasein (Ser-aí, ou seja, o homem) como “totalidade hermenêutica” e, (2) nas obras do último Heidegger, a tentativa de definir um pensamento ultrametafísico como An-denken (rememoração) e relação com a tradição (herança, no sentido derridiano).  Estes são os dois elementos que, segundo Vattimo, dão à hermenêutica de Heidegger um sentido de hermenêutica niilista[36].

O homem, como Ser-aí (Dasein), ser lançado no mundo, não está efetivamente em contato com os objetos que constituem o mundo, já que é impossível uma compreensão destes como entes, como presença. O Dasein está, isto sim, sempre familiarizado com uma totalidade de significados, um contexto histórico que lhe permite usar como referência ante o mundo que se lhe apresenta (e também se lhe oculta/subtrai). A este pano de fundo interpretativo do Ser-aí Heidegger chamava de pré-compreensão (algo semelhante ao que Gadamer, posteriormente, viria a chamar “horizonte histórico”). Neste sentido, o mundo, de acordo com Heidegger, só se dá ao Ser-aí no interior de um projeto, já que a existência humana é entendida pelo filósofo como um permanente projetar-se para o futuro (daí a idéia do homem como um ser-para-a-morte – Zum-Tode-sein). O projeto do ser-no-mundo (in der-Welt-sein) é o contexto em que se inserem as coisas e, somente neste contexto, elas adquirem algum sentido. Nas palavras de Vattimo:

 

“O Ser-aí existe na forma de projeto, no qual as coisas só são na medida em que pertencem a esse projeto, na medida em que têm um sentido nesse contexto. Essa familiaridade preliminar com o mundo, que se identifica com a própria existência do Ser-aí, é o que Heidegger chama de compreensão ou pré-compreensão. Qualquer ato de conhecimento nada mais é que uma articulação, uma interpretação dessa familiaridade preliminar com o mundo”[37].

 

Assim, ficam claros os contornos niilistas desta hermenêutica heideggeriana que, praticamente, como Nietzsche, conclui que “não há fatos, somente interpretações”. O ser não é fundamento, mas orienta-se em direção a um desfundamento, o Ser-aí se projeta em direção ao fim de seus projetos e nesse sentido é, a um só tempo, ser-no-mundo e ser-para-a-morte. Uma ontologia hermenêutica que propõe o não fundamento do ser e se embasa na relação do ser com sua ausência de fundamentos possui, portanto, claramente, nuances niilistas. Vejamos novamente o que nos diz Vattimo:

 

“Em que medida pode-se chamar de niilista essa visão da constituição hermenêutica do Ser-aí? Antes de mais nada, num dos sentidos atribuídos a esse termo por Nietzsche, num apontamento colocado pelos editores no início da edição de 1906 da Der Wille zur Macht niilismo é aquela situação em que, como na revolução copernicana, ‘o homem rola do centro para X’. Para Nietzsche, isso significa que niilismo é a situação em que o homem reconhece explicitamente a ausência de fundamento como constitutiva da sua condição (aquilo que, em outras palavras, Nietzsche chama de morte de Deus). Ora, a não identificabilidade de ser e fundamento é um dos pontos mais explícitos da ontologia heideggeriana: o ser não é fundamento, qualquer relação de fundação se dá já sempre no interior de uma época do ser, mas as épocas como tais são abertas, e não fundadas, pelo ser. Numa passagem de Ser e tempo, aliás, Heidegger fala explicitamente da necessidade de ‘abandonar o ser como fundamento’, se se quiser aproximar de um pensamento não mais metafisicamente orientado apenas para a objetividade”[38].

 

Ademais, para compreender os traços niilistas da hermenêutica heideggeriana, é necessário trazer à tona sua visão do pensamento como An-denken, como rememoração, revisitação. Assim, o ultrapassamento da metafísica (que nada mais é que o esquecimento e abandono do ser) em Heidegger só pode ser visto como um ultrapassamento em que não há abandono, mas recordação. Uma rememoração da história da metafísica, um remeter-se a ela, um torcê-la e distorcê-la. “É repercorrendo a histórica da metafísica como esquecimento do ser que o Ser-aí se decide pela sua morte e, desse modo, se funda como totalidade hermenêutica, cujo fundamento consiste na ausência de fundamento”[39]. Este pensamento como An-denken, este rememorar, é justamente o oposto do esquecimento metafísico, o abandono do ser, e é aquele “salto no abismo da mortalidade” que, de acordo com Heidegger, caracteriza a existência autêntica. O ser nunca pode ser captado ou pensado como presença. Este pensamento que não o abandona, que não o esquece, é justamente o único possível, o que recorda o ser como já desaparecido, ido embora, ausente, o que aceita que o ser só pode ser percebido em seus rastros e restos. Assim, a respeito desse modelo de pensamento fundado na An-denken, é possível dizer o mesmo que dizia Heidegger a respeito do niilismo: nesse pensamento, “do ser como tal, nada mais há”.

Nestes termos, o ser já não é possível, mas é possível ainda recordá-lo, interpretar essa recordação e falar sobre ela. Ainda é possível falar do ser, motivo pelo qual não devemos abandoná-lo ou desistir dele. O fato, entretanto, de que o ser só poderá ser descrito da perspectiva histórica de um projeto do Ser-aí, do ser-no-mundo, impossibilita o alcance, em qualquer discurso, de uma verdade objetiva a respeito deste ser. É assim que a verdade e o sentido do ser vai sendo adquirido no próprio discurso, que o adeqüa ao projeto do ser-no-mundo. Esta é a hermenêutica que Vattimo propõe para a pós modernidade, uma hermenêutica em que “a experiência pós-moderna da verdade (...) é uma experiência estética e retórica”[40].

Estética porque o ser interpretado já não é, e a interpretação já não busca sua verdade, mas uma das possibilidades que encerra seu acontecer, seu dar-se como evento (Ereignis). O ser é interpretado, então, como obra, é encarado como se encara a obra de arte (como “pôr-em-obra da verdade”) e qualquer interpretação possível é interpretação estética. Também nos falam sobre esta raiz estética de qualquer hermenêutica Schleiermacher e Gadamer[41].

Retórica porque, nesta perspectiva heideggeriana, a linguagem se torna “a morada do ser”, o local em que o ser se constrói em sentido. Este é o Heidegger que, graças ao trabalho de Gadamer escavando a relação entre hermenêutica e retórica, se aproxima do Wittgenstein dos “jogos da linguagem”. É Gadamer quem nos dirá que “o ser que pode ser compreendido é linguagem”, ou seja, que o ser tende a dissolver-se nesta linguagem ou, ao menos, resolver-se nela[42]. Neste contexto em que as coisas são o que interpretamos e dizemos dela, ressurge uma argumentação retórica, aquela que já não possui estreita identidade com o discurso racional, aquela em que, conforme coloca Chaïm Perelman, a racionalidade é trocada pela razoabilidade, o discurso constrói um significado razoável dentre as possibilidades de sentido que encerra o ser. A verdade já não existe na coisa-em-si, mas é construída no discurso e na interpretação. Niilismo e retórica voltam a andar juntos, de braços dados como já andavam em suas origens na antiga Grécia, em Górgias. Esta é a ontologia hermenêutica niilista que se anuncia para a pós-modernidade.

 

3.5.           Uma chance que se abre: a Verwindung heideggeriana e a escolha e enfraquecimento da herança